SÍNDROMES RARAS

Síndrome de Koolen-de Vries: compreender uma condição rara para cuidar e incluir melhor

Neste ano, conheci a síndrome de Koolen-de Vries por meio de um aluno de quatro anos. Até então, apesar da minha formação nas áreas de Biologia, Neurociências e Educação Especial, eu nunca havia acompanhado uma criança com essa condição.

A experiência despertou em mim a necessidade de compreender melhor a síndrome, não apenas pela perspectiva genética e clínica, mas também pelo olhar da escola. Quando uma criança com uma condição rara chega à sala de aula, o diagnóstico pode ser desconhecido, porém suas necessidades são reais e imediatas.

Como ela se comunica? Por que apresenta hipotonia? Existe risco de convulsões? Como favorecer sua mobilidade, participação, aprendizagem e segurança? O que a ciência já conhece e o que ainda permanece em investigação?

Este artigo nasceu dessas perguntas. Seu objetivo é apresentar informações científicas atualizadas sobre a síndrome de Koolen-de Vries e contribuir para que familiares, professores e profissionais da saúde compreendam a criança para além do diagnóstico.

Quando a síndrome foi descoberta e quantas pessoas podem tê-la?

A síndrome de Koolen-de Vries foi identificada em 2006, quando três grupos independentes de pesquisadores descreveram pessoas com uma microdeleção na região 17q21.31 do cromossomo 17. Entre os responsáveis por sua caracterização estavam os geneticistas neerlandeses David A. Koolen e Bert B. A. de Vries, cujos sobrenomes deram origem ao nome da síndrome.

Inicialmente, a condição era chamada de síndrome da microdeleção 17q21.31. Em 2012, estudos demonstraram que a perda da função de uma das cópias do gene KANSL1 era a principal responsável pelas manifestações da síndrome. A partir desse avanço, a condição passou a ser conhecida como síndrome de Koolen-de Vries.

A prevalência exata da síndrome ainda é desconhecida. Entretanto, uma das estimativas científicas utilizadas indica aproximadamente uma pessoa afetada a cada 55 mil indivíduos no mundo. Aplicando essa proporção à população atual, estima-se que possam existir cerca de 3.900 pessoas com a síndrome no Brasil e aproximadamente 150 mil em todo o mundo.

Esses números são projeções estatísticas e não correspondem à quantidade de diagnósticos confirmados. O total de pessoas efetivamente diagnosticadas é provavelmente muito menor, pois a síndrome ainda é subdiagnosticada. Algumas pessoas podem receber inicialmente diagnósticos inespecíficos de atraso global do desenvolvimento ou deficiência intelectual sem que a causa genética seja identificada.

O que é a síndrome de Koolen-de Vries?

A síndrome de Koolen-de Vries, frequentemente abreviada como KdVS, é uma condição genética rara que afeta principalmente o desenvolvimento neurológico, a comunicação, o tônus muscular e, de maneira variável, outros sistemas do organismo.

Ela também pode ser encontrada na literatura com os nomes:

  • Síndrome da microdeleção 17q21.31
  • Síndrome de deleção 17q21.31
  • Transtorno relacionado ao gene KANSL1
  • Síndrome de haploinsuficiência do KANSL1

As manifestações variam consideravelmente. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar habilidades, necessidades de apoio e condições clínicas diferentes.

A estimativa mais citada é de aproximadamente uma pessoa afetada a cada 55 mil nascimentos ou uma a cada 16 mil, mas a síndrome provavelmente é subdiagnosticada. Algumas pessoas podem receber inicialmente diagnósticos inespecíficos de atraso global do desenvolvimento ou deficiência intelectual sem que a causa genética seja identificada. MedlinePlus Genetics

O que causa a síndrome?

A síndrome ocorre quando uma das duas cópias do gene KANSL1 perde sua função.

Isso pode acontecer principalmente de duas maneiras:

  1. Pela perda de um pequeno segmento do cromossomo 17, na região 17q21.31, que inclui o gene KANSL1.
  2. Por uma variante patogênica dentro do próprio gene KANSL1.

A perda do segmento cromossômico é chamada de microdeleção. Ela geralmente possui entre 500 e 650 mil pares de bases e pode incluir outros genes além do KANSL1. Aproximadamente 60% dos diagnósticos descritos no GeneReviews decorrem dessa microdeleção, enquanto cerca de 40% estão relacionados a variantes patogênicas dentro do KANSL1.

As duas alterações podem produzir manifestações clínicas muito semelhantes, demonstrando que a perda da função de uma cópia do KANSL1 é central para o desenvolvimento da síndrome. GeneReviews

Qual é a função do gene KANSL1?

O KANSL1 fornece instruções para a produção de uma proteína que integra um complexo regulador chamado KAT8 Regulatory NSL Complex.

Esse complexo participa da modificação da cromatina, estrutura formada pelo DNA associado a proteínas. A organização da cromatina influencia quais genes permanecem mais ou menos disponíveis para serem ativados.

O KANSL1, portanto, não produz isoladamente uma característica física ou uma habilidade. Ele participa da regulação da atividade de muitos genes envolvidos no desenvolvimento e no funcionamento de diferentes tecidos.

Quando uma de suas cópias perde a função, ocorre a chamada haploinsuficiência: uma única cópia funcional não produz quantidade suficiente para manter o desenvolvimento típico.

A ciência já estabeleceu a relação entre a perda da função do KANSL1 e a síndrome, mas ainda não compreende completamente como essa alteração produz cada uma das manifestações clínicas. MedlinePlus — gene KANSL1

A síndrome é hereditária?

A síndrome de Koolen-de Vries é classificada geneticamente como autossômica dominante, pois a alteração em uma das duas cópias do gene é suficiente para causar a condição.

Entretanto, quase todos os casos conhecidos são de novo. Isso significa que a alteração genética surgiu pela primeira vez na criança, durante a formação do óvulo ou do espermatozoide ou nas fases iniciais do desenvolvimento embrionário. Na maioria das famílias, os pais não apresentam a síndrome.

O risco de recorrência em outra gestação geralmente é baixo, mas não é considerado absolutamente zero devido à possibilidade de mosaicismo germinativo. Por isso, cada família deve receber aconselhamento genético individualizado.

Como o diagnóstico é realizado?

O diagnóstico não deve ser estabelecido apenas pelas características físicas ou comportamentais. Ele precisa ser confirmado por testes genéticos.

A microdeleção 17q21.31 pode ser identificada por meio do microarray cromossômico, também conhecido como análise cromossômica por microarranjo.

Quando a microdeleção não é encontrada, mas existe suspeita clínica, podem ser utilizados:

  • Sequenciamento do gene KANSL1
  • Painel de genes relacionados ao atraso do desenvolvimento
  • Sequenciamento do exoma
  • Sequenciamento do genoma
  • Análises direcionadas de deleções ou duplicações

Um cariótipo convencional pode apresentar resultado normal, pois a microdeleção geralmente é pequena demais para ser visualizada pelas técnicas tradicionais de bandeamento cromossômico.

Uma variante de significado incerto no KANSL1, isoladamente, não confirma nem exclui a síndrome. Sua interpretação deve considerar o quadro clínico, o tipo de variante, a análise familiar e, em situações específicas, estudos da assinatura epigenética.

Principais manifestações

A síndrome é multissistêmica, mas nenhuma lista consegue descrever todas as pessoas diagnosticadas. Uma característica considerada comum pode estar ausente, enquanto outra menos frequente pode ter grande importância em determinado indivíduo.

Atraso no desenvolvimento e deficiência intelectual

O atraso global do desenvolvimento é uma das características centrais da síndrome. Pode envolver:

  • Controle da cabeça e do tronco
  • Sentar e engatinhar
  • Ficar em pé e caminhar
  • Coordenação motora fina
  • Comunicação
  • Autonomia
  • Aprendizagem

A maioria das pessoas funciona na faixa de deficiência intelectual leve a moderada, mas existe variabilidade. O perfil não deve ser presumido apenas pelo diagnóstico ou pela idade.

A avaliação precisa investigar separadamente comunicação, cognição, motricidade, comportamento adaptativo, autocuidado e participação social. Uma criança pode demonstrar maior competência em algumas áreas e necessitar de apoio intenso em outras.

Hipotonia e desenvolvimento motor

A hipotonia, caracterizada pela diminuição do tônus muscular, é muito frequente durante a infância. Ela pode afetar postura, equilíbrio, coordenação, resistência física, alimentação e produção da fala.

Na escola, a criança pode:

  • Cansar-se mais rapidamente
  • Precisar de apoio para permanecer sentada
  • Apresentar marcha instável
  • Ter dificuldade para subir escadas
  • Cair com mais frequência
  • Necessitar de mais tempo para mudar de posição
  • Demonstrar dificuldade em atividades de motricidade fina
  • Precisar de ajuda para manipular lápis, talheres ou brinquedos

Hipotonia não significa falta de interesse ou preguiça. A criança pode compreender a atividade e desejar participar, mas não possuir estabilidade postural, força ou coordenação suficientes para executá-la da maneira esperada.

Fisioterapia, terapia ocupacional, adaptações posturais e oportunidades de movimento seguro podem favorecer a funcionalidade.

Hipermobilidade e alterações musculoesqueléticas

A hipermobilidade das articulações é comum. Algumas pessoas também apresentam luxações, displasia do quadril, alterações nos pés, escoliose, cifose ou deformidades da caixa torácica.

Um estudo de 2023 reforçou a importância da avaliação da coluna e do acompanhamento da escoliose na síndrome. Estudo sobre escoliose na KdVS

Na escola, isso exige atenção à:

  • Segurança durante deslocamentos
  • Adequação de cadeiras e mesas
  • Necessidade de apoio postural
  • Acesso por escadas
  • Distância entre os ambientes
  • Participação nas atividades físicas
  • Prevenção de quedas
  • Sinais de dor ou redução da mobilidade

“Fragilidade óssea” ou “ossos fracos” não deve ser automaticamente atribuída à síndrome sem avaliação médica. Hipotonia, hipermobilidade e alterações ortopédicas podem aumentar dificuldades motoras, mas a saúde óssea precisa ser investigada individualmente.

Alimentação e funções orais

Hipotonia oral, sucção fraca e dificuldades alimentares podem aparecer desde o período neonatal. Algumas crianças precisam de suporte intensivo para alimentação durante os primeiros meses de vida.

Na infância, podem ocorrer dificuldades para:

  • Mastigar alimentos mais sólidos
  • Coordenar mastigação e deglutição
  • Controlar saliva
  • Beber em copos
  • Tolerar determinadas texturas
  • Manter segurança durante a alimentação

Acompanhamento fonoaudiológico e nutricional pode ser necessário. Tosse, engasgos, alterações respiratórias durante a refeição e perda de peso exigem avaliação profissional.

A escola deve conhecer as orientações específicas da criança, evitar oferecer alimentos sem autorização e garantir supervisão compatível com o risco identificado.

Comunicação e linguagem

As dificuldades de fala e linguagem estão entre as manifestações mais importantes da síndrome.

Pesquisas identificaram uma combinação frequente de:

  • Hipotonia oral
  • Apraxia de fala na infância
  • Disartria
  • Atraso para produzir as primeiras palavras
  • Dificuldades fonológicas
  • Alterações posteriores da fluência
  • Dificuldades persistentes de linguagem e alfabetização

A apraxia de fala compromete o planejamento e a programação dos movimentos necessários para produzir sons e palavras. A criança pode saber o que deseja comunicar, mas ter dificuldade para organizar os movimentos da fala.

A disartria está relacionada ao controle neuromuscular da fala e pode provocar articulação imprecisa, ritmo lento, pouca variação da entonação ou redução da inteligibilidade.

Em um estudo com 29 pessoas, a combinação de hipotonia oral e apraxia foi considerada um “duplo impacto” sobre o desenvolvimento inicial da fala. Apesar dos atrasos importantes, a evolução da fala mostrou-se positiva em muitos participantes ao longo da infância. As dificuldades de linguagem, leitura e escrita, porém, podem persistir. European Journal of Human Genetics

Uma pesquisa posterior com 81 participantes mostrou que os ganhos comunicativos podem continuar depois da infância. O estudo destacou a importância de manter intervenções voltadas à fala, linguagem, alfabetização e comunicação funcional ao longo do desenvolvimento. Estudo sobre linguagem e fluência

Comunicação alternativa não impede o desenvolvimento da fala

Quando a fala ainda não é funcional, a criança não deve permanecer sem meios para se expressar.

Podem ser utilizados:

  • Gestos
  • Sinais
  • Objetos de referência
  • Fotografias
  • Pranchas de comunicação
  • Símbolos gráficos
  • Dispositivos com saída de voz
  • Comunicação Aumentativa e Alternativa

A Comunicação Aumentativa e Alternativa, conhecida pela sigla CAA, não deve ser entendida como desistência da fala. Ela oferece à criança uma forma de pedir, recusar, escolher, comentar, antecipar e participar enquanto a linguagem oral se desenvolve.

O recurso precisa estar disponível nos diferentes ambientes e não apenas durante a terapia.

Epilepsia

As estimativas de epilepsia variam entre os estudos. O GeneReviews apresenta uma frequência próxima de um terço das pessoas afetadas, enquanto registros baseados em relatos de famílias encontraram valores mais próximos de 48%. Essa diferença pode resultar dos métodos de pesquisa, das idades e dos critérios utilizados.

As crises frequentemente começam na infância e muitas são focais. Algumas podem ser prolongadas e apresentar manifestações autonômicas, como mudanças respiratórias, palidez, alterações de consciência, náuseas ou vômitos.

Em uma série de 31 pessoas com KdVS e epilepsia, crises focais com comprometimento da consciência foram frequentes. Também foram observadas crises prolongadas, estado de mal epiléptico e descargas focais ou multifocais no eletroencefalograma. Epilepsia — estudo eletroclínico

Algumas crianças podem apresentar atividade epiléptica aumentada durante o sono. Mudanças importantes na fala, no comportamento, na aprendizagem ou nas habilidades já adquiridas devem ser comunicadas à equipe médica, pois podem justificar investigação clínica e eletroencefalográfica.

Segurança diante das crises na escola

A escola precisa possuir um plano individual de atendimento às crises, construído com a família e a equipe de saúde.

Esse plano deve informar:

  • Como as crises da criança costumam se manifestar
  • Quanto tempo geralmente duram
  • Quando iniciar a contagem do tempo
  • Como proteger a criança
  • Se existe medicamento de resgate prescrito
  • Quem está autorizado e treinado para administrá-lo
  • Quando chamar o serviço de emergência
  • Quem deve comunicar a família
  • Quais informações registrar depois da crise

Durante uma crise convulsiva, de modo geral, deve-se proteger a cabeça, afastar objetos perigosos, não conter os movimentos e não colocar nada na boca. Quando for seguro, a criança deve ser posicionada lateralmente para favorecer a respiração.

