Síndrome de Koolen-de Vries: compreender uma condição rara para cuidar e incluir melhor

Neste ano, conheci a síndrome de Koolen-de Vries por meio de um aluno de quatro anos. Até então, apesar da minha formação nas áreas de Biologia, Neurociências e Educação Especial, eu nunca havia acompanhado uma criança com essa condição.
A experiência despertou em mim a necessidade de compreender melhor a síndrome, não apenas pela perspectiva genética e clínica, mas também pelo olhar da escola. Quando uma criança com uma condição rara chega à sala de aula, o diagnóstico pode ser desconhecido, porém suas necessidades são reais e imediatas.
Como ela se comunica? Por que apresenta hipotonia? Existe risco de convulsões? Como favorecer sua mobilidade, participação, aprendizagem e segurança? O que a ciência já conhece e o que ainda permanece em investigação?
Este artigo nasceu dessas perguntas. Seu objetivo é apresentar informações científicas atualizadas sobre a síndrome de Koolen-de Vries e contribuir para que familiares, professores e profissionais da saúde compreendam a criança para além do diagnóstico.
Quando a síndrome foi descoberta e quantas pessoas podem tê-la?
A síndrome de Koolen-de Vries foi identificada em 2006, quando três grupos independentes de pesquisadores descreveram pessoas com uma microdeleção na região 17q21.31 do cromossomo 17. Entre os responsáveis por sua caracterização estavam os geneticistas neerlandeses David A. Koolen e Bert B. A. de Vries, cujos sobrenomes deram origem ao nome da síndrome.
Inicialmente, a condição era chamada de síndrome da microdeleção 17q21.31. Em 2012, estudos demonstraram que a perda da função de uma das cópias do gene KANSL1 era a principal responsável pelas manifestações da síndrome. A partir desse avanço, a condição passou a ser conhecida como síndrome de Koolen-de Vries.
A prevalência exata da síndrome ainda é desconhecida. Entretanto, uma das estimativas científicas utilizadas indica aproximadamente uma pessoa afetada a cada 55 mil indivíduos no mundo. Aplicando essa proporção à população atual, estima-se que possam existir cerca de 3.900 pessoas com a síndrome no Brasil e aproximadamente 150 mil em todo o mundo.
Esses números são projeções estatísticas e não correspondem à quantidade de diagnósticos confirmados. O total de pessoas efetivamente diagnosticadas é provavelmente muito menor, pois a síndrome ainda é subdiagnosticada. Algumas pessoas podem receber inicialmente diagnósticos inespecíficos de atraso global do desenvolvimento ou deficiência intelectual sem que a causa genética seja identificada.
O que é a síndrome de Koolen-de Vries?
A síndrome de Koolen-de Vries, frequentemente abreviada como KdVS, é uma condição genética rara que afeta principalmente o desenvolvimento neurológico, a comunicação, o tônus muscular e, de maneira variável, outros sistemas do organismo.
Ela também pode ser encontrada na literatura com os nomes:
- Síndrome da microdeleção 17q21.31
- Síndrome de deleção 17q21.31
- Transtorno relacionado ao gene KANSL1
- Síndrome de haploinsuficiência do KANSL1
As manifestações variam consideravelmente. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar habilidades, necessidades de apoio e condições clínicas diferentes.
A estimativa mais citada é de aproximadamente uma pessoa afetada a cada 55 mil nascimentos ou uma a cada 16 mil, mas a síndrome provavelmente é subdiagnosticada. Algumas pessoas podem receber inicialmente diagnósticos inespecíficos de atraso global do desenvolvimento ou deficiência intelectual sem que a causa genética seja identificada. MedlinePlus Genetics
O que causa a síndrome?
A síndrome ocorre quando uma das duas cópias do gene KANSL1 perde sua função.
Isso pode acontecer principalmente de duas maneiras:
- Pela perda de um pequeno segmento do cromossomo 17, na região 17q21.31, que inclui o gene KANSL1.
- Por uma variante patogênica dentro do próprio gene KANSL1.
A perda do segmento cromossômico é chamada de microdeleção. Ela geralmente possui entre 500 e 650 mil pares de bases e pode incluir outros genes além do KANSL1. Aproximadamente 60% dos diagnósticos descritos no GeneReviews decorrem dessa microdeleção, enquanto cerca de 40% estão relacionados a variantes patogênicas dentro do KANSL1.
