A Mulher que Estou Construindo

A menina que ainda vive em mim

Infância, necessidades emocionais e acolhimento da própria história

Frase para reflexão:

“A mulher adulta que sou ainda carrega lembranças, necessidades e sentimentos da menina que um dia fui.”

O tempo passa, o corpo cresce e a vida nos entrega novas responsabilidades. Tornamo-nos adultas, assumimos compromissos, cuidamos de pessoas, tomamos decisões e aprendemos a resolver problemas. Por fora, parecemos ter deixado a infância para trás.

Mas uma parte daquela menina continua vivendo dentro de nós.

Ela aparece quando sentimos um medo desproporcional de sermos rejeitadas. Quando uma crítica nos paralisa. Quando precisamos da aprovação de todos para acreditar que fizemos algo certo. Quando nos sentimos pequenas diante de determinadas pessoas ou situações.

Também aparece quando experimentamos alegria, curiosidade e espontaneidade. Quando fazemos algo de que gostávamos na infância, rimos sem preocupação ou nos permitimos descansar sem precisar demonstrar produtividade.

A menina que vive em nós não carrega apenas feridas. Ela também preserva sonhos, criatividade, afetos e partes de nossa personalidade que talvez tenham sido silenciadas ao longo do caminho.

Olhar para essa menina não significa viver presa ao passado. Significa compreender como algumas experiências ainda influenciam nossas emoções, nossos relacionamentos e a mulher que estamos construindo.

A infância não desaparece quando crescemos

As primeiras experiências afetivas participam da construção da maneira como percebemos a nós mesmas e nos relacionamos com as pessoas.

Quando uma criança encontra adultos disponíveis, que reconhecem seus sentimentos e oferecem proteção, ela tende a desenvolver maior segurança para explorar o mundo. Aos poucos, aprende que pode pedir ajuda, expressar necessidades e continuar sendo amada mesmo quando erra.

Entretanto, nem todas as meninas cresceram em ambientes emocionalmente seguros.

Algumas precisaram amadurecer cedo. Cuidaram dos irmãos, ajudaram nas responsabilidades da casa ou aprenderam a administrar os conflitos dos adultos. Outras viveram cercadas de críticas, comparações, silêncio, medo ou instabilidade.

Há meninas que tiveram suas necessidades materiais atendidas, mas não encontraram espaço para falar sobre o que sentiam. Receberam alimento, roupa e educação, mas raramente foram abraçadas, ouvidas ou tranquilizadas.

Muitas cresceram ouvindo que não tinham motivos para chorar, que eram sensíveis demais ou que precisavam parar de fazer drama.

A criança ainda não consegue pensar: “Os adultos ao meu redor possuem limitações emocionais e não sabem acolher aquilo que sinto.” Em vez disso, pode concluir: “O que sinto é errado”, “Estou incomodando” ou “Não mereço atenção”.

Essas conclusões infantis podem continuar influenciando a vida adulta, mesmo quando não percebemos.

A menina que precisou crescer cedo demais

Algumas mulheres não se lembram de terem vivido a infância com liberdade. Desde pequenas, aprenderam a ser responsáveis, prestativas e cuidadosas.

Talvez tenham convivido com dificuldades financeiras, doenças, conflitos familiares ou adultos emocionalmente indisponíveis. Em muitos momentos, precisaram compreender situações para as quais ainda não tinham maturidade.

A menina aprendeu a não dar trabalho.

Guardava o choro porque alguém já estava sofrendo mais. Tentava resolver os problemas porque os adultos pareciam incapazes de fazê-lo. Tornou-se observadora, atenta ao humor das pessoas e preparada para perceber qualquer sinal de perigo.

Essa capacidade pode ter ajudado a criança a atravessar momentos difíceis. Na vida adulta, porém, pode transformar-se em vigilância constante, dificuldade para descansar e sensação de que tudo depende dela.

A mulher continua tentando prever problemas, controlar situações e cuidar de todos. Não consegue relaxar porque, em algum lugar dentro dela, ainda existe uma menina que acredita que baixar a guarda não é seguro.

Talvez ela seja elogiada por sua força e responsabilidade. Poucas pessoas, entretanto, percebem o preço emocional de nunca se permitir ser cuidada.

Reconhecer que você precisou crescer cedo não diminui sua força. Apenas permite compreender de onde ela veio e por que, às vezes, ser forte se tornou tão cansativo.

A menina que aprendeu a não incomodar

Existem crianças que descobrem muito cedo quais comportamentos recebem aprovação.