As orientações individualizadas fornecidas pela equipe médica têm prioridade. Crises prolongadas ou diferentes do padrão habitual exigem atendimento de emergência conforme o protocolo recebido pela escola.

Características comportamentais

Muitas pessoas com KdVS são descritas na literatura como sociáveis, afetuosas, cooperativas e interessadas na interação.

Essa característica pode ser uma potencialidade, mas precisa ser interpretada com cuidado. Nenhuma criança deve ser reduzida ao estereótipo de “sempre alegre”.

Pessoas com a síndrome também podem apresentar:

  • Ansiedade
  • Dificuldades de atenção
  • Impulsividade
  • Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade
  • Características do espectro autista
  • Dificuldades de regulação emocional
  • Alterações do sono
  • Dificuldades para compreender situações sociais complexas

A sociabilidade não significa necessariamente domínio das regras sociais, compreensão de riscos ou capacidade de comunicar desconforto.

Uma criança muito receptiva pode apresentar vulnerabilidade diante de estranhos ou dificuldade para reconhecer intenções inadequadas. O ensino de proteção corporal, privacidade, consentimento e segurança precisa ser explícito e adaptado ao seu nível de compreensão.

Visão e audição

Alterações visuais são relativamente frequentes e podem incluir:

  • Hipermetropia
  • Estrabismo
  • Ptose palpebral
  • Catarata congênita
  • Atrofia do nervo óptico

Também podem ocorrer otites recorrentes e perdas auditivas condutivas, neurossensoriais ou mistas.

Uma criança que não responde ao nome, aproxima muito o rosto dos materiais ou parece não compreender uma orientação pode estar enfrentando barreiras visuais, auditivas, comunicacionais ou atencionais. O comportamento não deve ser interpretado imediatamente como desobediência.

Alterações cardíacas, renais e urogenitais

Algumas pessoas apresentam cardiopatias congênitas, especialmente defeitos dos septos que separam as cavidades cardíacas. Alterações valvares, dilatação da raiz da aorta e outras condições também já foram descritas.

Entre as alterações renais e urológicas estão:

  • Refluxo vesicoureteral
  • Hidronefrose
  • Dilatação da pelve renal
  • Duplicidade do sistema renal
  • Infecções urinárias recorrentes

Nos meninos, criptorquidia, condição em que um ou ambos os testículos não descem adequadamente para o escroto, é frequentemente relatada.

A presença e a gravidade dessas alterações variam, por isso a avaliação deve ser individualizada.

Alterações cerebrais

Exames de ressonância magnética podem revelar alterações estruturais, como:

  • Ventriculomegalia
  • Hipoplasia ou ausência parcial do corpo caloso
  • Alterações do hipocampo
  • Malformação de Chiari
  • Alterações da organização cortical
  • Outras anomalias menos frequentes

Nem toda alteração observada na imagem produz uma manifestação previsível. A ressonância precisa ser interpretada em conjunto com a história clínica, o desenvolvimento e o exame neurológico.

Existe cura?

Atualmente, não existe tratamento capaz de corrigir a alteração genética responsável pela síndrome.

Isso não significa que “não há o que fazer”. Há muito a ser realizado para prevenir complicações, ampliar a comunicação, favorecer a mobilidade e promover participação e qualidade de vida.

O acompanhamento pode envolver:

  • Pediatria
  • Genética médica
  • Neurologia
  • Cardiologia
  • Nefrologia ou urologia
  • Oftalmologia
  • Otorrinolaringologia e audiologia
  • Ortopedia
  • Fisioterapia
  • Terapia ocupacional
  • Fonoaudiologia
  • Nutrição
  • Psicologia
  • Psicopedagogia
  • Educação Especial

Não existe uma intervenção única adequada para todas as pessoas. O planejamento deve considerar as manifestações reais, as prioridades da família e as necessidades funcionais da criança.

O acompanhamento ao longo da vida

O GeneReviews recomenda monitorar regularmente:

  • Crescimento e estado nutricional
  • Segurança da alimentação
  • Desenvolvimento e aprendizagem
  • Comunicação
  • Surgimento ou mudança das crises
  • Tônus muscular
  • Comportamento
  • Mobilidade
  • Autonomia
  • Visão
  • Audição
  • Coluna e articulações

A síndrome não desaparece na vida adulta. Entretanto, o conhecimento sobre adultos ainda é menor do que o disponível sobre crianças.

Estudos descrevem continuidade dos ganhos comunicativos, diferentes níveis de autonomia e necessidade de atenção para escoliose, comportamento, saúde mental e possível ganho excessivo de peso após a puberdade. Fenótipo adulto da KdVS

A criança com Koolen-de Vries na escola

A matrícula não garante inclusão. Para participar de verdade, a criança precisa ter acesso aos espaços, às pessoas, à comunicação, às experiências e ao currículo.

O planejamento educacional deve partir da avaliação funcional, não apenas do laudo médico.

Comunicação acessível

A escola deve identificar como a criança compreende e expressa mensagens.

Pode ser necessário:

  • Utilizar frases curtas e objetivas
  • Dar uma orientação por vez
  • Aguardar mais tempo pela resposta
  • Associar a fala a imagens e gestos
  • Manter recursos de CAA sempre disponíveis
  • Oferecer escolhas visuais
  • Ensinar pedidos funcionais
  • Confirmar se a mensagem foi compreendida
  • Valorizar todas as tentativas de comunicação

Não responder verbalmente não significa não compreender.

Rotina e previsibilidade

Recursos visuais podem facilitar a compreensão do que acontecerá:

  • Quadro da rotina
  • Cartões de “primeiro e depois”
  • Fotografias dos ambientes
  • Avisos de transição
  • Sequências passo a passo
  • Marcação visual do tempo

A antecipação reduz incertezas e oferece mais segurança, especialmente quando existem dificuldades de linguagem ou ansiedade.

Participação com apoio

A atividade não deve ser retirada automaticamente porque parece difícil. Primeiro, é necessário perguntar quais barreiras podem ser reduzidas.

Uma tarefa pode ser adaptada por meio de:

  • Materiais maiores e mais firmes
  • Engrossadores para lápis
  • Menor quantidade de itens por página
  • Respostas por apontar ou selecionar
  • Uso de objetos concretos
  • Mais tempo para concluir
  • Apoio postural
  • Intervalos
  • Trabalho em pequenos grupos
  • Ajuda física apenas quando necessária
  • Alternativas ao registro escrito

Adaptar não significa empobrecer a aprendizagem. Significa criar uma via de acesso.

Mobilidade e segurança

Quando há hipotonia, instabilidade, epilepsia ou alterações ortopédicas, a escola precisa avaliar:

  • Escadas
  • Rampas
  • Corrimãos
  • Banheiros
  • Distância até o parque e o refeitório
  • Altura do mobiliário
  • Risco de fuga ou queda
  • Necessidade de supervisão
  • Forma segura de evacuação em emergências
  • Transferência entre cadeira, chão e outros espaços

Colocar uma criança com dificuldade de locomoção em um andar superior sem um plano seguro de acesso e evacuação constitui uma barreira concreta à inclusão.

Autonomia sem abandono

A criança deve ser incentivada a fazer o que consegue, mas não pode ser deixada sem o apoio de que necessita.

É possível dividir uma tarefa em pequenas etapas:

  1. Aproximar-se do material.
  2. Escolher o objeto.
  3. Segurá-lo.
  4. Realizar parte da ação.
  5. Guardar com apoio.

O objetivo não é fazer tudo pela criança nem exigir independência imediata. É oferecer ajuda na medida necessária e reduzi-la quando houver condições.

Potencialidades não podem ser ignoradas

Quando profissionais leem apenas as dificuldades associadas a uma síndrome, podem construir expectativas muito baixas.

Crianças com KdVS podem demonstrar:

  • Interesse por pessoas
  • Boa motivação social
  • Humor
  • Afetividade
  • Desejo de participar
  • Resposta à música
  • Aprendizagem por repetição
  • Memória para determinadas rotinas
  • Evolução comunicativa contínua
  • Capacidade de criar vínculos

Essas características não estão presentes da mesma forma em todas as crianças, mas lembram que o desenvolvimento não é uma lista fixa de limitações.

O que a síndrome não nos diz

O diagnóstico pode indicar riscos e orientar avaliações, mas não revela antecipadamente:

  • Tudo o que a criança compreenderá
  • Como ela demonstrará conhecimento
  • Quais vínculos construirá
  • O que despertará seu interesse
  • Qual será seu ritmo de desenvolvimento
  • Até onde avançará
  • Que tipo de apoio produzirá melhores resultados

O laudo descreve uma condição. Ele não encerra a história da pessoa.

Raridade não pode significar invisibilidade

Famílias de pessoas com síndromes raras frequentemente percorrem um caminho longo até o diagnóstico. Depois dele, ainda precisam explicar a condição repetidamente a escolas e serviços que nunca ouviram falar dela.

Nenhum professor precisa conhecer antecipadamente todas as doenças raras existentes. Entretanto, todo profissional deve estar disposto a pesquisar, ouvir a família, dialogar com a equipe de saúde e observar cuidadosamente a criança.

Conhecer a síndrome de Koolen-de Vries permitiu-me perceber, mais uma vez, que a inclusão começa quando deixamos de perguntar apenas “qual é o diagnóstico?” e passamos a perguntar:

Quem é esta criança, como ela se comunica, do que precisa e quais caminhos podemos construir para que participe?

A ciência nos ajuda a compreender a condição. A convivência nos permite conhecer a pessoa.

E uma escola verdadeiramente inclusiva precisa das duas coisas.

Profa. Fran Narnib

Este artigo possui finalidade educativa e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento realizado por profissionais habilitados.

Referências científicas

Pingos nos “is” 2: Comunicação Não Violenta

Como expressar sentimentos e necessidades sem atacar

Em uma escola, palavras podem acolher, orientar e fortalecer vínculos. Mas também podem constranger, silenciar e deixar marcas profundas.

Um estudante interrompe a aula repetidamente. O professor, já cansado, diz diante da turma:

“Você não tem educação e nunca presta atenção em nada.”

Talvez a intenção seja interromper o comportamento. Entretanto, a fala não descreve apenas o que o estudante fez. Ela atribui uma característica negativa à sua identidade.

A mesma situação poderia ser abordada de outra maneira:

“Enquanto eu explicava a atividade, você conversou e me interrompeu algumas vezes. Estou preocupada porque a turma precisa ouvir as orientações. Preciso que você espere o final da explicação para conversar.”

A segunda fala continua sendo firme. O comportamento não foi ignorado, mas a pessoa não foi humilhada.

Essa mudança na maneira de conversar está relacionada à Comunicação Não Violenta, conhecida pela sigla CNV.

O que é Comunicação Não Violenta?

A Comunicação Não Violenta é uma abordagem desenvolvida pelo psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg. Sua proposta é ajudar as pessoas a reconhecerem sentimentos e necessidades, expressarem-se com clareza e escutarem o outro com mais atenção.

O nome pode causar alguma confusão. Comunicação violenta não se limita a gritos, palavrões e ameaças. Julgamentos, ironias, comparações, rótulos, humilhações e acusações também podem afastar as pessoas e dificultar o diálogo.

A CNV procura substituir a lógica da culpa pela busca de compreensão e responsabilidade.

Isso não significa concordar com tudo, falar de maneira artificial ou permitir comportamentos inadequados. É possível corrigir, recusar, estabelecer consequências e proteger limites sem desumanizar a outra pessoa.

Os quatro elementos da CNV

A proposta costuma ser organizada em quatro elementos:

  1. Observação
  2. Sentimento
  3. Necessidade
  4. Pedido

Eles não formam uma fórmula rígida nem precisam aparecer mecanicamente em todas as frases. Funcionam como um caminho para organizar o pensamento antes de conversar.

1. Observar sem julgar

Observar significa descrever o que aconteceu de maneira específica, evitando interpretar a personalidade ou as intenções da pessoa.

Compare:

“Você é irresponsável.”

Essa frase apresenta um julgamento.

“Você não entregou as duas últimas atividades na data combinada.”

Aqui existe uma descrição concreta do comportamento.

Outros exemplos:

Julgamento:
“Essa turma é impossível.”

Observação:
“Durante a explicação, cinco estudantes continuaram conversando.”

Julgamento:
“Você não se importa comigo.”

Observação:
“Nas duas últimas vezes em que tentei conversar, você continuou usando o celular.”

Julgamento:
“Ele é agressivo.”

Observação:
“Ele empurrou o colega e jogou o material no chão.”

Quando descrevemos o fato, aumentamos a possibilidade de que a pessoa compreenda do que estamos falando. Quando atacamos sua identidade, é mais provável que ela tente se defender.

Observar sem julgar não significa fingir que tudo é aceitável. Significa começar a conversa com clareza.

2. Reconhecer os sentimentos

O segundo elemento é identificar o que sentimos diante da situação.

Podemos sentir:

  • Medo
  • Tristeza
  • Irritação
  • Frustração
  • Vergonha
  • Ansiedade
  • Preocupação
  • Confusão
  • Alívio
  • Alegria
  • Segurança
  • Esperança

Reconhecer sentimentos ajuda a compreender o impacto da experiência. Entretanto, algumas frases que parecem expressar sentimentos são, na verdade, interpretações sobre o comportamento do outro.

Por exemplo:

“Eu sinto que você não me respeita.”

“Não me respeita” é uma avaliação. Uma forma mais precisa seria:

“Quando fui interrompida, senti irritação e frustração.”

Também é importante evitar transformar o sentimento em acusação:

“Você me fez sentir assim.”

As atitudes das pessoas podem desencadear emoções, mas nossos sentimentos também se relacionam com nossa história, nossas expectativas e nossas necessidades.

Expressar o que sentimos não significa responsabilizar o outro por tudo o que acontece dentro de nós.

3. Identificar as necessidades

Por trás dos sentimentos, geralmente existem necessidades atendidas ou não atendidas.

Podemos precisar de:

  • Respeito
  • Segurança
  • Descanso
  • Colaboração
  • Compreensão
  • Pertencimento
  • Autonomia
  • Organização
  • Previsibilidade
  • Reconhecimento
  • Privacidade
  • Apoio
  • Clareza

Uma professora pode sentir frustração porque precisa de colaboração para conduzir a aula. Um estudante pode sentir ansiedade porque precisa compreender o que acontecerá. Uma família pode ficar preocupada porque precisa de informações claras sobre o desenvolvimento da criança.