As duas alterações podem produzir manifestações clínicas muito semelhantes, demonstrando que a perda da função de uma cópia do KANSL1 é central para o desenvolvimento da síndrome. GeneReviews
Qual é a função do gene KANSL1?
O KANSL1 fornece instruções para a produção de uma proteína que integra um complexo regulador chamado KAT8 Regulatory NSL Complex.
Esse complexo participa da modificação da cromatina, estrutura formada pelo DNA associado a proteínas. A organização da cromatina influencia quais genes permanecem mais ou menos disponíveis para serem ativados.
O KANSL1, portanto, não produz isoladamente uma característica física ou uma habilidade. Ele participa da regulação da atividade de muitos genes envolvidos no desenvolvimento e no funcionamento de diferentes tecidos.
Quando uma de suas cópias perde a função, ocorre a chamada haploinsuficiência: uma única cópia funcional não produz quantidade suficiente para manter o desenvolvimento típico.
A ciência já estabeleceu a relação entre a perda da função do KANSL1 e a síndrome, mas ainda não compreende completamente como essa alteração produz cada uma das manifestações clínicas. MedlinePlus — gene KANSL1
A síndrome é hereditária?
A síndrome de Koolen-de Vries é classificada geneticamente como autossômica dominante, pois a alteração em uma das duas cópias do gene é suficiente para causar a condição.
Entretanto, quase todos os casos conhecidos são de novo. Isso significa que a alteração genética surgiu pela primeira vez na criança, durante a formação do óvulo ou do espermatozoide ou nas fases iniciais do desenvolvimento embrionário. Na maioria das famílias, os pais não apresentam a síndrome.
O risco de recorrência em outra gestação geralmente é baixo, mas não é considerado absolutamente zero devido à possibilidade de mosaicismo germinativo. Por isso, cada família deve receber aconselhamento genético individualizado.
Como o diagnóstico é realizado?
O diagnóstico não deve ser estabelecido apenas pelas características físicas ou comportamentais. Ele precisa ser confirmado por testes genéticos.
A microdeleção 17q21.31 pode ser identificada por meio do microarray cromossômico, também conhecido como análise cromossômica por microarranjo.
Quando a microdeleção não é encontrada, mas existe suspeita clínica, podem ser utilizados:
- Sequenciamento do gene KANSL1
- Painel de genes relacionados ao atraso do desenvolvimento
- Sequenciamento do exoma
- Sequenciamento do genoma
- Análises direcionadas de deleções ou duplicações
Um cariótipo convencional pode apresentar resultado normal, pois a microdeleção geralmente é pequena demais para ser visualizada pelas técnicas tradicionais de bandeamento cromossômico.
Uma variante de significado incerto no KANSL1, isoladamente, não confirma nem exclui a síndrome. Sua interpretação deve considerar o quadro clínico, o tipo de variante, a análise familiar e, em situações específicas, estudos da assinatura epigenética.
Principais manifestações
A síndrome é multissistêmica, mas nenhuma lista consegue descrever todas as pessoas diagnosticadas. Uma característica considerada comum pode estar ausente, enquanto outra menos frequente pode ter grande importância em determinado indivíduo.
Atraso no desenvolvimento e deficiência intelectual
O atraso global do desenvolvimento é uma das características centrais da síndrome. Pode envolver:
- Controle da cabeça e do tronco
- Sentar e engatinhar
- Ficar em pé e caminhar
- Coordenação motora fina
- Comunicação
- Autonomia
- Aprendizagem
A maioria das pessoas funciona na faixa de deficiência intelectual leve a moderada, mas existe variabilidade. O perfil não deve ser presumido apenas pelo diagnóstico ou pela idade.
A avaliação precisa investigar separadamente comunicação, cognição, motricidade, comportamento adaptativo, autocuidado e participação social. Uma criança pode demonstrar maior competência em algumas áreas e necessitar de apoio intenso em outras.
Hipotonia e desenvolvimento motor
A hipotonia, caracterizada pela diminuição do tônus muscular, é muito frequente durante a infância. Ela pode afetar postura, equilíbrio, coordenação, resistência física, alimentação e produção da fala.