A menina percebe que é elogiada quando permanece quieta, concorda com os adultos, ajuda sem reclamar e não expressa raiva. Quando chora, questiona ou demonstra necessidades, pode ser chamada de difícil, desobediente ou ingrata.

Para preservar o vínculo, ela aprende a diminuir sua presença.

Não pede aquilo de que precisa. Aceita o que não deseja. Observa as reações dos outros antes de expressar uma opinião. Torna-se especialista em adaptar-se ao ambiente.

Na vida adulta, essa aprendizagem pode aparecer como dificuldade para dizer “não”, medo de conflitos e necessidade de agradar.

A mulher evita discordar porque teme perder o afeto. Explica excessivamente suas decisões. Sente culpa quando prioriza uma necessidade própria. Permanece em relações desconfortáveis por medo de parecer egoísta.

Por trás da adulta que não consegue estabelecer limites, pode existir uma menina que aprendeu que ser aceita dependia de não incomodar.

Essa menina não precisa ser criticada por ter se adaptado. Ela fez o que estava ao seu alcance para preservar os vínculos importantes de sua vida.

Agora, porém, a mulher adulta pode aprender que expressar necessidades não a torna difícil. Ter limites não significa deixar de amar. Ocupar espaço não é o mesmo que retirar o espaço de outra pessoa.

A menina que ainda espera ser escolhida

A rejeição vivida na infância pode assumir diferentes formas.

Pode ter ocorrido por meio da ausência de um dos pais, da preferência demonstrada por outro filho, das comparações, das críticas constantes ou da falta de interesse por aquilo que a criança sentia e realizava.

Mesmo quando não consegue nomear essa experiência, a menina pode crescer tentando provar que merece ser escolhida.

Na vida adulta, ela se esforça excessivamente nos relacionamentos. Oferece mais do que recebe, tolera comportamentos que a ferem e acredita que, se for suficientemente compreensiva, bonita ou disponível, finalmente será valorizada.

Quando alguém se afasta, a dor atual se mistura com experiências antigas. Não é apenas o relacionamento presente que parece estar terminando. É como se todas as rejeições anteriores fossem confirmadas novamente.

A mulher pode pensar:

“Mais uma vez, não fui suficiente.”

“Todos acabam me deixando.”

“Deve haver algo errado comigo.”

A intensidade dessa dor não significa fraqueza. Pode indicar que a situação atual tocou uma ferida que já existia.

Acolher a menina que se sentiu rejeitada não significa prometer que ninguém voltará a nos decepcionar. Significa ajudá-la a compreender que o afastamento de alguém não determina seu valor.

Nem toda pessoa que não conseguiu amá-la da maneira necessária conhecia ou possuía recursos para oferecer o amor de que você precisava.

A menina que aprendeu a esconder os sentimentos

Muitas mulheres conseguem explicar o que aconteceu, mas sentem dificuldade para dizer como aquilo as afetou.

Elas narram experiências dolorosas com aparente tranquilidade. Dizem que “já passou”, que “outras pessoas sofreram mais” ou que “não adianta mexer nisso”. Entretanto, o corpo e os relacionamentos podem continuar expressando aquilo que nunca encontrou palavras.

Algumas desenvolveram o hábito de sorrir quando estão desconfortáveis. Outras sentem vontade de chorar, mas se desculpam imediatamente. Há mulheres que transformam a tristeza em irritação porque a raiva parece menos vulnerável.

Quando uma criança não encontra acolhimento para seus sentimentos, pode aprender a escondê-los para continuar pertencendo.

Mas aquilo que não foi expresso não necessariamente deixou de existir.

A emoção pode reaparecer como tensão, dificuldade de confiar, medo de abandono, necessidade de controle ou reação intensa diante de situações aparentemente pequenas.

Acolher os sentimentos não significa permitir que eles controlem todas as escolhas. Significa reconhecê-los como informações importantes sobre nossas experiências e necessidades.

Você pode sentir raiva sem ser uma pessoa ruim.

Pode sentir tristeza mesmo que outras pessoas tenham vivido situações mais difíceis.

Pode sentir medo e ainda assim avançar.

Pode reconhecer uma dor antiga sem permitir que ela determine todo o seu futuro.

A menina que ainda deseja brincar

Nem tudo o que carregamos da infância está relacionado ao sofrimento.

Dentro de muitas mulheres existe uma menina curiosa, criativa e espontânea que foi sendo deixada para trás conforme as responsabilidades aumentaram.