Identificar a necessidade ajuda a tirar a conversa do campo da acusação.

Em vez de:

“Você só quer atrapalhar minha aula.”

É possível dizer:

“Estou frustrada porque preciso de atenção durante a explicação.”

A necessidade não justifica qualquer comportamento. Uma pessoa pode precisar ser ouvida, mas isso não lhe dá o direito de gritar. Pode precisar de atenção, mas não tem o direito de agredir um colega.

Compreender a necessidade ajuda a procurar alternativas mais adequadas para expressá-la.

4. Fazer um pedido claro

Depois de apresentar o que aconteceu, como nos sentimos e do que precisamos, podemos formular um pedido concreto.

“Você pode guardar o celular até o final da explicação?”

“Quando precisar sair da sala, pode me avisar antes?”

“Você poderia me enviar essas informações por escrito?”

“Podemos conversar sobre isso em um lugar reservado?”

Um pedido precisa ser específico e possível. Frases como “comporte-se”, “melhore sua atitude” ou “pare de me desrespeitar” não deixam claro o que deve mudar.

Também existe diferença entre pedido e exigência. No pedido, reconhecemos que a outra pessoa pode responder, negociar ou apresentar uma dificuldade. Na exigência, qualquer resposta diferente de “sim” é tratada com ameaça, culpa ou punição.

Isso não significa que crianças e adolescentes decidirão livremente se seguirão todas as regras. A escola possui normas, responsabilidades e medidas de proteção. Mesmo assim, as orientações podem ser transmitidas com clareza e respeito.

Um exemplo completo na escola

Imagine que um estudante não devolveu um material coletivo.

Uma resposta acusatória seria:

“Você é muito irresponsável. Nunca cuida de nada.”

Uma fala inspirada na CNV poderia ser:

“O livro deveria ter sido devolvido ontem e ainda não está na biblioteca. Fiquei preocupada porque outros estudantes precisam utilizá-lo. Precisamos conservar e compartilhar os materiais da escola. Você pode trazê-lo amanhã ou conversar comigo caso tenha acontecido algum problema?”

A mensagem apresenta:

  • Observação: o livro não foi devolvido na data.
  • Sentimento: preocupação.
  • Necessidade: conservação e compartilhamento.
  • Pedido: devolver o livro ou explicar a dificuldade.

A responsabilidade permanece, mas o estudante recebe uma oportunidade de explicar o que aconteceu.

Talvez ele tenha esquecido. Talvez tenha perdido o livro. Talvez tenha vergonha de dizer que alguém o pegou. Uma pergunta respeitosa pode revelar informações que uma acusação esconderia.

CNV não é falar de maneira doce o tempo todo

Um dos equívocos mais comuns é imaginar que Comunicação Não Violenta significa falar baixo, sorrir sempre e evitar qualquer desconforto.

Não é isso.

Uma fala pode ser calma e ainda assim manipuladora. Também pode ser firme e continuar respeitosa.

Diante de uma agressão, um adulto pode dizer:

“Eu não permitirei que você bata no colega. Vou afastá-los agora para garantir a segurança e conversaremos quando todos estiverem protegidos.”

Essa fala é direta e estabelece uma intervenção concreta. A CNV não exige que o professor faça uma longa investigação emocional enquanto uma criança está em risco.

Primeiro, interrompe-se a violência. Depois, quando houver segurança e regulação, torna-se possível compreender o que aconteceu e trabalhar alternativas.

CNV não é permissividade

Respeitar os sentimentos de uma criança não significa permitir todos os seus comportamentos.

Podemos acolher a emoção e limitar a ação:

“Eu entendo que você ficou com raiva porque queria continuar brincando. Você pode ficar com raiva, mas não pode jogar o brinquedo no colega.”

O sentimento é reconhecido. O comportamento inadequado é interrompido. O limite permanece claro.

Acolher não é concordar. Compreender não é autorizar. Escutar não significa retirar todas as consequências.

A disciplina educativa precisa ajudar a criança a reconhecer o impacto de suas escolhas, reparar danos e desenvolver novas formas de agir.

CNV não substitui proteção e providências

A Comunicação Não Violenta pode ajudar em desentendimentos, dificuldades de convivência e conflitos em que existe alguma possibilidade de diálogo.

Entretanto, ela não deve ser usada para minimizar:

  • Bullying
  • Discriminação
  • Assédio
  • Ameaças
  • Violência física
  • Violência sexual
  • Humilhações sistemáticas
  • Perseguição
  • Abuso de poder
  • Cyberbullying

Bullying não é apenas um conflito entre duas pessoas em condições semelhantes. Geralmente envolve repetição, intenção de ferir e desequilíbrio de poder.

Nessas situações, não basta reunir vítima e agressor e pedir que conversem. A escola precisa proteger quem sofreu a violência, registrar o ocorrido, comunicar os responsáveis, investigar os fatos e adotar as providências pedagógicas e institucionais necessárias.

A vítima não deve ser obrigada a dialogar, perdoar ou participar de mediação com quem a agrediu.

A UNESCO reconhece a violência e o bullying escolar como violações dos direitos à educação, à saúde e ao bem-estar. Portanto, a comunicação é apenas uma parte da resposta. Segurança e responsabilização também são indispensáveis.

Como utilizar a CNV com crianças pequenas

Com crianças pequenas, frases longas e abstratas podem dificultar a compreensão. A linguagem precisa ser breve, concreta e adequada ao desenvolvimento.

Por exemplo:

“Você queria o brinquedo. Ficou bravo. Não pode morder. Vamos pedir: ‘minha vez?’”

Nesse exemplo, o adulto:

  1. Reconhece o desejo.
  2. Nomeia a emoção.
  3. Estabelece o limite.
  4. Ensina uma alternativa de comunicação.

Outras frases possíveis:

  • “Você está triste porque a brincadeira terminou.”
  • “Seu colega não gostou quando você empurrou.”
  • “As mãos são para cuidar, não para machucar.”
  • “Diga: ‘eu não gostei’.”
  • “Você quer ajuda ou quer tentar sozinho?”
  • “Primeiro guardamos, depois escolhemos outra atividade.”

Para crianças não verbais ou com dificuldades de comunicação, podem ser utilizados gestos, fotografias, cartões visuais e pranchas de comunicação.

A CNV precisa ser acessível. Não se pode exigir que uma criança explique sentimentos complexos quando ela ainda está aprendendo a reconhecê-los ou não possui recursos comunicativos para expressá-los.

A linguagem dos adultos também educa

As crianças aprendem sobre comunicação observando como os adultos resolvem conflitos.

Não adianta organizar uma atividade sobre respeito se os estudantes são corrigidos diariamente por meio de gritos, sarcasmo ou exposição pública.

Algumas frases comuns podem ferir:

  • “Você não aprende.”
  • “Seu irmão consegue, por que você não?”
  • “Essa turma é a pior da escola.”
  • “Pare de chorar, isso não é nada.”
  • “Você só faz isso para chamar atenção.”
  • “Ninguém aguenta mais você.”

Essas falas não corrigem apenas uma ação. Elas atacam a identidade, comparam, invalidam ou humilham.

Podemos substituí-las por mensagens mais específicas:

  • “Percebi que você ainda não compreendeu. Vamos tentar de outra forma.”
  • “Cada pessoa aprende em um ritmo. Quero observar do que você precisa.”
  • “A turma está falando ao mesmo tempo e não consigo continuar a explicação.”
  • “Vejo que você está chorando. Quer me contar o que aconteceu?”
  • “Esse comportamento está se repetindo. Precisamos compreender o motivo.”
  • “Estou preocupada e precisamos encontrar outra maneira de agir.”

A mudança não está apenas nas palavras. Está na forma como enxergamos a pessoa que está diante de nós.

A CNV na relação entre família e escola

Conversas entre famílias e profissionais da escola podem se tornar tensas quando ambos se sentem acusados.

Uma escola pode dizer:

“A família não coloca limites nessa criança.”

A família pode responder:

“A professora não sabe lidar com meu filho.”

As duas falas generalizam e culpam. Nenhuma descreve exatamente o problema.

Uma conversa mais produtiva poderia começar assim:

“Nas últimas duas semanas, observamos que ele saiu da sala em quatro ocasiões e teve dificuldade para retornar. Estamos preocupados com sua segurança e precisamos construir estratégias em conjunto. Isso também tem acontecido em outros ambientes?”

A família, por sua vez, poderia dizer:

“Fiquei preocupada ao receber o relato sem saber quais estratégias já foram utilizadas. Preciso compreender melhor o que acontece antes dessas saídas. Podemos analisar juntos os possíveis gatilhos?”

Quando as partes deixam de competir para descobrir quem é o culpado, aumentam as possibilidades de colaboração.

Quando não conseguimos falar com calma

A CNV não exige perfeição. Professores, familiares e estudantes também se cansam, perdem a paciência e dizem coisas das quais se arrependem.

Quando isso acontece, é possível reparar:

“Eu estava muito irritada e falei com você de uma forma desrespeitosa. O comportamento precisava ser corrigido, mas eu não deveria ter gritado. Vamos conversar novamente.”

Pedir desculpas não retira a autoridade do adulto. Ao contrário, ensina que todas as pessoas são responsáveis pela maneira como tratam as outras.

A reparação não apaga automaticamente o que aconteceu, mas abre espaço para reconstruir a confiança.

Uma ferramenta, não uma solução mágica

A Comunicação Não Violenta oferece recursos importantes para organizar conversas, reconhecer sentimentos e transformar acusações em pedidos mais claros.

Entretanto, ela não resolve sozinha todos os problemas da escola. Uma instituição também precisa de:

  • Regras conhecidas e coerentes
  • Formação dos profissionais
  • Protocolos de proteção
  • Registro das ocorrências
  • Participação das famílias
  • Apoio psicológico e pedagógico
  • Acessibilidade comunicacional
  • Condições adequadas de trabalho
  • Ações contra discriminação e bullying
  • Responsabilização diante da violência

Não é justo exigir que professores resolvam situações complexas apenas escolhendo palavras melhores, especialmente quando faltam apoio, recursos e segurança.

A CNV pode contribuir, mas precisa fazer parte de uma cultura institucional de respeito e cuidado.

Antes de responder, procure compreender

Comunicar-se sem violência não significa evitar toda divergência. Significa atravessar o conflito sem transformar o outro em inimigo.

Às vezes, será necessário dizer “não”. Em outras situações, será preciso interromper um comportamento, estabelecer uma consequência ou procurar ajuda. O cuidado está em fazer isso sem humilhar, rotular ou negar a dignidade de quem está diante de nós.

Na escola, cada conversa também ensina. Quando um adulto descreve o comportamento sem atacar a criança, reconhece a emoção sem permitir a agressão e estabelece um limite com clareza, ele está ensinando uma forma mais humana de viver em comunidade.

As palavras não resolvem tudo. Mas podem abrir caminhos ou levantar muros.

Aprender a observar, reconhecer sentimentos, identificar necessidades e fazer pedidos claros é uma maneira de colocar os pingos nos “is” sem apagar o valor das pessoas envolvidas.

Profa. Fran Narnib

Fontes consultadas: Center for Nonviolent Communication, UNESCO — violência e bullying nas escolas e UNESCO — mediação de conflitos entre estudantes.

Colocando os pingos nos “is”

Comunicação assertiva e coragem para falar com clareza

A vida não vem com um manual de instruções. Aprendemos enquanto vivemos, por meio das experiências, das escolhas, dos erros e dos acertos. Nesse processo, também precisamos aprender a conversar, expressar sentimentos, estabelecer limites e resolver conflitos.

Nem sempre conseguimos fazer isso com facilidade. Algumas pessoas se calam para evitar desentendimentos. Outras acumulam ressentimentos até explodirem. Há também quem recorra a indiretas, ironias e afastamentos esperando que o outro perceba o que aconteceu.

É nesse contexto que surge a necessidade de “colocar os pingos nos is”: esclarecer o que ficou confuso, dizer o que precisa ser dito e enfrentar conversas importantes com maturidade e respeito.

Essa capacidade está relacionada à comunicação assertiva.

O que é comunicação assertiva?

Comunicação assertiva é a habilidade de expressar pensamentos, sentimentos, necessidades e limites de maneira clara, direta e respeitosa.

Ser assertivo significa reconhecer que aquilo que sentimos e pensamos importa, mas que o outro também possui sentimentos, direitos, opiniões e limites.

Não se trata de falar tudo o que vem à mente, impor a própria vontade ou usar a sinceridade como justificativa para ferir alguém. A assertividade procura equilibrar honestidade e respeito.

Uma pessoa assertiva consegue dizer:

  • “Não concordo com essa decisão.”
  • “Esse comentário me deixou desconfortável.”
  • “Não posso assumir essa responsabilidade agora.”
  • “Preciso que você converse comigo sem gritar.”
  • “Gostaria de explicar como me senti naquela situação.”
  • “Compreendo sua opinião, mas penso de outra maneira.”

A comunicação assertiva não garante que o outro concordará conosco. Ela apenas permite que nossa posição seja apresentada com clareza e dignidade.

Comunicação passiva, agressiva e assertiva

É possível reconhecer diferentes maneiras de reagir diante de um conflito.

Comunicação passiva

A pessoa evita expressar o que pensa ou sente. Concorda quando gostaria de recusar, aceita responsabilidades excessivas e permite que seus limites sejam ultrapassados para não desagradar.

Ela pode dizer:

“Tudo bem, eu faço.”

Por dentro, no entanto, sente-se cansada, desrespeitada ou ressentida.

A passividade pode parecer uma forma de manter a paz, mas frequentemente produz conflitos internos. Quando alguém se silencia repetidamente, suas necessidades permanecem ignoradas e o ressentimento pode aumentar.

Comunicação agressiva

A pessoa expressa sua opinião desrespeitando, intimidando ou desvalorizando o outro. Pode gritar, acusar, ameaçar, interromper ou tentar controlar a situação.

Ela pode dizer:

“Você nunca faz nada direito. É sempre a mesma coisa!”

A agressividade até pode produzir obediência momentânea, mas enfraquece a confiança, provoca medo e prejudica os relacionamentos.

Comunicação passivo-agressiva

A pessoa não fala diretamente sobre o problema, mas manifesta sua insatisfação por meio de ironias, silêncio punitivo, atrasos intencionais, indiretas ou comportamentos de vingança.

Ela afirma que está tudo bem, embora demonstre o contrário em suas atitudes.