Na escola, a criança pode:
- Cansar-se mais rapidamente
- Precisar de apoio para permanecer sentada
- Apresentar marcha instável
- Ter dificuldade para subir escadas
- Cair com mais frequência
- Necessitar de mais tempo para mudar de posição
- Demonstrar dificuldade em atividades de motricidade fina
- Precisar de ajuda para manipular lápis, talheres ou brinquedos
Hipotonia não significa falta de interesse ou preguiça. A criança pode compreender a atividade e desejar participar, mas não possuir estabilidade postural, força ou coordenação suficientes para executá-la da maneira esperada.
Fisioterapia, terapia ocupacional, adaptações posturais e oportunidades de movimento seguro podem favorecer a funcionalidade.
Hipermobilidade e alterações musculoesqueléticas
A hipermobilidade das articulações é comum. Algumas pessoas também apresentam luxações, displasia do quadril, alterações nos pés, escoliose, cifose ou deformidades da caixa torácica.
Um estudo de 2023 reforçou a importância da avaliação da coluna e do acompanhamento da escoliose na síndrome. Estudo sobre escoliose na KdVS
Na escola, isso exige atenção à:
- Segurança durante deslocamentos
- Adequação de cadeiras e mesas
- Necessidade de apoio postural
- Acesso por escadas
- Distância entre os ambientes
- Participação nas atividades físicas
- Prevenção de quedas
- Sinais de dor ou redução da mobilidade
“Fragilidade óssea” ou “ossos fracos” não deve ser automaticamente atribuída à síndrome sem avaliação médica. Hipotonia, hipermobilidade e alterações ortopédicas podem aumentar dificuldades motoras, mas a saúde óssea precisa ser investigada individualmente.
Alimentação e funções orais
Hipotonia oral, sucção fraca e dificuldades alimentares podem aparecer desde o período neonatal. Algumas crianças precisam de suporte intensivo para alimentação durante os primeiros meses de vida.
Na infância, podem ocorrer dificuldades para:
- Mastigar alimentos mais sólidos
- Coordenar mastigação e deglutição
- Controlar saliva
- Beber em copos
- Tolerar determinadas texturas
- Manter segurança durante a alimentação
Acompanhamento fonoaudiológico e nutricional pode ser necessário. Tosse, engasgos, alterações respiratórias durante a refeição e perda de peso exigem avaliação profissional.
A escola deve conhecer as orientações específicas da criança, evitar oferecer alimentos sem autorização e garantir supervisão compatível com o risco identificado.
Comunicação e linguagem
As dificuldades de fala e linguagem estão entre as manifestações mais importantes da síndrome.
Pesquisas identificaram uma combinação frequente de:
- Hipotonia oral
- Apraxia de fala na infância
- Disartria
- Atraso para produzir as primeiras palavras
- Dificuldades fonológicas
- Alterações posteriores da fluência
- Dificuldades persistentes de linguagem e alfabetização
A apraxia de fala compromete o planejamento e a programação dos movimentos necessários para produzir sons e palavras. A criança pode saber o que deseja comunicar, mas ter dificuldade para organizar os movimentos da fala.
A disartria está relacionada ao controle neuromuscular da fala e pode provocar articulação imprecisa, ritmo lento, pouca variação da entonação ou redução da inteligibilidade.
Em um estudo com 29 pessoas, a combinação de hipotonia oral e apraxia foi considerada um “duplo impacto” sobre o desenvolvimento inicial da fala. Apesar dos atrasos importantes, a evolução da fala mostrou-se positiva em muitos participantes ao longo da infância. As dificuldades de linguagem, leitura e escrita, porém, podem persistir. European Journal of Human Genetics
Uma pesquisa posterior com 81 participantes mostrou que os ganhos comunicativos podem continuar depois da infância. O estudo destacou a importância de manter intervenções voltadas à fala, linguagem, alfabetização e comunicação funcional ao longo do desenvolvimento. Estudo sobre linguagem e fluência
Comunicação alternativa não impede o desenvolvimento da fala
Quando a fala ainda não é funcional, a criança não deve permanecer sem meios para se expressar.