Talvez você gostasse de desenhar, cantar, dançar, escrever, andar de bicicleta, inventar histórias ou observar a natureza. Talvez tivesse sonhos que foram considerados pouco importantes ou impossíveis.

Em algum momento, pode ter aprendido que brincar era perda de tempo, que descansar era preguiça e que a vida adulta deveria ser formada apenas por obrigações.

A menina espontânea foi substituída pela mulher que precisa ser útil o tempo inteiro.

Entretanto, a capacidade de brincar, criar e sentir prazer também faz parte da saúde emocional. Não precisamos transformar todas as atividades em produtividade ou resultado.

Você pode fazer algo simplesmente porque gosta.

Pode aprender algo sem precisar se tornar especialista.

Pode descansar sem merecer o descanso por meio da exaustão.

Pode rir, experimentar e criar sem se preocupar com a aprovação dos outros.

Reencontrar a menina que existe em você também significa recuperar partes vivas e alegres que ficaram esquecidas.

Acolher não é permanecer no lugar de criança

Falar sobre a “menina interior” não significa responsabilizar o passado por todas as escolhas atuais nem permanecer emocionalmente infantilizada.

Hoje você é uma mulher adulta. Possui responsabilidades, possibilidades e recursos que não tinha quando era criança.

A diferença é que agora pode olhar para as experiências antigas com uma compreensão mais ampla.

A menina não podia escolher a família em que cresceria, controlar a maneira como os adultos agiriam ou sair sozinha de uma situação difícil. A mulher adulta, em muitas circunstâncias, pode fazer escolhas diferentes.

Pode estabelecer limites.

Pode procurar ajuda.

Pode afastar-se de relações que repetem antigas feridas.

Pode aprender a reconhecer suas necessidades.

Pode desenvolver novas maneiras de reagir.

Pode oferecer a si mesma parte do cuidado que não recebeu.

Acolher a menina não é entregar-lhe o controle da vida adulta. É escutá-la com carinho, compreender seus medos e conduzi-la com os recursos que você possui hoje.

Quando o presente desperta uma dor antiga

Uma reação emocional intensa nem sempre pertence apenas ao momento atual.

Uma crítica no trabalho pode despertar a menina que nunca se sentiu suficientemente boa. A demora de alguém em responder pode tocar o medo de abandono. Um conflito pode ativar a sensação de que expressar opiniões ameaça os relacionamentos.

Nesses momentos, é importante distinguir o que está acontecendo agora daquilo que já aconteceu.

Você pode perguntar:

“O que esta situação despertou em mim?”

“Minha reação corresponde apenas ao presente?”

“Esta sensação me lembra algum momento da infância?”

“Estou diante de um perigo real ou de uma lembrança emocional?”

“O que a mulher adulta que sou pode fazer agora?”

Essas perguntas não anulam o sentimento. Elas ajudam a recuperar a capacidade de escolha.

A menina reage utilizando os recursos que possuía naquela época. A mulher adulta pode respirar, avaliar a situação, buscar apoio e decidir como agir.

Tornar-se a adulta de quem você precisava

Talvez você não possa modificar o que aconteceu, receber as palavras que não foram ditas ou recuperar exatamente aquilo que faltou.

Mas pode construir uma nova forma de relacionar-se consigo.

Quando cometer um erro, pode corrigir-se sem se humilhar.

Quando estiver cansada, pode reconhecer a necessidade de descanso.

Quando sentir medo, pode falar consigo com segurança em vez de desprezar a própria emoção.

Quando precisar de ajuda, pode procurá-la sem concluir que fracassou.

Quando alguém ultrapassar seus limites, pode proteger-se.

Essa postura não apaga o passado, mas modifica a maneira como ele continua presente.

A mulher adulta pode dizer à menina:

“Eu acredito em você.”

“Seus sentimentos fazem sentido.”

“Você não precisa agradar a todos para merecer amor.”

“Agora podemos aprender a nos proteger.”

“Você não precisa carregar tudo sozinha.”

A reconstrução emocional acontece quando deixamos de repetir internamente o abandono, a crítica ou o silenciamento que vivemos.

A menina e a mulher podem caminhar juntas

A mulher que você está construindo não precisa expulsar a menina que foi.

Pode acolher sua sensibilidade sem permitir que o medo conduza todas as decisões. Pode recuperar sua curiosidade enquanto assume responsabilidades adultas. Pode compreender suas feridas sem transformar-se apenas nelas.