Comunicação assertiva

A pessoa apresenta o problema de maneira clara, sem atacar a identidade do outro:

“Quando essa tarefa fica apenas sob minha responsabilidade, sinto-me sobrecarregada. Precisamos dividir o trabalho de outra forma.”

A mensagem possui firmeza, mas não humilha. Ela descreve a situação, apresenta o sentimento ou a necessidade e propõe uma mudança possível.

Por que é tão difícil dizer o que sentimos?

Muitas pessoas aprenderam desde cedo que discordar era falta de educação, que dizer “não” era egoísmo ou que demonstrar sentimentos era sinal de fraqueza.

Algumas cresceram em ambientes nos quais suas opiniões não eram ouvidas. Outras perceberam que se calar era a melhor forma de evitar críticas, rejeição, castigos ou conflitos.

Com o tempo, esse silêncio pode se transformar em um padrão. A pessoa adulta continua dizendo “sim” quando gostaria de recusar, pede desculpas por ter necessidades e sente culpa ao estabelecer limites.

Também existe o medo de perder relacionamentos. Por isso, algumas pessoas toleram situações desconfortáveis acreditando que, se forem honestas, serão abandonadas.

Aprender a se comunicar de forma assertiva exige compreender que um relacionamento saudável precisa comportar diferenças, perguntas, recusas e conversas difíceis.

Colocar os pingos nos “is” não é procurar briga

Esclarecer uma situação não significa transformar qualquer incômodo em confronto.

Antes de iniciar uma conversa, é importante refletir:

  • O que realmente aconteceu?
  • Estou reagindo ao fato atual ou a experiências antigas?
  • O que senti?
  • Do que preciso?
  • Qual mudança gostaria de solicitar?
  • Este é o momento adequado para conversar?
  • Estou preparada para ouvir a versão do outro?
  • Meu objetivo é resolver o problema ou apenas provar que estou certa?

Quando entramos em uma conversa apenas para vencer, dificilmente construímos entendimento. A assertividade não busca derrotar o outro, mas criar condições para que as pessoas envolvidas possam compreender o problema e procurar uma solução.

Como falar com mais clareza

Uma forma simples de organizar a conversa é separar quatro elementos:

1. Descreva a situação

Fale sobre o comportamento específico, evitando generalizações.

Em vez de:

“Você nunca me respeita.”

Experimente:

“Ontem, enquanto eu falava, você me interrompeu três vezes.”

Expressões como “você sempre” e “você nunca” costumam provocar defesa e desviam a conversa do episódio que precisa ser resolvido.

2. Expresse como você se sentiu

Fale em primeira pessoa, assumindo seus sentimentos.

“Eu me senti desconsiderada.”

Isso costuma ser mais produtivo do que:

“Você me fez passar vergonha porque é uma pessoa insensível.”

Sentimentos ajudam a explicar o impacto da situação. Acusações atacam a identidade do outro e aumentam a possibilidade de conflito.

3. Apresente sua necessidade ou seu limite

“Preciso conseguir concluir o que estou dizendo antes de ouvir sua resposta.”

Um limite não é uma tentativa de controlar todas as escolhas do outro. É a definição do que você aceita, do que não aceita e de como agirá para se proteger.

4. Faça um pedido claro

“Na próxima conversa, gostaria que você esperasse eu terminar antes de responder.”

Pedidos vagos produzem resultados vagos. Dizer apenas “quero que você mude” não explica qual comportamento precisa ser diferente.

Aprender a dizer “não”

Dizer “não” é uma das maiores dificuldades para quem teme desagradar.

Muitas pessoas criam longas justificativas porque sentem que precisam convencer o outro de que possuem um motivo legítimo para recusar. Entretanto, uma explicação curta pode ser suficiente:

  • “Não poderei participar.”
  • “Não consigo assumir essa tarefa agora.”
  • “Agradeço o convite, mas não estarei disponível.”
  • “Não me sinto confortável com isso.”
  • “Preciso pensar antes de responder.”
  • “Dessa forma, não posso continuar a conversa.”

Ser assertivo não significa ser frio. É possível recusar com gentileza sem abandonar o próprio limite.

O outro pode ficar frustrado, mas a frustração de alguém não significa necessariamente que você fez algo errado.

O tom também comunica

As palavras são importantes, mas o modo como são pronunciadas também transmite uma mensagem.

Para uma comunicação mais assertiva, procure:

  • Falar em tom firme e calmo
  • Manter uma postura aberta
  • Não gritar nem sussurrar de maneira insegura
  • Evitar ironias
  • Não interromper continuamente
  • Olhar para a pessoa sem encará-la de forma intimidante
  • Escutar antes de preparar a resposta
  • Pedir uma pausa quando as emoções estiverem muito intensas

Se a raiva estiver dominando a conversa, pode ser melhor dizer:

“Estou muito alterada neste momento. Preciso de um tempo para me acalmar e podemos retomar esse assunto mais tarde.”

Pausar não é fugir quando existe o compromisso real de retomar a conversa.

Escutar também faz parte da assertividade

Comunicação assertiva não é apenas aprender a falar. É também desenvolver a capacidade de ouvir sem interromper, ridicularizar ou invalidar.

Escutar não significa concordar. Significa tentar compreender o que o outro está dizendo antes de responder.

Podemos demonstrar essa escuta com frases como:

  • “Quero entender melhor o que você quis dizer.”
  • “Então você se sentiu desconsiderado naquela situação?”
  • “Compreendo que tenha sido difícil para você.”
  • “Eu vejo de outra forma, mas quero ouvir sua explicação.”
  • “O que você precisa neste momento?”

É possível reconhecer o sentimento do outro sem assumir uma culpa que não nos pertence ou concordar com uma acusação injusta.

Quando a pessoa não respeita o limite

Nem toda conversa terá um resultado satisfatório. Algumas pessoas não aceitam limites, recusam-se a ouvir, distorcem os fatos ou respondem com agressividade.

Nesses casos, pode ser necessário repetir a mensagem com calma:

“Compreendo que você esteja insatisfeito, mas minha decisão permanece a mesma.”

Isso é diferente de entrar em uma discussão interminável. Você não precisa apresentar novas justificativas cada vez que alguém se recusa a aceitar sua resposta.

Também é possível encerrar a conversa:

“Não continuarei falando enquanto houver insultos. Podemos conversar quando estivermos mais calmos.”

Em situações de violência, ameaça, coerção ou abuso, comunicar-se melhor pode não ser suficiente para produzir segurança. A prioridade deve ser procurar proteção e apoio de pessoas ou serviços capacitados. A vítima nunca deve ser responsabilizada por não ter conseguido dialogar com alguém que escolheu agir de forma violenta.

Assertividade se aprende

Ninguém precisa nascer sabendo se comunicar perfeitamente. A assertividade é uma habilidade que pode ser construída com prática.

Comece em situações menores. Expresse uma preferência, recuse um pedido simples ou peça que alguém corrija uma informação. Observe como você se sente antes, durante e depois.

Também pode ajudar escrever o que deseja dizer e ensaiar a conversa. Isso não torna a fala artificial. Apenas organiza os pensamentos e diminui a possibilidade de se perder diante da ansiedade.

Com o tempo, torna-se mais fácil reconhecer os próprios sentimentos, expressar necessidades e manter limites sem culpa.

Se o medo, a ansiedade, a raiva ou experiências traumáticas dificultarem muito esse processo, o acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender os padrões de comunicação e desenvolver novas formas de se relacionar.

Uma conversa honesta pode reorganizar relações

Há palavras que precisam ser ditas, pedidos que precisam ser feitos e situações que necessitam de esclarecimento. O silêncio pode evitar um desconforto imediato, mas também pode prolongar dores, alimentar mal-entendidos e manter relações desequilibradas.

Colocar os pingos nos “is” exige coragem. Não a coragem de ferir ou confrontar por impulso, mas a de ser honesto sem abandonar o respeito.

Comunicar-se com assertividade é reconhecer que nossa voz possui valor, sem esquecer que o outro também merece ser ouvido. É aprender que firmeza não precisa ser agressividade, que gentileza não precisa ser submissão e que dizer “não” também pode ser uma forma de cuidado.

A vida não vem com um manual de instruções. Mas podemos aprender, a cada conversa, a construir relações mais claras, maduras e verdadeiras.

Profa. Fran Narnib

Fontes consultadas: Mayo Clinic — comunicação assertiva, NHS Cumbria — estilos de comunicação e Cambridge University Hospitals — comunicação assertiva.

A Mulher que Estou Construindo

A mulher que vejo no espelho

Autoimagem, peso, padrões de beleza e relação com o corpo

Frase para reflexão:

“O espelho mostra meu corpo, mas nem sempre revela a maneira justa de enxergá-lo.”

Olhar-se no espelho deveria ser um encontro simples com a própria imagem. Entretanto, para muitas mulheres, esse momento se transforma em uma avaliação silenciosa.

Os olhos percorrem o corpo procurando aquilo que precisa ser diminuído, escondido, corrigido ou eliminado. A barriga parece maior do que deveria. O rosto apresenta marcas que antes não existiam. O cabelo mudou. A roupa já não veste da mesma maneira. O número mostrado pela balança começa a interferir no humor, na autoestima e na maneira de viver o restante do dia.

Poucas mulheres foram ensinadas a olhar para o próprio corpo com neutralidade e respeito. Desde cedo, muitas aprenderam que sua aparência seria observada, comparada e julgada. Antes mesmo de compreenderem plenamente quem eram, já sabiam quais partes de si deveriam amar e quais deveriam rejeitar.

Assim, o espelho deixou de ser apenas um objeto. Tornou-se o lugar onde diferentes vozes se encontram: as críticas recebidas na infância, os padrões apresentados pela sociedade, as comparações feitas ao longo da vida e as próprias exigências internas.

Nem sempre vemos somente o corpo que está diante de nós. Muitas vezes, vemos tudo o que aprendemos a pensar sobre ele.

A autoimagem não nasce diante do espelho

A autoimagem é a representação que construímos sobre nossa aparência e nosso corpo. Ela não se limita ao que realmente vemos. Também envolve pensamentos, sentimentos, lembranças, comparações e significados.

Duas mulheres com características físicas semelhantes podem sentir-se completamente diferentes em relação ao próprio corpo. Uma pode enxergá-lo com respeito, enquanto a outra experimenta vergonha e rejeição.

Isso acontece porque a relação com o corpo é influenciada por experiências pessoais.

Uma menina que ouviu comentários frequentes sobre o peso pode crescer excessivamente atenta a qualquer mudança corporal. Outra, comparada constantemente com uma irmã, pode acreditar que sempre lhe falta alguma coisa. Uma adolescente ridicularizada por suas características físicas talvez continue se sentindo observada mesmo muitos anos depois.

Há também aquelas que receberam elogios quase exclusivamente por serem bonitas ou magras. Embora pareçam positivos, esses elogios podem ensinar que a aparência é a parte mais importante de sua identidade. Quando o corpo muda, a mulher pode sentir que está perdendo não apenas uma característica física, mas também seu valor e sua capacidade de ser amada.

A autoimagem é construída nos relacionamentos. Por isso, reconstruí-la também exige examinar as mensagens que aprendemos a repetir para nós mesmas.

Quando o peso se transforma em identidade

O peso é uma medida corporal. Ele pode variar por diferentes motivos e, isoladamente, não descreve toda a condição de saúde de uma pessoa. Entretanto, muitas mulheres aprenderam a tratá-lo como uma espécie de julgamento sobre quem são.

A balança deixa de apresentar apenas um número e passa a determinar se o dia começará com satisfação ou culpa.

Quando o número diminui, a mulher sente que foi disciplinada, forte e merecedora de reconhecimento. Quando aumenta, pode se considerar fracassada, descontrolada ou incapaz. Seu valor emocional passa a oscilar junto com o peso.

Essa associação é perigosa porque transforma o cuidado com o corpo em punição.

Comer deixa de ser uma necessidade humana e se torna uma prova moral. Alguns alimentos são tratados como recompensa, enquanto outros provocam vergonha. A mulher acredita que precisa compensar aquilo que comeu, castigar-se por não ter seguido um plano ou privar-se de refeições para recuperar a sensação de controle.

Entretanto, o corpo não é um boletim de comportamento.

Uma mudança na balança não determina caráter, competência, inteligência, beleza ou dignidade. Também não apaga os cuidados que uma pessoa vem construindo. O peso corporal pode apresentar variações relacionadas à alimentação, hidratação, funcionamento intestinal, ciclo hormonal, medicamentos, sono e outros fatores.

Por isso, uma medida isolada não deveria receber o poder de definir como alguém se sentirá consigo mesma.

Cuidar da saúde pode envolver mudanças de hábitos e acompanhamento profissional. Mas esse cuidado não precisa nascer do ódio pelo corpo. É possível desejar mudanças sem se humilhar durante o processo.

O corpo ideal que nunca permanece igual

Os padrões de beleza não são verdades naturais e imutáveis. Eles variam entre épocas, culturas e grupos sociais. Características admiradas em determinado período podem ser rejeitadas em outro.

Apesar disso, cada padrão costuma ser apresentado como se fosse a única forma correta de beleza.

Durante anos, muitas mulheres foram pressionadas a possuir um corpo extremamente magro. Em outros momentos, passaram a ser cobradas por curvas específicas, barriga plana, cintura fina, pele sem marcas e aparência jovem. O padrão muda, mas a sensação de insuficiência permanece.

Mesmo quando uma mulher consegue se aproximar de determinado ideal, surge uma nova exigência. Não basta emagrecer. É necessário ter músculos, eliminar marcas, evitar rugas e parecer jovem sem demonstrar esforço.

Trata-se de uma meta que se desloca continuamente.

Além disso, grande parte das imagens utilizadas como referência passa por seleção, iluminação, poses, maquiagem, procedimentos e edição. A mulher compara seu corpo cotidiano, visto em diferentes ângulos e condições, com uma imagem cuidadosamente produzida.

Essa comparação nunca acontece em igualdade de condições.

O problema não está em apreciar a beleza de outra pessoa. Começa quando a existência dela é utilizada como prova de que há algo errado conosco.

A comparação apaga a própria história

Comparar-se parece uma maneira de descobrir se estamos bem, mas frequentemente produz o efeito contrário. Quanto mais a mulher observa outras pessoas para medir o próprio valor, mais se distancia de sua história, de suas características e de suas necessidades.

Ela vê o resultado visível da outra, mas não conhece completamente sua genética, rotina, saúde, recursos financeiros, tratamentos, sofrimentos ou inseguranças.

A comparação seleciona apenas aquilo que parece confirmar nossa insuficiência.

