Crise convulsiva na escola: como identificar, o que fazer e quando há risco à vida

Uma criança cai repentinamente, perde a consciência, apresenta rigidez no corpo e começa a fazer movimentos involuntários. Diante dessa cena, é comum que professores e outros profissionais sintam medo e não saibam como agir. Algumas pessoas tentam segurar o estudante, abrir sua boca ou colocar um objeto entre os dentes. Entretanto, essas atitudes podem causar ferimentos e agravar a situação.
A crise convulsiva exige atenção, rapidez e, principalmente, conhecimento. A escola não substitui o atendimento médico, mas precisa saber proteger o estudante até a chegada do serviço de emergência.
O que é uma crise convulsiva?
A crise convulsiva acontece quando uma atividade elétrica anormal no cérebro provoca alterações involuntárias nos movimentos, na consciência ou no comportamento.
Na forma mais conhecida, chamada crise tônico-clônica, a pessoa pode perder a consciência, apresentar rigidez muscular e, depois, movimentos repetitivos dos braços e das pernas.
No entanto, nem toda crise epiléptica provoca uma convulsão evidente. Algumas podem se manifestar por meio de:
- olhar fixo e ausência de resposta;
- interrupção repentina da fala ou da atividade;
- movimentos repetitivos da boca, das mãos ou dos olhos;
- confusão súbita;
- queda sem causa aparente;
- alteração momentânea do comportamento;
- sensações estranhas, medo súbito ou percepção de cheiros inexistentes;
- perda ou redução da consciência.
Por isso, conhecer o estudante e observar mudanças repentinas em seu comportamento é importante, especialmente quando já existe um diagnóstico neurológico.
Convulsão e epilepsia são a mesma coisa?
Não.
A convulsão é uma manifestação que pode ocorrer por diferentes causas, como febre, alterações metabólicas, traumatismo craniano, intoxicação, infecção do sistema nervoso, redução importante da glicose no sangue ou epilepsia.
A epilepsia é uma condição neurológica caracterizada pela predisposição a crises epilépticas recorrentes. Uma pessoa pode apresentar uma crise convulsiva isolada sem necessariamente ter epilepsia.
O diagnóstico deve ser realizado por profissional de saúde. A escola não deve tentar determinar a causa da crise, mas observar o que aconteceu, prestar os primeiros socorros e comunicar as informações aos responsáveis e à equipe médica.
Como reconhecer uma crise tônico-clônica?
Durante uma crise, o estudante pode apresentar:
- perda súbita da consciência;
- queda;
- corpo rígido;
- movimentos involuntários e repetitivos;
- mandíbula contraída;
- salivação;
- respiração ruidosa ou aparentemente irregular;
- alteração temporária da coloração dos lábios;
- perda de urina ou fezes;
- mordedura da língua;
- confusão, cansaço ou sonolência após o episódio.
A crise pode parecer muito longa para quem está observando, mesmo quando dura menos de dois minutos. Por isso, uma das providências mais importantes é marcar o horário de início.
O que fazer durante uma crise convulsiva?
1. Mantenha a calma e observe o horário
Cronometre a duração da crise desde o início. Essa informação ajuda a determinar a gravidade da situação e será importante para o atendimento médico.
Se possível, peça para outro profissional acionar a equipe gestora, buscar o protocolo individual do estudante e afastar os demais alunos, preservando sua privacidade.
2. Proteja a cabeça
Coloque algo macio sob a cabeça, como um casaco dobrado, uma toalha ou uma mochila sem objetos rígidos. Isso reduz o risco de traumatismo provocado pelo impacto contra o chão.
3. Afaste os objetos perigosos
Retire cadeiras, mesas, brinquedos ou outros objetos que possam causar ferimentos. Se a crise ocorrer perto de uma escada, janela, piscina, equipamento elétrico ou outro local perigoso, proteja o estudante sem conter seus movimentos à força.
4. Afrouxe roupas apertadas
Afrouxe golas, gravatas, cachecóis ou peças que estejam apertadas ao redor do pescoço.
5. Lateralize o estudante quando for possível
Coloque-o de lado, na posição lateral de segurança, assim que isso puder ser feito sem força. Essa posição facilita a saída de saliva ou vômito e ajuda a manter as vias respiratórias livres.