Dentro de você existe a história da menina que tentou adaptar-se, sobreviver, pertencer e ser amada.

Ela merece ser olhada sem vergonha.

Mas também existe a mulher que hoje possui voz, discernimento e capacidade de construir novas experiências.

O objetivo não é retornar à infância. É permitir que a mulher adulta encontre a menina, reconheça o que ela viveu e lhe mostre que agora existem outras possibilidades.

Você não precisa continuar tratando a si mesma da maneira como foi tratada.

Pode aprender uma nova forma de cuidado.

Para refletir

  • De que maneira eu era descrita quando criança?
  • O que eu precisava fazer para receber amor e aprovação?
  • Quais sentimentos eram permitidos em minha família?
  • Eu podia pedir ajuda ou precisava resolver tudo sozinha?
  • Em que momento senti que precisava amadurecer?
  • Quais situações atuais fazem com que eu me sinta pequena ou desprotegida?
  • Que necessidade da infância ainda tento satisfazer em meus relacionamentos?
  • Qual parte alegre e espontânea de mim ficou esquecida?
  • O que eu gostaria que uma pessoa adulta tivesse me dito?
  • Como posso oferecer essa mensagem a mim mesma hoje?

Exercício terapêutico: encontro com a menina que fui

Escolha uma fotografia de sua infância. Se não tiver uma, feche os olhos e procure lembrar-se de você em alguma fase daquela época.

Observe a menina com atenção:

  • Quantos anos ela tinha?
  • Como era sua expressão?
  • O que estava acontecendo em sua vida?
  • Do que ela gostava?
  • Do que sentia medo?
  • O que precisava ouvir?
  • Quem deveria tê-la protegido?
  • O que ela aprendeu a esconder?

Depois, escreva:

Essa menina precisava de…


Ela aprendeu que…


Hoje compreendo que…


A mulher adulta que sou pode oferecer a ela…


Exercício de escrita: uma carta para minha versão mais jovem

Escreva uma carta começando assim:

“Eu sei que, durante muito tempo, você acreditou que…”

Conte a essa menina aquilo que gostaria que ela soubesse.

Não tente produzir um texto bonito. Escreva com sinceridade. Reconheça suas dores, qualidades, medos e esforços. Evite prometer que nada ruim acontecerá. Ofereça-lhe algo mais verdadeiro: presença, compreensão e proteção.

Você pode concluir com a frase:

“Agora eu cresci e estou aprendendo a cuidar de nós duas.”

Exercício de diferenciação: passado e presente

Pense em uma situação atual que tenha despertado uma reação emocional intensa.

Complete:

O que aconteceu no presente?


O que senti?


Essa sensação me lembra qual experiência antiga?


O que eu temia naquela época?


Quais recursos possuo hoje que não tinha quando era criança?


Como posso responder à situação como a mulher adulta que sou?


Resgatando uma parte viva da infância

Escolha uma atividade simples de que gostava quando criança ou que desejava experimentar:

  • desenhar;
  • colorir;
  • cantar;
  • dançar;
  • ouvir uma música antiga;
  • caminhar ao ar livre;
  • brincar com tinta ou argila;
  • assistir a um filme que marcou sua infância;
  • escrever uma pequena história;
  • preparar uma comida que desperte uma lembrança afetiva.

Realize a atividade sem transformá-la em obrigação, conteúdo ou desempenho. O objetivo não é produzir algo perfeito, mas recuperar a experiência de fazer alguma coisa apenas porque ela lhe proporciona prazer.

Um pequeno passo para esta semana

Quando perceber uma reação de medo, culpa ou rejeição, faça uma pausa e pergunte:

“Quem está reagindo neste momento: a menina que fui ou a mulher que sou hoje?”

Depois, coloque uma das mãos sobre o peito, respire lentamente e diga:

“Eu reconheço o que estou sentindo. Hoje não estou mais naquela situação. Posso cuidar de mim e escolher como responder.”

Se as lembranças da infância provocarem sofrimento intenso ou estiverem relacionadas a situações traumáticas, realize esses exercícios com o acompanhamento de um profissional de saúde mental. Você não precisa atravessar lembranças dolorosas sozinha.

Mensagem para guardar

A menina que fui faz parte da minha história, mas não precisa enfrentar sozinha os medos que ainda carrega. Hoje, a mulher que estou construindo pode escutá-la, protegê-la e conduzi-la com mais cuidado.

Profa. Fran Narnib Lorenzon

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