Quando estamos insatisfeitas com o corpo, nossa atenção se volta para mulheres que possuem exatamente as características que gostaríamos de ter. Não percebemos a diversidade ao redor. Também ignoramos aquilo que existe de singular em nós.

A comparação transforma o corpo em uma competição na qual sempre haverá alguém mais jovem, mais magra, mais alta, mais musculosa ou mais próxima do padrão vigente.

Mas a vida não deveria ser uma disputa permanente por aprovação estética.

Você não precisa ser a mulher mais bonita de um ambiente para ter o direito de estar nele. Não precisa esperar emagrecer para aparecer nas fotografias, comprar uma roupa confortável, ir à praia, encontrar pessoas ou participar de momentos importantes.

Adiar a vida até alcançar determinado corpo pode fazer com que anos inteiros sejam vividos pela metade.

O corpo que muda também conta uma história

O corpo feminino não permanece igual ao longo da vida.

Ele atravessa a infância, a puberdade, a vida adulta e o envelhecimento. Pode passar por gravidez, parto, amamentação, doenças, tratamentos, alterações hormonais e menopausa. Também responde ao estresse, à qualidade do sono, à rotina e às condições emocionais.

Esperar que o corpo de uma mulher madura seja idêntico ao de sua juventude é ignorar tudo o que ela viveu.

As marcas, dobras, cicatrizes, mudanças de textura e alterações na distribuição de gordura não representam necessariamente descuido. Muitas vezes, são sinais de um organismo vivo atravessando o tempo.

Isso não significa que a mulher seja obrigada a gostar de todas as mudanças. Algumas podem provocar estranhamento, tristeza ou dificuldade de adaptação. Esses sentimentos merecem ser acolhidos, não ridicularizados.

Aceitar a realidade do corpo não significa desistir de cuidar dele. Significa partir de uma relação mais honesta e menos violenta.

Posso desejar fortalecer meu corpo sem desprezá-lo por ainda não estar como gostaria.

Posso buscar orientação profissional sem transformar cada consulta em um julgamento.

Posso mudar meus hábitos sem acreditar que preciso me odiar para conseguir mudar.

Quando o espelho se torna um tribunal

Algumas mulheres não se olham no espelho. Outras se observam repetidamente, procurando imperfeições e verificando se algo mudou. Apesar de parecerem atitudes opostas, ambas podem revelar sofrimento em relação à autoimagem.

Quando o espelho funciona como um tribunal, a mulher é simultaneamente acusada e juíza. Ela se examina utilizando critérios rígidos que, muitas vezes, jamais aplicaria a alguém que ama.

Pode olhar para uma amiga e perceber sua beleza por inteiro. Enxerga seu sorriso, sua presença, sua história e seu modo de tratar as pessoas. Mas, ao olhar para si, reduz toda a identidade a uma parte do corpo que não aprecia.

Essa redução é injusta.

Você não é apenas aquilo que consegue enxergar em um momento de insatisfação. Seu corpo faz parte de sua identidade, mas não contém tudo o que você é.

Existe uma mulher completa diante do espelho. Uma mulher que pensa, sente, trabalha, aprende, enfrenta dificuldades, constrói vínculos, desenvolve habilidades e carrega uma história que nenhum reflexo consegue mostrar por inteiro.

Autoestima não é sentir-se bonita todos os dias

A autoestima não pode depender de acordar diariamente satisfeita com a aparência. Isso seria impossível, porque nossa percepção muda conforme o humor, o cansaço, as circunstâncias e a maneira como estamos emocionalmente.

Existirão dias em que você gostará mais do que vê e outros em que se sentirá desconfortável. Uma relação saudável com o corpo não exige satisfação permanente.

A mudança começa quando um dia de insatisfação não se transforma em autorização para se agredir.

Você pode não gostar de determinada característica e ainda assim recusar-se a humilhar a si mesma. Pode sentir desconforto com uma roupa sem concluir que seu corpo inteiro está errado. Pode reconhecer que ganhou peso sem transformar essa constatação em sentença sobre seu valor.

Talvez o primeiro passo não seja amar completamente o corpo, mas desenvolver respeito por ele.

O amor pode parecer distante quando a rejeição foi cultivada durante muitos anos. O respeito, entretanto, pode começar com atitudes concretas: alimentar-se adequadamente, descansar, movimentar-se de maneira possível, usar roupas confortáveis, procurar cuidados de saúde e interromper insultos dirigidos a si mesma.

O corpo não precisa ser amado para merecer cuidado

Existe uma pressão contemporânea para que todas as mulheres declarem amar cada parte do corpo. Embora a intenção possa ser positiva, essa exigência também pode gerar culpa.

Nem sempre conseguimos amar aquilo que aprendemos a rejeitar.

Por isso, uma alternativa mais realista é a neutralidade corporal: compreender que o corpo não precisa agradar esteticamente em todos os momentos para ser tratado com dignidade.

Em vez de perguntar apenas “Como meu corpo parece?”, podemos começar a perguntar:

“O que meu corpo precisa hoje?”

“Como ele está se sentindo?”

“Tenho oferecido descanso, alimento, movimento e cuidado?”

“Estou respeitando seus limites?”

“Que experiências ele me permite viver?”

Essa mudança retira o corpo da condição de objeto a ser observado e o reconhece como parte viva de nossa existência.

Seu corpo permite que você caminhe, abrace, trabalhe, aprenda, descanse, perceba o mundo e esteja presente na vida das pessoas. Mesmo quando enfrenta limitações, continua merecendo respeito e cuidado.

Cuidar não é castigar

Uma relação mais saudável com o corpo muda a motivação do cuidado.

O movimento deixa de ser punição pelo que foi comido e pode se tornar uma forma de fortalecer o organismo, aliviar tensões e ampliar o bem-estar. A alimentação deixa de ser uma guerra entre proibição e culpa e passa a ser compreendida como nutrição, prazer, cultura e convivência.

Descansar deixa de ser preguiça. Procurar ajuda deixa de ser fracasso. Vestir uma roupa adequada ao corpo atual deixa de representar desistência.

Cuidar do corpo é diferente de tentar dominá-lo.

Quando todo cuidado é guiado pelo medo de engordar, envelhecer ou deixar de ser desejada, o corpo permanece sob ameaça. Quando o cuidado nasce do respeito, torna-se mais possível construir hábitos sustentáveis, flexíveis e compatíveis com a vida real.

Se pensamentos sobre peso, alimentação ou aparência ocupam grande parte do dia, provocam culpa intensa, levam a restrições severas, episódios de perda de controle ou comportamentos compensatórios, é importante procurar apoio profissional. Não é necessário esperar que o sofrimento se torne insuportável para pedir ajuda.

A mulher inteira diante do espelho

Talvez você ainda não consiga olhar para o espelho e gostar de tudo o que vê. A proposta não é forçar uma admiração que ainda não existe.

Comece reconhecendo a mulher inteira.

Olhe além do peso, das marcas e das medidas. Observe a pessoa que atravessou situações difíceis, sustentou responsabilidades, aprendeu, recomeçou e continua se construindo.

Seu corpo não precisa ser um projeto eternamente inacabado. Ele pode ser o lugar onde sua vida acontece agora.

A mulher que você vê no espelho não precisa ser comparada com a menina que foi, com a mulher que gostaria de ter sido ou com as imagens que aparecem nas redes sociais.

Ela precisa ser encontrada.

Talvez, durante muito tempo, você tenha olhado para si procurando defeitos. Agora pode aprender a olhar procurando verdade.

A verdade é que seu corpo mudou.

A verdade é que você pode desejar cuidar melhor dele.

A verdade também é que nenhuma mudança corporal aumentará ou diminuirá sua dignidade.

Você não precisa escolher entre se aceitar e cuidar da saúde. Pode fazer as duas coisas. A aceitação não impede a mudança. Ela apenas recusa a violência como caminho para alcançá-la.

Para refletir

  • O que costumo procurar primeiro quando me olho no espelho?
  • Minha percepção do corpo muda de acordo com o número apresentado pela balança?
  • Quais comentários sobre minha aparência ainda permanecem em minha memória?
  • Com quem costumo me comparar?
  • O que tenho deixado de viver por não me sentir satisfeita com meu corpo?
  • Eu trataria outra mulher da maneira como trato a mim mesma?
  • Meus cuidados são motivados pelo respeito ou pela rejeição?
  • O que meu corpo representa para mim além da aparência?
  • Que parte da minha história corporal ainda precisa ser acolhida?
  • Como desejo me sentir em relação ao meu corpo, mesmo que ele não mude?

Exercício terapêutico: as vozes diante do espelho

Divida uma folha em três partes.

Na primeira, escreva:

O que disseram sobre meu corpo

Registre comentários, comparações e mensagens que marcaram sua autoimagem.

Na segunda, escreva:

O que aprendi a dizer para mim mesma

Observe quais dessas mensagens se transformaram em sua própria voz interna.

Na terceira, escreva:

Como escolho me tratar a partir de agora

Transforme cada crítica em uma afirmação mais justa e respeitosa.

Mensagem recebida: “Você precisa emagrecer para ficar bonita.”
Nova construção: “Meu valor e meu direito de viver plenamente não dependem de determinado peso.”

Mensagem recebida: “Seu corpo não é como era antes.”
Nova construção: “Meu corpo mudou porque minha vida também mudou. Ele continua merecendo cuidado.”

Mensagem recebida: “Você não deveria usar essa roupa.”
Nova construção: “Tenho o direito de usar roupas adequadas, confortáveis e que expressem quem sou.”

Exercício do espelho: enxergar a mulher inteira

Fique diante do espelho por alguns minutos. Em vez de procurar aquilo que deseja mudar, observe sua imagem sem fazer julgamentos imediatos.

Respire devagar e diga:

  • Este é o meu corpo hoje.
  • Ele carrega partes da minha história.
  • Nem sempre preciso gostar de tudo para tratá-lo com respeito.
  • Meu peso não resume quem sou.
  • Posso cuidar de mim sem me maltratar.
  • Tenho o direito de viver enquanto continuo me construindo.

Se esse exercício provocar sofrimento intenso, interrompa-o. Comece escrevendo as frases em um papel e retome o contato com o espelho gradualmente, respeitando seus limites.

Inventário para além da aparência

Escreva dez características suas que não estejam relacionadas ao corpo.

Você pode incluir:

  • valores;
  • habilidades;
  • conhecimentos;
  • atitudes;
  • formas de cuidar;
  • desafios que superou;
  • qualidades que desenvolveu;
  • aspectos de sua personalidade;
  • sonhos e interesses;
  • contribuições que oferece às pessoas.

Depois, complete:

Quando não reduzo minha identidade à aparência, reconheço que sou uma mulher que…

Um pequeno passo para esta semana

Escolha uma atitude de respeito ao corpo:

  • reduzir a frequência com que se pesa;
  • deixar de seguir um perfil que estimula comparação;
  • utilizar uma roupa adequada ao corpo atual;
  • fazer uma refeição sem classificá-la como culpa ou recompensa;
  • movimentar-se de uma forma que não pareça punição;
  • marcar um cuidado de saúde que vem sendo adiado;
  • descansar quando perceber cansaço;
  • interromper um comentário ofensivo sobre si mesma;
  • participar de uma fotografia sem tentar esconder o corpo;
  • agradecer ao corpo por algo que ele lhe permitiu viver.

Escolha uma ação possível e observe como se sente ao realizá-la.

Mensagem para guardar

O espelho pode mostrar meu corpo, mas não possui autoridade para determinar o meu valor. Posso cuidar da mulher que vejo sem transformá-la em inimiga.

Profa. Fran Narnib

Aprendendo Ciências de forma divertida: recursos digitais que realmente ajudam na aprendizagem

Ciências e Biologia estão entre as minhas áreas preferidas. Estudar células, organismos, plantas, animais, corpo humano, ambiente e Universo é descobrir um pouco mais sobre a vida e sobre o mundo do qual fazemos parte.

Entretanto, alguns conteúdos podem parecer abstratos quando são apresentados apenas por meio de textos, nomes e definições. Como imaginar o funcionamento de uma célula, visualizar uma molécula em três dimensões ou compreender as relações existentes em um ecossistema?

Os recursos digitais podem ajudar nessa tarefa. Simulações, jogos, modelos tridimensionais e plataformas de ciência cidadã possibilitam observar fenômenos, testar hipóteses e interagir com representações que seriam difíceis de levar para a sala de aula.

Mas é importante lembrar: tecnologia, sozinha, não garante aprendizagem. O aplicativo precisa estar relacionado a um objetivo pedagógico e ser acompanhado por perguntas, investigação, discussão e orientação do professor.

A tecnologia substitui o laboratório?

Não completamente.

Simulações digitais são especialmente úteis quando a escola não dispõe de laboratório, quando a experiência envolve riscos ou quando o fenômeno acontece em uma escala muito pequena, muito grande, muito rápida ou muito lenta para ser observado diretamente.

Elas podem permitir que os estudantes:

  • Testem diferentes variáveis
  • Repitam uma experiência
  • Observem estruturas microscópicas
  • Manipulem modelos tridimensionais
  • Simulem fenômenos naturais
  • Analisem dados
  • Cometam erros sem se expor a riscos
  • Desenvolvam hipóteses e previsões

Entretanto, esses recursos não substituem integralmente a manipulação de materiais, o uso de instrumentos, a observação direta, o contato com a natureza e a aprendizagem das normas de biossegurança.

O melhor caminho é integrar atividades digitais, práticas, leituras, investigação e diálogo.

Recursos digitais para ensinar e aprender Ciências

A seguir, apresento plataformas que podem ser utilizadas por professores, estudantes e pessoas interessadas em aprender Ciências e Biologia. Alguns recursos estão em inglês, mas o navegador pode auxiliar na tradução das páginas.

Como aplicativos e sites podem modificar suas condições de acesso, recomenda-se conferir as informações e testar todas as atividades antes de utilizá-las em aula.

1. PhET Interactive Simulations

Desenvolvido pela Universidade do Colorado Boulder, o PhET reúne simulações interativas de Física, Química, Matemática, Ciências da Terra e Biologia.

As atividades permitem modificar variáveis e observar imediatamente as consequências. Em uma simulação sobre seleção natural, por exemplo, os estudantes podem alterar características dos organismos e condições ambientais para investigar como esses fatores influenciam uma população.

Indicado para: anos finais do Ensino Fundamental, Ensino Médio e Superior.

Idioma: muitas simulações estão disponíveis em português.

Acesso: gratuito pelo navegador. Algumas simulações também podem funcionar sem conexão depois de baixadas.

Sugestão de atividade: antes de usar a simulação, peça aos estudantes que façam uma previsão. Depois, comparem o resultado observado com a hipótese inicial.