Se não for possível lateralizá-lo durante os movimentos, faça isso assim que a fase de contrações terminar.
6. Permaneça ao lado dele
Não deixe o estudante sozinho. Observe sua respiração, a duração da crise e as características dos movimentos.
Quando ele começar a recuperar a consciência, fale com voz tranquila. Explique onde está e que está sendo cuidado. É comum ocorrer confusão, sonolência, dor de cabeça, vergonha ou dificuldade para lembrar o que aconteceu.
O que nunca deve ser feito?
Não coloque nada na boca
Não introduza dedos, colheres, canetas, panos, remédios ou qualquer outro objeto entre os dentes.
A pessoa não engole a própria língua durante uma convulsão. A tentativa de abrir a boca pode quebrar dentes, lesionar a mandíbula, obstruir a respiração ou ferir quem está prestando o atendimento.
Não segure os movimentos
Não imobilize braços e pernas e não tente interromper as contrações. A contenção pode provocar luxações, fraturas e outras lesões.
Não ofereça água, alimentos ou medicamentos pela boca
Enquanto não estiver completamente consciente, o estudante corre risco de engasgar. Não ofereça água, comida ou comprimidos durante ou imediatamente após a crise.
Medicamentos de resgate somente devem ser utilizados quando houver prescrição, plano individual previamente estabelecido, autorização formal e profissional devidamente capacitado, conforme as normas da instituição e da rede de ensino.
Não jogue água no rosto
Também não sacuda o estudante, não grite e não ofereça álcool ou outras substâncias para ele cheirar. Essas medidas não interrompem a crise e podem causar outros riscos.
Não faça respiração boca a boca durante as contrações
A respiração pode parecer irregular durante uma crise tônico-clônica. O mais importante é proteger a pessoa, aguardar o término dos movimentos e verificar a respiração em seguida.
Se, depois que os movimentos terminarem, o estudante não estiver respirando normalmente, acione imediatamente o SAMU e siga as orientações fornecidas pelo atendente. A reanimação cardiopulmonar deve ser iniciada por pessoa capacitada.
Quando a crise pode representar risco à vida?
Uma convulsão prolongada ou crises repetidas sem recuperação da consciência podem caracterizar uma emergência neurológica chamada estado de mal epiléptico.
O SAMU deve ser acionado pelo número 192 quando:
- a crise durar cinco minutos ou mais;
- ocorrer uma segunda crise sem que o estudante recupere a consciência;
- for a primeira crise conhecida;
- o estudante permanecer inconsciente ou apresentar dificuldade para respirar depois que os movimentos terminarem;
- houver lesão importante, sangramento ou suspeita de traumatismo craniano;
- a crise acontecer dentro da água;
- houver suspeita de intoxicação;
- o estudante tiver diabetes;
- a pessoa estiver grávida;
- a crise for diferente do padrão habitual informado no plano individual;
- a equipe escolar estiver em dúvida sobre a gravidade;
- o protocolo individual determinar o acionamento imediato.
Ao ligar para o SAMU, informe:
- nome e idade aproximada do estudante;
- endereço completo da escola;
- horário de início e duração da crise;
- se ele está respirando;
- se houve queda ou ferimento;
- se existe diagnóstico conhecido;
- se ocorreu mais de uma crise;
- quais medidas foram realizadas.
Siga as orientações do atendente e mantenha uma pessoa na entrada da escola para facilitar a chegada da equipe.
Toda crise convulsiva leva à morte?
Não. A maioria das crises termina espontaneamente em poucos minutos e não provoca morte.
Entretanto, crises prolongadas, crises sucessivas, comprometimento respiratório, acidentes durante o episódio e determinadas condições clínicas podem representar risco à vida. Por isso, marcar o tempo e reconhecer os sinais de emergência são atitudes essenciais.
Também é importante não banalizar uma crise conhecida. O fato de o estudante já ter epilepsia não significa que toda ocorrência possa ser tratada como algo habitual. Mudanças na duração, intensidade, recuperação ou padrão da crise precisam ser comunicadas à família e avaliadas por profissionais de saúde.
O que fazer depois da crise?
Após o término dos movimentos:
- mantenha o estudante de lado;
- verifique se ele está respirando normalmente;
- observe se existem ferimentos;
- preserve sua privacidade;
- não permita que ele se levante imediatamente;
- permaneça ao seu lado até a recuperação;
- comunique a direção e a família;
- siga o plano individual e as normas da instituição;
- registre detalhadamente o episódio.