Podem ser utilizados:
- Gestos
- Sinais
- Objetos de referência
- Fotografias
- Pranchas de comunicação
- Símbolos gráficos
- Dispositivos com saída de voz
- Comunicação Aumentativa e Alternativa
A Comunicação Aumentativa e Alternativa, conhecida pela sigla CAA, não deve ser entendida como desistência da fala. Ela oferece à criança uma forma de pedir, recusar, escolher, comentar, antecipar e participar enquanto a linguagem oral se desenvolve.
O recurso precisa estar disponível nos diferentes ambientes e não apenas durante a terapia.
Epilepsia
As estimativas de epilepsia variam entre os estudos. O GeneReviews apresenta uma frequência próxima de um terço das pessoas afetadas, enquanto registros baseados em relatos de famílias encontraram valores mais próximos de 48%. Essa diferença pode resultar dos métodos de pesquisa, das idades e dos critérios utilizados.
As crises frequentemente começam na infância e muitas são focais. Algumas podem ser prolongadas e apresentar manifestações autonômicas, como mudanças respiratórias, palidez, alterações de consciência, náuseas ou vômitos.
Em uma série de 31 pessoas com KdVS e epilepsia, crises focais com comprometimento da consciência foram frequentes. Também foram observadas crises prolongadas, estado de mal epiléptico e descargas focais ou multifocais no eletroencefalograma. Epilepsia — estudo eletroclínico
Algumas crianças podem apresentar atividade epiléptica aumentada durante o sono. Mudanças importantes na fala, no comportamento, na aprendizagem ou nas habilidades já adquiridas devem ser comunicadas à equipe médica, pois podem justificar investigação clínica e eletroencefalográfica.
Segurança diante das crises na escola
A escola precisa possuir um plano individual de atendimento às crises, construído com a família e a equipe de saúde.
Esse plano deve informar:
- Como as crises da criança costumam se manifestar
- Quanto tempo geralmente duram
- Quando iniciar a contagem do tempo
- Como proteger a criança
- Se existe medicamento de resgate prescrito
- Quem está autorizado e treinado para administrá-lo
- Quando chamar o serviço de emergência
- Quem deve comunicar a família
- Quais informações registrar depois da crise
Durante uma crise convulsiva, de modo geral, deve-se proteger a cabeça, afastar objetos perigosos, não conter os movimentos e não colocar nada na boca. Quando for seguro, a criança deve ser posicionada lateralmente para favorecer a respiração.
As orientações individualizadas fornecidas pela equipe médica têm prioridade. Crises prolongadas ou diferentes do padrão habitual exigem atendimento de emergência conforme o protocolo recebido pela escola.
Características comportamentais
Muitas pessoas com KdVS são descritas na literatura como sociáveis, afetuosas, cooperativas e interessadas na interação.
Essa característica pode ser uma potencialidade, mas precisa ser interpretada com cuidado. Nenhuma criança deve ser reduzida ao estereótipo de “sempre alegre”.
Pessoas com a síndrome também podem apresentar:
- Ansiedade
- Dificuldades de atenção
- Impulsividade
- Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade
- Características do espectro autista
- Dificuldades de regulação emocional
- Alterações do sono
- Dificuldades para compreender situações sociais complexas
A sociabilidade não significa necessariamente domínio das regras sociais, compreensão de riscos ou capacidade de comunicar desconforto.
Uma criança muito receptiva pode apresentar vulnerabilidade diante de estranhos ou dificuldade para reconhecer intenções inadequadas. O ensino de proteção corporal, privacidade, consentimento e segurança precisa ser explícito e adaptado ao seu nível de compreensão.
Visão e audição
Alterações visuais são relativamente frequentes e podem incluir:
- Hipermetropia
- Estrabismo
- Ptose palpebral
- Catarata congênita
- Atrofia do nervo óptico
Também podem ocorrer otites recorrentes e perdas auditivas condutivas, neurossensoriais ou mistas.
Uma criança que não responde ao nome, aproxima muito o rosto dos materiais ou parece não compreender uma orientação pode estar enfrentando barreiras visuais, auditivas, comunicacionais ou atencionais. O comportamento não deve ser interpretado imediatamente como desobediência.