Acesse: PhET Interactive Simulations

2. HHMI BioInteractive

O HHMI BioInteractive é uma plataforma produzida pelo Howard Hughes Medical Institute. Ela reúne animações, vídeos, estudos de caso, atividades investigativas, recursos interativos e materiais para professores.

Os conteúdos abordam genética, evolução, ecologia, biodiversidade, saúde, biologia celular e molecular.

Indicado para: Ensino Médio, cursos técnicos e Ensino Superior.

Idioma: a maior parte do conteúdo está em inglês, mas alguns materiais possuem versões ou legendas em espanhol.

Acesso: gratuito.

Sugestão de atividade: utilize um estudo de caso para apresentar um problema real e peça aos estudantes que interpretem as evidências antes de conhecerem as conclusões dos pesquisadores.

Acesse: HHMI BioInteractive

3. Ask A Biologist

Desenvolvida pela Universidade Estadual do Arizona, a plataforma Ask A Biologist oferece textos, jogos, atividades, vídeos, podcasts e simulações sobre diferentes temas da Biologia.

Entre os recursos disponíveis estão visualizadores de células, atividades sobre ossos, genética, ecossistemas, animais e funcionamento do organismo.

Indicado para: Ensino Fundamental e Ensino Médio.

Idioma: principalmente inglês. Alguns materiais possuem versões em espanhol.

Acesso: gratuito pelo navegador.

Sugestão de atividade: no jogo sobre partes da célula, os estudantes podem identificar as estruturas e, depois, elaborar uma comparação entre a célula e uma cidade ou uma escola, relacionando cada organela a uma função.

Acesse: Ask A Biologist — jogos e simulações

4. Pl@ntNet

O Pl@ntNet auxilia na identificação de plantas por meio de fotografias. O usuário registra folhas, flores, frutos, cascas ou outras estruturas, e o sistema apresenta espécies visualmente semelhantes.

A plataforma também funciona como um projeto de ciência cidadã, reunindo observações que podem contribuir para o conhecimento sobre a biodiversidade.

Indicado para: Ensino Fundamental, Ensino Médio e projetos de educação ambiental.

Idioma: disponível em português.

Acesso: possui aplicativo e versão para navegador.

Sugestão de atividade: organize um levantamento das plantas existentes na escola ou na comunidade. Os estudantes podem fotografá-las, registrar suas características e comparar as sugestões apresentadas pelo aplicativo.

Atenção: o resultado é uma sugestão e pode estar incorreto. A identificação deve ser confirmada com outras fontes ou por especialistas. Nunca utilize apenas um aplicativo para decidir se uma planta é comestível, medicinal ou segura.

Acesse: Pl@ntNet

5. Map of Life

O Map of Life reúne dados sobre a distribuição de espécies em diferentes regiões do planeta. A plataforma permite explorar mapas, consultar registros e conhecer melhor a biodiversidade.

Pode ser utilizada para trabalhar biomas, conservação, distribuição geográfica, espécies ameaçadas e relações entre organismos e ambiente.

Indicado para: anos finais do Ensino Fundamental, Ensino Médio e Superior.

Idioma: principalmente inglês.

Acesso: plataforma on-line e recursos para dispositivos móveis.

Sugestão de atividade: escolha uma espécie nativa e investigue onde ela ocorre. Em seguida, analise quais mudanças ambientais podem ameaçar sua sobrevivência.

Acesse: Map of Life

6. Neuronify

O Neuronify é um simulador desenvolvido para ajudar na compreensão do comportamento dos neurônios e das redes neurais.

Nele, é possível criar conexões, modificar estímulos e observar como alterações em células individuais influenciam a atividade de uma rede.

Indicado para: Ensino Médio, cursos técnicos e Ensino Superior.

Idioma: inglês.

Acesso: disponível para diferentes sistemas e também em versão on-line.

Sugestão de atividade: construa uma rede simples com neurônios excitatórios e inibitórios. Depois, modifique as conexões e registre como o comportamento da rede se altera.

Atenção: o simulador utiliza modelos matemáticos simplificados. Ele ajuda a compreender alguns princípios, mas não reproduz toda a complexidade do sistema nervoso humano.

Acesse: Neuronify

7. MolView

O MolView permite pesquisar, construir e visualizar moléculas em duas e três dimensões. É possível girar as estruturas, observar ligações químicas e consultar diferentes bases de dados.

Embora esteja muito relacionado à Química, também pode auxiliar no ensino de Bioquímica e Biologia Molecular.

Indicado para: Ensino Médio, cursos técnicos e Ensino Superior.

Idioma: inglês.

Acesso: gratuito pelo navegador.

Sugestão de atividade: compare as estruturas tridimensionais da água, da glicose, de um aminoácido e da cafeína. Peça aos estudantes que observem o número de átomos, os elementos presentes e as diferenças entre as moléculas.

Acesse: MolView

8. Stellarium

O Stellarium transforma o computador ou o celular em um planetário. Ele permite observar estrelas, planetas, constelações e outros corpos celestes de acordo com a localização, a data e o horário escolhidos.

É uma ferramenta interessante para trabalhar astronomia, movimentos aparentes do céu, fases da Lua e orientação.

Indicado para: Ensino Fundamental, Ensino Médio e público em geral.

Idioma: disponível em português.

Acesso: possui versão para computador, navegador e dispositivos móveis. As condições de gratuidade podem variar entre as versões.

Sugestão de atividade: peça aos estudantes que observem o céu virtual no mesmo horário durante diferentes meses e registrem quais mudanças aparecem na posição das constelações e dos planetas.

Acesse: Stellarium

Antes de utilizar um aplicativo com os estudantes

Nem todo recurso que parece educativo possui conteúdo confiável ou foi desenvolvido com finalidade pedagógica. Antes de levar uma plataforma para a turma, o professor deve observar:

  • Quem desenvolveu o recurso
  • Se as informações possuem fundamento científico
  • Para qual idade ele é indicado
  • Se exige cadastro
  • Quais dados pessoais são coletados
  • Se apresenta anúncios ou compras internas
  • Se funciona nos aparelhos disponíveis
  • Se exige conexão permanente com a internet
  • Se possui recursos de acessibilidade
  • Se há alternativa para quem não possui celular ou computador

Quando os estudantes são crianças ou adolescentes, o cuidado com privacidade e proteção de dados deve ser ainda maior. Não é adequado solicitar que criem contas pessoais sem verificar as regras da escola e as condições de uso da plataforma.

Como transformar um jogo em aprendizagem?

Entregar um aplicativo aos estudantes sem orientação pode gerar entretenimento, mas não necessariamente conhecimento.

Para aproveitar melhor um recurso digital, o professor pode organizar a atividade em quatro momentos:

1. Apresentar uma pergunta

Comece com um problema que desperte a curiosidade. Por exemplo: “O que aconteceria com uma população de coelhos se o ambiente mudasse de cor?”

2. Registrar uma hipótese

Antes de iniciar a simulação, peça aos estudantes que escrevam o que acreditam que acontecerá e expliquem o motivo.

3. Explorar e coletar informações

Durante a atividade, os estudantes devem observar, comparar, registrar resultados e modificar uma variável de cada vez.

4. Discutir os resultados

Ao final, compare as hipóteses com os resultados. Pergunte o que foi descoberto, quais dúvidas permaneceram e quais limitações existem no modelo utilizado.

Essa sequência transforma a tecnologia em instrumento de investigação, e não apenas em uma distração colorida.

E quando não há internet ou celular?

Ensinar Ciências de forma interessante não depende exclusivamente de tecnologia.

É possível desenvolver atividades com materiais simples, como:

  • Construção de modelos celulares
  • Observação de folhas, sementes e insetos
  • Produção de terrários
  • Jogos de cartas sobre cadeias alimentares
  • Experimentos com água, luz, solo e germinação
  • Modelos do sistema respiratório
  • Coleções de imagens
  • Histórias investigativas
  • Debates e resolução de problemas
  • Observação do céu
  • Mapas conceituais

Também é possível projetar uma simulação para toda a turma ou organizar atividades em grupos, evitando excluir quem não possui dispositivo próprio.

Aprender Ciências é aprender a investigar

Os recursos digitais podem tornar visível o que antes parecia distante ou abstrato. Entretanto, seu maior valor não está apenas nas animações ou nas imagens tridimensionais, mas nas perguntas que ajudam a construir.

Aprender Ciências não é decorar uma lista de nomes. É observar, formular hipóteses, procurar evidências, reconhecer erros, comparar explicações e compreender que o conhecimento científico está sempre sendo construído e aperfeiçoado.

Quando utilizada com propósito, a tecnologia pode transformar a curiosidade em investigação e aproximar os estudantes da ciência de maneira crítica, participativa e verdadeiramente significativa.

Profa. Fran Narnib

Fontes consultadas: PhET Interactive Simulations, HHMI BioInteractive, Ask A Biologist, Pl@ntNet, Neuronify e MolView.

Suor nas axilas: por que o mau cheiro acontece e como combatê-lo?

“Suar é uma função natural do organismo. O problema não é o suor, mas o que acontece quando ele encontra as bactérias presentes na pele.”

Você sua muito? Entenda o que acontece

Suar faz parte do funcionamento normal do corpo. No entanto, muitas pessoas se perguntam por que algumas transpiram mais do que outras ou por que o suor das axilas apresenta um odor característico, enquanto em outras regiões isso não acontece.

A boa notícia é que o suor, por si só, não possui cheiro. O famoso “cecê”, conhecido cientificamente como bromidrose, surge quando bactérias naturalmente presentes na pele degradam substâncias encontradas no suor, especialmente aquele produzido pelas glândulas apócrinas.

Compreender esse mecanismo é o primeiro passo para prevenir e controlar o problema.

Qual é a função do suor?

O suor é um líquido produzido pelas glândulas sudoríparas cuja principal função é regular a temperatura corporal.

Quando a temperatura do corpo aumenta, seja por causa do calor, da prática de exercícios físicos, da febre ou até mesmo do estresse, as glândulas produzem suor. Ao evaporar na superfície da pele, esse líquido ajuda a resfriar o organismo, mantendo o equilíbrio da temperatura corporal.

Esse processo recebe o nome de termorregulação e é essencial para a manutenção da vida.

O que é homeostase?

Nosso organismo trabalha continuamente para manter um ambiente interno equilibrado, independentemente das mudanças do ambiente externo.

Esse equilíbrio é chamado de homeostase.

Entre os vários mecanismos envolvidos na homeostase está justamente a sudorese, responsável por impedir que o corpo superaqueça.

O que são as glândulas sudoríparas?

As glândulas sudoríparas são pequenas estruturas presentes na pele responsáveis pela produção do suor.

Existem milhões delas distribuídas por praticamente todo o corpo, com exceção de algumas regiões específicas, como os lábios, a glande do pênis, o prepúcio, o clitóris e os pequenos lábios da vulva.

Essas glândulas pertencem ao grupo das glândulas exócrinas, pois liberam suas secreções diretamente na superfície da pele ou nos folículos pilosos.

Existem dois tipos de glândulas sudoríparas

Glândulas écrinas

São as mais numerosas.

Estão distribuídas por quase toda a superfície corporal, concentrando-se principalmente nas palmas das mãos, plantas dos pés e testa.

Produzem um suor mais aquoso, composto principalmente por água, sais minerais e pequenas quantidades de ureia e outras substâncias.

São responsáveis pelo controle da temperatura corporal.

Glândulas apócrinas

São maiores e encontram-se principalmente:

  • Axilas
  • Aréolas mamárias
  • Região genital
  • Região perianal

Essas glândulas começam a funcionar na puberdade e produzem uma secreção mais espessa e rica em proteínas e lipídios.

Curiosamente, essa secreção também não possui cheiro.

O odor aparece quando as bactérias presentes na pele degradam essas substâncias.

Afinal, por que as axilas têm cheiro?

As axilas oferecem um ambiente perfeito para a proliferação das bactérias.

Ali existe:

  • maior temperatura;
  • pouca ventilação;
  • presença de pelos;
  • maior umidade.

Essas condições favorecem a multiplicação dos microrganismos, que utilizam componentes do suor como alimento e liberam compostos responsáveis pelo odor desagradável.

Portanto, o problema não é o suor em si, mas a interação entre suor e bactérias.

O que é hiperidrose?

Algumas pessoas apresentam uma produção exagerada de suor, condição conhecida como hiperidrose.

Ela pode ocorrer principalmente:

  • nas axilas;
  • nas mãos;
  • nos pés;
  • no rosto.

A hiperidrose pode causar desconforto emocional, dificuldades nas atividades diárias e prejuízos à qualidade de vida.

Nesses casos, é importante procurar orientação médica para avaliação e tratamento.

O que pode aumentar o suor e o odor?

Diversos fatores influenciam a transpiração e o odor corporal, entre eles:

  • calor intenso;
  • prática de exercícios físicos;
  • estresse e ansiedade;
  • alterações hormonais;
  • obesidade;
  • consumo excessivo de alimentos muito condimentados;
  • bebidas alcoólicas;
  • algumas doenças;
  • determinados medicamentos.

Como reduzir o mau cheiro nas axilas?

Algumas medidas simples ajudam bastante.

Mantenha uma boa higiene

Lavar diariamente as axilas com água e sabonete ajuda a reduzir a quantidade de bactérias presentes na pele.

Mantenha a região seca

Após o banho, seque bem as axilas antes de aplicar o desodorante.

Utilize desodorantes ou antitranspirantes

Os desodorantes ajudam a controlar o odor.

Os antitranspirantes reduzem a produção de suor e podem ser bastante eficazes para quem transpira excessivamente.

Prefira roupas leves

Tecidos de algodão favorecem a ventilação da pele e diminuem a umidade local.

Depilação

A remoção dos pelos pode facilitar a higiene e diminuir o acúmulo de bactérias e suor.

Receitas caseiras funcionam?

Algumas receitas populares utilizam bicarbonato de sódio, leite de magnésia ou limão.

Embora algumas pessoas relatem melhora, essas alternativas devem ser usadas com cautela.

O limão, por exemplo, pode causar queimaduras e manchas na pele quando há exposição à luz solar, devido a uma reação chamada fitofotodermatite.

Por isso, o uso de receitas caseiras não substitui a orientação de um profissional de saúde, especialmente quando o problema é persistente.

Quando procurar um médico?

Procure avaliação médica se:

  • o suor surgir de forma repentina e intensa;
  • houver suor excessivo mesmo em repouso;
  • o odor persistir apesar dos cuidados de higiene;
  • a transpiração estiver comprometendo sua qualidade de vida.