O estudante pode precisar dormir ou descansar. A decisão sobre permanência na escola, encaminhamento para atendimento ou retorno para casa deve considerar seu estado, o plano de saúde individual, a orientação da família e, quando acionado, o serviço de emergência.
Como registrar o episódio?
O registro escolar deve ser objetivo e descrever fatos observados, sem interpretações ou diagnósticos.
Anote:
- data e horário;
- local onde ocorreu;
- atividade realizada antes da crise;
- comportamento observado no início;
- partes do corpo envolvidas;
- presença de rigidez, movimentos, queda ou perda de consciência;
- duração;
- condição da respiração;
- coloração da pele ou dos lábios;
- presença de vômito, salivação, perda de urina ou ferimentos;
- tempo necessário para recuperar a consciência;
- medidas adotadas;
- horário de contato com a família e com o serviço de emergência;
- profissionais que acompanharam a ocorrência.
Se houver câmeras no ambiente, a instituição deve preservar a privacidade do estudante e seguir as normas de proteção de dados. Filmar uma criança em crise com celular pessoal ou divulgar imagens é inadequado e pode violar sua dignidade.
A importância do plano individual de emergência
Quando a escola recebe um estudante com histórico de epilepsia ou crises convulsivas, deve solicitar à família e aos profissionais de saúde um plano individual atualizado.
Esse documento pode informar:
- como as crises geralmente se manifestam;
- duração habitual;
- sinais que indicam maior gravidade;
- situações que exigem o SAMU;
- contatos de emergência;
- cuidados posteriores;
- existência de medicação de resgate e condições legalmente estabelecidas para sua utilização;
- limitações ou cuidados em atividades específicas.
O plano deve ser conhecido pelos profissionais que acompanham o estudante, inclusive professores substitutos, monitores, equipe gestora e responsáveis por passeios ou atividades fora da escola.
A escola precisa estar preparada
A Lei nº 13.722/2018, conhecida como Lei Lucas, determina a capacitação em noções básicas de primeiros socorros para professores e funcionários de estabelecimentos públicos e privados de educação básica e de recreação infantil.
Entretanto, a existência da lei não deve transformar o professor em profissional de saúde. O objetivo é oferecer conhecimentos que permitam reconhecer uma emergência, reduzir riscos e prestar os cuidados iniciais até a chegada do atendimento especializado.
A instituição também deve:
- manter os contatos de emergência atualizados;
- definir quem liga para o SAMU e quem acompanha os demais alunos;
- garantir acesso rápido à entrada da escola;
- realizar treinamentos periódicos;
- incluir funcionários de diferentes turnos e funções;
- revisar os protocolos após cada ocorrência;
- evitar que somente um profissional conheça o plano do estudante.
Conhecimento protege e também combate o preconceito
Além do risco físico, estudantes com epilepsia podem sofrer exclusão, medo, superproteção ou constrangimento.
Após uma crise, os colegas não precisam receber detalhes médicos. Contudo, a escola pode trabalhar, de maneira respeitosa e adequada à idade, a importância de pedir ajuda, manter o espaço livre e não filmar ou zombar de alguém que esteja passando mal.
Uma crise convulsiva não diminui a capacidade intelectual nem o valor de uma pessoa. Com acompanhamento médico, planejamento e acolhimento, estudantes com epilepsia podem aprender, participar e desenvolver-se no ambiente escolar.
Saber o que fazer diante de uma convulsão não elimina o medo, mas impede que o medo conduza a atitudes perigosas. Na escola, preparação, organização e respeito podem proteger uma vida.
Profa. Fran Narnib Lorenzon
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui treinamento prático em primeiros socorros, avaliação médica ou os protocolos oficiais da rede de ensino.
Fontes consultadas
- Hospital Universitário da Rede Ebserh: orientações sobre epilepsia e primeiros socorros
- Organização Mundial da Saúde: como ajudar uma pessoa durante uma crise
- Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina: primeiros socorros em crise convulsiva
- SAMU Ceará: quando acionar o serviço 192
- Lei nº 13.722/2018 — capacitação em primeiros socorros nas escolas