Alterações cardíacas, renais e urogenitais
Algumas pessoas apresentam cardiopatias congênitas, especialmente defeitos dos septos que separam as cavidades cardíacas. Alterações valvares, dilatação da raiz da aorta e outras condições também já foram descritas.
Entre as alterações renais e urológicas estão:
- Refluxo vesicoureteral
- Hidronefrose
- Dilatação da pelve renal
- Duplicidade do sistema renal
- Infecções urinárias recorrentes
Nos meninos, criptorquidia, condição em que um ou ambos os testículos não descem adequadamente para o escroto, é frequentemente relatada.
A presença e a gravidade dessas alterações variam, por isso a avaliação deve ser individualizada.
Alterações cerebrais
Exames de ressonância magnética podem revelar alterações estruturais, como:
- Ventriculomegalia
- Hipoplasia ou ausência parcial do corpo caloso
- Alterações do hipocampo
- Malformação de Chiari
- Alterações da organização cortical
- Outras anomalias menos frequentes
Nem toda alteração observada na imagem produz uma manifestação previsível. A ressonância precisa ser interpretada em conjunto com a história clínica, o desenvolvimento e o exame neurológico.
Existe cura?
Atualmente, não existe tratamento capaz de corrigir a alteração genética responsável pela síndrome.
Isso não significa que “não há o que fazer”. Há muito a ser realizado para prevenir complicações, ampliar a comunicação, favorecer a mobilidade e promover participação e qualidade de vida.
O acompanhamento pode envolver:
- Pediatria
- Genética médica
- Neurologia
- Cardiologia
- Nefrologia ou urologia
- Oftalmologia
- Otorrinolaringologia e audiologia
- Ortopedia
- Fisioterapia
- Terapia ocupacional
- Fonoaudiologia
- Nutrição
- Psicologia
- Psicopedagogia
- Educação Especial
Não existe uma intervenção única adequada para todas as pessoas. O planejamento deve considerar as manifestações reais, as prioridades da família e as necessidades funcionais da criança.
O acompanhamento ao longo da vida
O GeneReviews recomenda monitorar regularmente:
- Crescimento e estado nutricional
- Segurança da alimentação
- Desenvolvimento e aprendizagem
- Comunicação
- Surgimento ou mudança das crises
- Tônus muscular
- Comportamento
- Mobilidade
- Autonomia
- Visão
- Audição
- Coluna e articulações
A síndrome não desaparece na vida adulta. Entretanto, o conhecimento sobre adultos ainda é menor do que o disponível sobre crianças.
Estudos descrevem continuidade dos ganhos comunicativos, diferentes níveis de autonomia e necessidade de atenção para escoliose, comportamento, saúde mental e possível ganho excessivo de peso após a puberdade. Fenótipo adulto da KdVS
A criança com Koolen-de Vries na escola
A matrícula não garante inclusão. Para participar de verdade, a criança precisa ter acesso aos espaços, às pessoas, à comunicação, às experiências e ao currículo.
O planejamento educacional deve partir da avaliação funcional, não apenas do laudo médico.
Comunicação acessível
A escola deve identificar como a criança compreende e expressa mensagens.
Pode ser necessário:
- Utilizar frases curtas e objetivas
- Dar uma orientação por vez
- Aguardar mais tempo pela resposta
- Associar a fala a imagens e gestos
- Manter recursos de CAA sempre disponíveis
- Oferecer escolhas visuais
- Ensinar pedidos funcionais
- Confirmar se a mensagem foi compreendida
- Valorizar todas as tentativas de comunicação
Não responder verbalmente não significa não compreender.
Rotina e previsibilidade
Recursos visuais podem facilitar a compreensão do que acontecerá:
- Quadro da rotina
- Cartões de “primeiro e depois”
- Fotografias dos ambientes
- Avisos de transição
- Sequências passo a passo
- Marcação visual do tempo
A antecipação reduz incertezas e oferece mais segurança, especialmente quando existem dificuldades de linguagem ou ansiedade.
Participação com apoio
A atividade não deve ser retirada automaticamente porque parece difícil. Primeiro, é necessário perguntar quais barreiras podem ser reduzidas.