Dermatologistas podem indicar tratamentos específicos, incluindo medicamentos, antitranspirantes de alta concentração, aplicação de toxina botulínica (Botox®) e outros procedimentos, conforme cada caso.

 Curiosidade BioPsicoEduca

Você sabia que uma pessoa pode produzir mais de 1 litro de suor por hora durante exercícios intensos ou em ambientes muito quentes?

Essa é uma resposta natural do organismo para evitar o superaquecimento.

Resumindo

✔ O suor é essencial para controlar a temperatura do corpo.

✔ O suor não possui cheiro.

✔ O odor das axilas é causado pela ação das bactérias sobre a secreção das glândulas apócrinas.

✔ Higiene, antitranspirantes e roupas adequadas ajudam a controlar o problema.

✔ Casos de suor excessivo ou odor persistente devem ser avaliados por um médico.

Profa. Fran Narnib

TENSÃO PRÉ-MENSTRUAL(TPM)

Tensão pré-menstrual: quando os sintomas vão além de um simples incômodo

A sigla TPM, usada para designar a tensão pré-menstrual, muitas vezes aparece em piadas, comentários depreciativos e até situações de bullying contra as mulheres. No entanto, a TPM não é “frescura”, falta de controle ou uma característica da personalidade. Trata-se de uma condição real, relacionada ao ciclo menstrual, que pode provocar sintomas físicos, emocionais e comportamentais.

Esses sintomas costumam surgir durante a fase lútea, período compreendido entre a ovulação e o início da menstruação. Geralmente melhoram nos primeiros dias do fluxo menstrual e ficam ausentes ou muito reduzidos durante parte do ciclo.

Quando os sintomas são intensos, recorrentes e interferem nos estudos, no trabalho, nos relacionamentos ou nas atividades cotidianas, é necessário procurar avaliação profissional.

Por que a TPM acontece?

A causa exata da TPM ainda não foi completamente esclarecida. As evidências indicam que ela não ocorre simplesmente porque a mulher possui “hormônios demais” ou “hormônios de menos”.

A explicação mais aceita envolve uma sensibilidade aumentada do cérebro às oscilações naturais do estrogênio e da progesterona após a ovulação. Essas mudanças podem influenciar neurotransmissores envolvidos na regulação do humor, do sono, do apetite e da ansiedade, especialmente a serotonina e o ácido gama-aminobutírico, conhecido como GABA.

Nem todas as pessoas que menstruam respondem da mesma maneira às oscilações hormonais. Fatores genéticos, emocionais, sociais e ambientais podem influenciar a intensidade dos sintomas.

Entendendo o ciclo menstrual

O ciclo menstrual é regulado pela comunicação entre o hipotálamo, a hipófise e os ovários, formando o chamado eixo hipotálamo-hipófise-ovário.

A hipófise produz dois hormônios importantes:

  • FSH, ou hormônio folículo-estimulante: estimula o crescimento dos folículos ovarianos.
  • LH, ou hormônio luteinizante: participa da maturação folicular e seu aumento acentuado desencadeia a ovulação.

O ciclo pode ser dividido em três momentos principais:

Fase folicular

Começa no primeiro dia da menstruação. Nesse período, os folículos ovarianos se desenvolvem e os níveis de estrogênio aumentam gradualmente. O estrogênio estimula o crescimento do endométrio, tecido que reveste internamente o útero.

A duração dessa fase varia de uma pessoa para outra e também entre diferentes ciclos. Por isso, não se pode afirmar que todas as mulheres ovulam no 14º dia.

Ovulação

O aumento do LH provoca a liberação do ovócito pelo ovário. Em um ciclo de 28 dias, ela pode acontecer aproximadamente no meio do ciclo, mas essa data pode variar.

Após a ovulação, o ovócito permanece viável por cerca de 12 a 24 horas. Como os espermatozoides podem sobreviver por vários dias no trato reprodutivo, existe possibilidade de gravidez quando há relação sexual nos dias que antecedem a ovulação.

Fase lútea

Após a ovulação, o folículo rompido transforma-se no corpo lúteo, que produz principalmente progesterona, além de estrogênio. Esses hormônios preparam o endométrio para uma possível gestação.

Quando não ocorre gravidez, o corpo lúteo regride, os níveis hormonais diminuem e o endométrio descama, dando início a uma nova menstruação. É durante essa fase, especialmente nos dias anteriores ao fluxo menstrual, que os sintomas da TPM costumam aparecer.

Quais são os sintomas da TPM?

Os sintomas variam entre as pessoas e podem mudar ao longo da vida.

Sintomas físicos

  • Sensibilidade ou dor nas mamas
  • Inchaço e sensação de retenção de líquidos
  • Cólicas
  • Dor de cabeça
  • Cansaço
  • Alterações do sono
  • Dores musculares ou articulares
  • Mudanças no apetite
  • Desejo por determinados alimentos
  • Acne
  • Prisão de ventre ou alterações intestinais

Sintomas emocionais e comportamentais

  • Irritabilidade
  • Ansiedade
  • Oscilações de humor
  • Tristeza
  • Choro fácil
  • Dificuldade de concentração
  • Sensação de estar sobrecarregada
  • Alteração do interesse pelas atividades habituais
  • Afastamento social
  • Diminuição da energia
  • Mudanças no sono e no apetite

Para caracterizar uma síndrome pré-menstrual, não basta apresentar um sintoma isolado. É necessário que exista um padrão cíclico, com manifestações antes da menstruação, melhora após seu início e um período com poucos ou nenhum sintoma durante o restante do ciclo.

Existem cinco tipos de TPM?

Classificações como “TPM A, C, D, H e O” aparecem com frequência na internet, mas não fazem parte dos principais critérios diagnósticos adotados pelas diretrizes médicas atuais.

Essa divisão pode simplificar excessivamente uma condição complexa e levar à indicação de suplementos sem avaliação individual. O diagnóstico deve considerar quais sintomas estão presentes, sua intensidade, o período em que aparecem e o quanto interferem na vida da pessoa.

Também é importante verificar se não existe outra condição, como depressão, transtorno de ansiedade, transtorno bipolar, alterações da tireoide, endometriose ou efeitos de medicamentos. Algumas dessas condições podem piorar antes da menstruação e ser confundidas com TPM.

O que é transtorno disfórico pré-menstrual?

O transtorno disfórico pré-menstrual, conhecido como TDPM, é uma forma grave de transtorno pré-menstrual. Nele, predominam manifestações emocionais intensas, como:

  • Irritabilidade ou raiva acentuada
  • Tristeza profunda ou desesperança
  • Ansiedade intensa
  • Mudanças marcantes de humor
  • Dificuldade de concentração
  • Perda de interesse pelas atividades
  • Sensação de falta de controle
  • Comprometimento dos relacionamentos, dos estudos ou do trabalho

O TDPM não deve ser tratado como uma “TPM comum”. Ele necessita de avaliação médica e, em muitos casos, de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico.

Pensamentos de morte, automutilação ou suicídio exigem ajuda imediata. No Brasil, é possível procurar uma unidade de emergência, ligar para o SAMU pelo número 192 ou conversar com o Centro de Valorização da Vida pelo 188.

Como a TPM é diagnosticada?

Não existe um exame de sangue específico capaz de confirmar a TPM. O diagnóstico é clínico e depende principalmente da relação entre os sintomas e o ciclo menstrual.

Uma estratégia recomendada é registrar diariamente, por pelo menos dois ciclos consecutivos:

  • Sintomas físicos e emocionais
  • Intensidade de cada manifestação
  • Data de início e término da menstruação
  • Impacto nas atividades cotidianas
  • Uso de medicamentos
  • Qualidade do sono
  • Situações de estresse

Esse acompanhamento ajuda a diferenciar a TPM de sintomas que permanecem durante todo o mês ou apenas se intensificam no período pré-menstrual.

O que pode ajudar?

O tratamento depende da intensidade dos sintomas e deve ser individualizado.

Algumas medidas que podem contribuir para a melhora incluem:

  • Praticar atividade física regularmente
  • Manter horários de sono mais consistentes
  • Ter uma alimentação equilibrada
  • Reduzir o consumo excessivo de álcool
  • Observar se a cafeína piora ansiedade, insônia ou sensibilidade nas mamas
  • Desenvolver estratégias para controlar o estresse
  • Fazer psicoterapia quando os sintomas emocionais forem relevantes
  • Manter um diário menstrual e dos sintomas

Nos casos moderados ou graves, o profissional poderá avaliar tratamentos como terapia cognitivo-comportamental, determinados antidepressivos, especialmente os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, e alguns contraceptivos hormonais.

A escolha depende dos sintomas, das condições de saúde, do desejo de engravidar, do uso de outros medicamentos e das preferências da paciente.

Vitaminas, minerais e chás exigem cuidado

Não é seguro recomendar automaticamente vitamina B6, magnésio, cálcio, cromo, zinco, vitamina E, ômega-3, cafeína ou produtos naturais para cada suposto “tipo de TPM”.

Alguns suplementos foram estudados, mas os resultados variam e a dose precisa ser avaliada. O excesso de certas substâncias pode provocar intoxicações, interações medicamentosas ou outros problemas. Doses elevadas e prolongadas de vitamina B6, por exemplo, podem causar lesões nos nervos.

Chás e plantas medicinais também não são inofensivos apenas por serem naturais. Alguns podem interagir com medicamentos, alterar a pressão arterial, aumentar a diurese ou ser inadequados durante a gravidez e em determinadas doenças.

Antes de utilizar suplementos, fitoterápicos ou medicamentos, converse com um profissional habilitado.

Quando procurar ajuda?

A avaliação profissional é especialmente importante quando:

  • Os sintomas prejudicam o trabalho, os estudos ou os relacionamentos
  • A tristeza, a ansiedade ou a irritabilidade são intensas
  • Há crises de pânico ou comportamento agressivo
  • Os sintomas permanecem durante quase todo o mês
  • As cólicas ou o sangramento são muito intensos
  • Há suspeita de depressão ou outra condição de saúde
  • As medidas de autocuidado não produzem melhora
  • Existem pensamentos de automutilação, morte ou suicídio

A TPM pode ser controlada, mas não existe uma única solução que funcione para todas as pessoas. Reconhecer o padrão dos sintomas, abandonar a ideia de que se trata de “frescura” e procurar orientação adequada são passos essenciais para recuperar a qualidade de vida.

Profa. Fran Narnib

Fontes consultadas: Diretriz do American College of Obstetricians and Gynecologists, orientações do ACOG sobre síndrome pré-menstrual e Royal College of Obstetricians and Gynaecologists.

Estética e seus excessos: quando o cuidado com a aparência se transforma em sofrimento

Cuidar da aparência pode ser uma forma legítima de autocuidado, expressão pessoal e fortalecimento da autoestima. Usar maquiagem, cuidar da pele, mudar o cabelo ou realizar um procedimento estético não significa, por si só, que uma pessoa não aceite o próprio corpo.

O problema começa quando o desejo de cuidar de si é substituído pela obrigação de alcançar uma aparência considerada perfeita. Nesse momento, a estética deixa de representar uma escolha e passa a funcionar como uma cobrança permanente.

Vivemos em uma época em que rostos e corpos são observados, comparados, fotografados, editados e avaliados continuamente. Rugas, estrias, cicatrizes, poros, manchas, celulite, flacidez e outras características naturais passaram a ser apresentadas como defeitos que precisam ser corrigidos.

Mas até onde vai o autocuidado? Quando a busca pela beleza se torna excessiva? E quais são os riscos físicos e emocionais envolvidos?

A beleza transformada em obrigação

Os padrões de beleza sempre existiram, mas as redes sociais aumentaram sua velocidade e seu alcance. Diariamente somos expostos a imagens cuidadosamente produzidas, com iluminação profissional, maquiagem, poses, filtros e programas de edição.

O problema é que essas imagens modificadas são frequentemente interpretadas como representações da vida real. Com isso, muitas pessoas passam a comparar o próprio corpo, visto de todos os ângulos e em constante transformação, com uma fotografia selecionada e alterada.

Essa comparação é injusta e pode produzir uma sensação constante de inadequação. A pessoa deixa de perguntar “como eu gostaria de me cuidar?” e começa a pensar “o que preciso corrigir para ser aceita?”.

O padrão também muda rapidamente. Em determinado período, valoriza-se um corpo extremamente magro; em outro, curvas acentuadas. Sobrancelhas, lábios, nariz, cabelos e contornos faciais entram e saem de moda. Entretanto, o corpo humano não deveria ser tratado como uma peça que precisa acompanhar todas as tendências.

O mercado da insatisfação

Grande parte da indústria da beleza não vende apenas produtos ou procedimentos. Ela também pode vender a ideia de que existe algo errado com a pessoa.

Primeiro surge ou é reforçada uma insatisfação: o rosto está envelhecido, os lábios são pequenos, o nariz não tem o formato ideal, o corpo precisa ser definido. Depois aparece uma solução aparentemente rápida, muitas vezes divulgada com imagens de “antes e depois”, promoções e promessas de transformação.

Nem toda divulgação de serviços estéticos é abusiva. O problema está nas mensagens que exploram inseguranças, prometem resultados irreais, minimizam riscos ou fazem a pessoa acreditar que sua felicidade, seu relacionamento e seu sucesso dependem de uma mudança física.

Procedimentos estéticos são frequentemente apresentados como simples, rápidos e praticamente isentos de riscos. No entanto, qualquer intervenção que envolva substâncias injetáveis, equipamentos, anestesia ou ruptura da barreira da pele pode provocar complicações.

Quando nunca parece suficiente

Uma alteração estética pode gerar satisfação. Porém, quando a origem do sofrimento está em uma autoimagem profundamente negativa, o resultado pode não trazer o alívio esperado.

A pessoa corrige uma característica e logo encontra outra. Depois de um procedimento, passa a desejar mais volume, mais definição, mais simetria ou uma aparência ainda mais jovem. O problema deixa de ser uma parte específica do corpo e passa a ser a sensação de nunca estar suficientemente bonita.

Alguns sinais de alerta são:

  • Pensar na aparência durante grande parte do dia
  • Comparar-se constantemente com outras pessoas
  • Evitar fotografias, espelhos, encontros ou atividades sociais
  • Conferir repetidamente o próprio rosto ou corpo
  • Usar filtros em todas as imagens por não suportar a aparência real
  • Sentir vergonha intensa de características pouco perceptíveis para outras pessoas
  • Realizar procedimentos sucessivos sem alcançar satisfação
  • Gastar além das próprias condições financeiras
  • Acreditar que uma mudança física resolverá todos os problemas emocionais
  • Sentir ansiedade, tristeza ou desespero por causa da aparência

Esses comportamentos podem indicar que o sofrimento vai além de uma insatisfação cotidiana.