Uma tarefa pode ser adaptada por meio de:
- Materiais maiores e mais firmes
- Engrossadores para lápis
- Menor quantidade de itens por página
- Respostas por apontar ou selecionar
- Uso de objetos concretos
- Mais tempo para concluir
- Apoio postural
- Intervalos
- Trabalho em pequenos grupos
- Ajuda física apenas quando necessária
- Alternativas ao registro escrito
Adaptar não significa empobrecer a aprendizagem. Significa criar uma via de acesso.
Mobilidade e segurança
Quando há hipotonia, instabilidade, epilepsia ou alterações ortopédicas, a escola precisa avaliar:
- Escadas
- Rampas
- Corrimãos
- Banheiros
- Distância até o parque e o refeitório
- Altura do mobiliário
- Risco de fuga ou queda
- Necessidade de supervisão
- Forma segura de evacuação em emergências
- Transferência entre cadeira, chão e outros espaços
Colocar uma criança com dificuldade de locomoção em um andar superior sem um plano seguro de acesso e evacuação constitui uma barreira concreta à inclusão.
Autonomia sem abandono
A criança deve ser incentivada a fazer o que consegue, mas não pode ser deixada sem o apoio de que necessita.
É possível dividir uma tarefa em pequenas etapas:
- Aproximar-se do material.
- Escolher o objeto.
- Segurá-lo.
- Realizar parte da ação.
- Guardar com apoio.
O objetivo não é fazer tudo pela criança nem exigir independência imediata. É oferecer ajuda na medida necessária e reduzi-la quando houver condições.
Potencialidades não podem ser ignoradas
Quando profissionais leem apenas as dificuldades associadas a uma síndrome, podem construir expectativas muito baixas.
Crianças com KdVS podem demonstrar:
- Interesse por pessoas
- Boa motivação social
- Humor
- Afetividade
- Desejo de participar
- Resposta à música
- Aprendizagem por repetição
- Memória para determinadas rotinas
- Evolução comunicativa contínua
- Capacidade de criar vínculos
Essas características não estão presentes da mesma forma em todas as crianças, mas lembram que o desenvolvimento não é uma lista fixa de limitações.
O que a síndrome não nos diz
O diagnóstico pode indicar riscos e orientar avaliações, mas não revela antecipadamente:
- Tudo o que a criança compreenderá
- Como ela demonstrará conhecimento
- Quais vínculos construirá
- O que despertará seu interesse
- Qual será seu ritmo de desenvolvimento
- Até onde avançará
- Que tipo de apoio produzirá melhores resultados
O laudo descreve uma condição. Ele não encerra a história da pessoa.
Raridade não pode significar invisibilidade
Famílias de pessoas com síndromes raras frequentemente percorrem um caminho longo até o diagnóstico. Depois dele, ainda precisam explicar a condição repetidamente a escolas e serviços que nunca ouviram falar dela.
Nenhum professor precisa conhecer antecipadamente todas as doenças raras existentes. Entretanto, todo profissional deve estar disposto a pesquisar, ouvir a família, dialogar com a equipe de saúde e observar cuidadosamente a criança.
Conhecer a síndrome de Koolen-de Vries permitiu-me perceber, mais uma vez, que a inclusão começa quando deixamos de perguntar apenas “qual é o diagnóstico?” e passamos a perguntar:
Quem é esta criança, como ela se comunica, do que precisa e quais caminhos podemos construir para que participe?
A ciência nos ajuda a compreender a condição. A convivência nos permite conhecer a pessoa.
E uma escola verdadeiramente inclusiva precisa das duas coisas.
Profa. Fran Narnib
Este artigo possui finalidade educativa e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento realizado por profissionais habilitados.
Referências científicas
- GeneReviews: Koolen-de Vries Syndrome
- MedlinePlus Genetics: Koolen-de Vries syndrome
- MedlinePlus Genetics: KANSL1 gene
- Early speech development in Koolen-de Vries syndrome
- Expanding the speech and language phenotype in Koolen-de Vries syndrome
- The epileptology of Koolen-de Vries syndrome
- GenIDA: informações de 237 pessoas com Koolen-de Vries
- Clinical and radiological assessment of scoliosis in Koolen-de Vries syndrome
- Adult phenotype in Koolen-de Vries/KANSL1 haploinsufficiency syndrome