Transtorno dismórfico corporal

O transtorno dismórfico corporal é uma condição de saúde mental caracterizada pela preocupação intensa com um ou mais aspectos da aparência considerados defeituosos. A característica pode ser pequena ou nem sequer ser percebida pelas outras pessoas, mas provoca sofrimento real e significativo.

A pessoa pode passar muito tempo diante do espelho ou evitá-lo completamente, tentar esconder determinadas partes do corpo, buscar reafirmação constante e realizar sucessivos procedimentos estéticos.

Nesses casos, uma nova intervenção pode não solucionar o sofrimento. Como a dificuldade está relacionada à percepção da própria imagem, a insatisfação pode permanecer, mudar de local ou se intensificar.

Isso não significa que toda pessoa que deseja realizar um procedimento tenha um transtorno. O diagnóstico exige avaliação profissional. Entretanto, quando existe preocupação excessiva ou repetição compulsiva de intervenções, o cuidado psicológico ou psiquiátrico deve ser considerado antes de novos procedimentos.

Padronização dos rostos

Outro efeito dos excessos estéticos é a tentativa de reproduzir as mesmas características em pessoas diferentes: sobrancelhas, lábios, queixo, mandíbula, nariz e maçãs do rosto seguindo um único modelo.

Procedimentos bem indicados devem considerar a anatomia, a idade, a saúde, as proporções individuais e os desejos da pessoa. Quando todos os rostos são conduzidos ao mesmo padrão, expressões e características pessoais podem ser apagadas.

A diversidade humana inclui diferentes formatos, cores, texturas, proporções e sinais do envelhecimento. Beleza não deveria significar uniformidade.

Envelhecer não é adoecer

A valorização excessiva da juventude transformou acontecimentos naturais em problemas que supostamente precisam ser combatidos. Linhas de expressão, cabelos brancos, mudanças na pele e alterações do contorno corporal fazem parte do envelhecimento.

É possível desejar cuidar da pele ou suavizar determinada característica. O problema está em tratar o envelhecimento como fracasso, descuido ou perda de valor pessoal.

Essa cobrança é especialmente intensa sobre as mulheres. Espera-se que envelheçam, mas sem aparentar a idade; que cuidem da aparência, mas sem demonstrar esforço; e que permaneçam dentro de um padrão que se torna cada vez mais difícil de alcançar.

O envelhecimento pode trazer mudanças, perdas e desafios, mas também representa história, sobrevivência, aprendizado e continuidade da vida.

Procedimentos estéticos não são isentos de riscos

Mesmo procedimentos considerados pouco invasivos podem ocasionar:

  • Dor, hematomas e inchaço
  • Infecções
  • Reações alérgicas
  • Manchas e cicatrizes
  • Assimetrias
  • Lesões em nervos
  • Necrose de tecidos
  • Obstrução de vasos sanguíneos
  • Alterações visuais
  • Complicações anestésicas
  • Resultados permanentes ou de difícil correção

Em 2025, operações coordenadas pela Anvisa encontraram irregularidades em clínicas inspecionadas, incluindo produtos vencidos, substâncias sem registro, reutilização de materiais de uso único e equipamentos irregulares. Em março de 2026, a Agência reforçou que os preenchedores dérmicos devem ser usados somente nas regiões e nos volumes aprovados, pois aplicações fora dessas indicações aumentam a possibilidade de complicações.

Por isso, preço baixo, popularidade nas redes sociais e fotografias de resultados não são suficientes para avaliar a segurança de um serviço.

Antes de realizar um procedimento

Alguns cuidados são indispensáveis:

  • Verifique se o estabelecimento possui licença sanitária.
  • Confirme se o profissional está legalmente habilitado para realizar o procedimento.
  • Consulte o registro do profissional em seu respectivo conselho.
  • Pergunte sobre os riscos, contraindicações e alternativas.
  • Informe doenças, alergias e todos os medicamentos utilizados.
  • Confira se produtos e equipamentos estão regularizados pela Anvisa.
  • Peça para ver a embalagem, o lote e a validade do produto.
  • Não aceite substâncias sem identificação ou preparadas de maneira irregular.
  • Desconfie de resultados garantidos e de promessas como “risco zero”.
  • Não decida sob pressão de promoções com prazo muito curto.
  • Pergunte quem prestará assistência se ocorrer alguma complicação.
  • Leia cuidadosamente o termo de consentimento antes de assiná-lo.

Uma avaliação responsável também deve investigar as expectativas. O profissional ético precisa saber dizer não quando o procedimento é desnecessário, contraindicado ou incapaz de oferecer o resultado esperado.

Autocuidado ou autoagressão?

Uma maneira de refletir sobre essa diferença é observar de onde vem a decisão.

O autocuidado tende a nascer de uma escolha consciente. Considera riscos, limites, condições financeiras e expectativas possíveis. A pessoa compreende que seu valor não depende do resultado.

O comportamento excessivo costuma ser movido por medo, vergonha, comparação, rejeição ou necessidade de aprovação. A pessoa acredita que só poderá viver, relacionar-se, fotografar-se ou sentir-se digna depois de modificar o corpo.

Algumas perguntas podem ajudar:

  • Estou fazendo isso porque desejo ou porque me sinto pressionada?
  • Espero melhorar uma característica ou transformar completamente minha vida?
  • Conheço e aceito os riscos?
  • Consigo respeitar meus limites financeiros e físicos?
  • Continuaria desejando esse procedimento se ninguém mais soubesse?
  • O resultado que espero é realmente possível?
  • Tenho adiado minha vida até alcançar uma aparência ideal?
  • Preciso de um novo procedimento porque desejo ou porque nunca me sinto suficiente?

Beleza com liberdade e segurança

A estética pode fazer parte do autocuidado, mas não deve se transformar em prisão. Não há problema em desejar uma mudança. O que precisa ser questionado é a crença de que uma pessoa precisa mudar para merecer respeito, amor, oportunidades ou pertencimento.

Também não se trata de condenar os procedimentos estéticos ou responsabilizar individualmente quem os procura. Estamos inseridos em uma cultura que lucra com a insegurança e apresenta corpos reais como problemas a serem corrigidos.

Cuidar de si inclui proteger a saúde, respeitar os próprios limites, buscar informações confiáveis e reconhecer quando uma dor emocional está sendo depositada sobre o corpo.

Um procedimento pode alterar uma característica física. Ele não deve carregar a responsabilidade de curar sozinho a rejeição, a solidão, a baixa autoestima ou a sensação de não ser suficiente.

A beleza pode ser uma escolha. Nunca deveria ser uma obrigação.

Profa. Fran Narnib

Fontes consultadas: Anvisa — Estética com Segurança, operação de fiscalização em clínicas de estética e orientações da Anvisa sobre preenchedores dérmicos.

Cosméticos artesanais: natural não significa necessariamente seguro

Sabonetes, xampus, condicionadores, hidratantes e sais de banho artesanais despertam interesse pela possibilidade de personalização, pelo contato com diferentes aromas e pela valorização do trabalho manual. Entretanto, produzir um cosmético envolve muito mais do que reunir ingredientes e seguir uma receita encontrada na internet.

A pele é um órgão vivo e pode reagir a substâncias naturais ou sintéticas. Por isso, todo produto aplicado no corpo precisa ser formulado com responsabilidade.

Artesanal não é sinônimo de natural

Um cosmético artesanal pode conter ingredientes naturais, sintéticos ou uma combinação dos dois. Conservantes, fragrâncias, corantes, tensoativos e reguladores de pH, por exemplo, podem ser necessários para garantir estabilidade, funcionalidade e segurança.

Da mesma forma, um cosmético industrializado não é necessariamente prejudicial. Produtos regularizados devem atender a critérios sanitários relacionados à composição, fabricação, rotulagem, qualidade e segurança.

O mais importante não é apenas saber se o produto é artesanal ou industrializado, mas conhecer sua procedência, sua formulação e as condições em que foi produzido.

Ingredientes naturais também podem causar reações

Óleos essenciais, extratos vegetais, argilas, manteigas e fragrâncias podem provocar irritações, alergias e sensibilização. Algumas substâncias também apresentam restrições de concentração ou não são adequadas para crianças, gestantes, pessoas alérgicas e indivíduos com determinadas doenças.

Óleos essenciais não devem ser aplicados diretamente sobre a pele sem avaliação e diluição apropriadas. Frutas, folhas, leite, mel e outros ingredientes frescos também podem favorecer a contaminação e reduzir a durabilidade da preparação.

“Natural”, portanto, descreve uma possível origem do ingrediente, mas não comprova que ele seja seguro para todas as pessoas.

O risco da contaminação

Produtos que contêm água, como xampus, condicionadores, cremes e sabonetes líquidos, podem oferecer condições para a proliferação de bactérias, fungos e leveduras.

Mesmo quando o produto aparenta estar normal, pode existir contaminação microbiológica. Alterações no odor, na cor ou na consistência são sinais de problema, mas sua ausência não garante segurança.

Para reduzir os riscos, é necessário controlar:

  • Qualidade das matérias-primas
  • Higienização do ambiente e dos utensílios
  • Qualidade da água utilizada
  • Temperatura de preparação
  • Concentração dos ingredientes
  • Sistema conservante
  • pH da formulação
  • Tipo de embalagem
  • Condições de armazenamento
  • Prazo de validade

Adicionar um conservante de maneira aleatória não resolve o problema. Ele precisa ser compatível com a formulação, utilizado na concentração permitida e apresentar eficácia contra os microrganismos que podem contaminar o produto.

Por que o pH é importante?

O pH influencia a estabilidade, a conservação e a interação do cosmético com a pele ou os cabelos. Um produto muito ácido ou muito alcalino pode provocar irritação, ressecamento, ardência e danos à fibra capilar.

Não é seguro avaliar o pH apenas pela aparência ou por uma receita. Ele deve ser medido com instrumentos adequados e corrigido de forma técnica quando necessário.

Receita não é o mesmo que formulação

Uma receita apresenta ingredientes e etapas. Uma formulação responsável considera também a função de cada componente, as concentrações permitidas, as incompatibilidades químicas, o pH, a estabilidade, a conservação, a embalagem e o modo de uso.

Trocar um ingrediente por outro ou alterar quantidades pode modificar completamente o produto. A mudança pode provocar separação, perda de eficácia, irritação ou contaminação.

Por isso, uma preparação não deve ser considerada segura apenas porque “deu certo” visualmente.

Produzir para si é diferente de fabricar para vender

Fazer uma pequena preparação para aprendizado ou uso pessoal não equivale a produzir cosméticos comercialmente.

A venda exige atenção às normas sanitárias, à regularização da empresa e do produto, às boas práticas de fabricação, à rotulagem, à rastreabilidade e ao controle de qualidade. Dependendo do tipo de cosmético, também podem ser necessárias comprovações específicas de segurança e eficácia.

A ideia de que basta seguir uma receita para começar rapidamente um negócio pode colocar tanto o consumidor quanto o produtor em risco. Além dos danos à saúde, a fabricação ou comercialização irregular pode gerar responsabilização administrativa, civil e penal.

Como escolher cosméticos com mais segurança?

Antes de usar ou comprar um cosmético, observe:

  • Identificação do fabricante
  • Lista de ingredientes
  • Número do lote
  • Prazo de validade
  • Modo de uso
  • Advertências e restrições
  • Integridade da embalagem
  • Situação do produto na Anvisa, quando aplicável

Evite produtos sem rótulo, sem procedência, com promessas milagrosas ou que aleguem tratar doenças. Cosméticos não devem ser apresentados como substitutos de medicamentos ou tratamentos médicos.

Se ocorrer coceira, ardência, vermelhidão, inchaço ou dificuldade para respirar, interrompa o uso. Reações intensas, extensas ou acompanhadas de sintomas respiratórios exigem atendimento imediato.

Conhecimento também é uma forma de cuidado

A produção artesanal pode ser criativa e interessante, mas precisa ser acompanhada de estudo, responsabilidade e respeito às normas sanitárias. A simplicidade de uma receita não elimina a complexidade da pele, dos ingredientes e dos microrganismos.

Antes de produzir, usar ou comercializar um cosmético, é necessário compreender que beleza e higiene também envolvem saúde.

Profa. Fran Narnib

Fontes consultadas: Anvisa — conceitos e definições sobre cosméticos, Guia para avaliação de segurança de produtos cosméticos e Guia de controle de qualidade de produtos cosméticos.

APRENDENDO COM A FARMACOLOGIA

Fármaco, remédio e medicamento: você sabe a diferença?

Os medicamentos fazem parte da vida de muitas pessoas, mas nem sempre compreendemos como são produzidos, como agem no organismo e por que precisam ser utilizados com cuidado.

A ciência que estuda essas substâncias é a farmacologia. Ela investiga a origem, as propriedades, os mecanismos de ação, os efeitos e o destino dos fármacos no organismo.

Antes de conhecermos melhor esse assunto, é importante responder a uma pergunta: fármaco, medicamento e remédio significam a mesma coisa?

Embora esses termos sejam usados como sinônimos no cotidiano, eles possuem significados diferentes.

O que é fármaco?

O fármaco é a substância ativa responsável pelo efeito farmacológico. Ele interage com o organismo e pode produzir uma resposta destinada a prevenir, diagnosticar, controlar ou tratar uma condição de saúde.

Um medicamento pode conter um ou mais fármacos, além de outras substâncias chamadas excipientes, utilizadas para dar forma, estabilidade, sabor, conservação ou facilitar sua administração.

Por exemplo, o paracetamol é um fármaco. Quando ele é preparado em forma de comprimido, gotas ou solução oral, associado aos excipientes necessários e produzido conforme padrões de qualidade, passa a compor um medicamento.

O que é medicamento?

Segundo a Anvisa, medicamento é um produto farmacêutico tecnicamente obtido ou elaborado, com finalidade profilática, curativa, paliativa ou diagnóstica.

Isso significa que o medicamento é o produto final, apresentado em uma forma farmacêutica, como comprimido, cápsula, solução, suspensão, pomada ou injetável. Sua fabricação deve seguir critérios de qualidade, segurança e eficácia estabelecidos pelas autoridades sanitárias.

Portanto, não é correto afirmar que todo medicamento “é um fármaco”. O mais adequado é dizer que o fármaco é o princípio ativo presente no medicamento.

O que é remédio?

Remédio é um termo mais amplo. Ele pode ser empregado para designar qualquer cuidado ou recurso utilizado para promover conforto, aliviar um desconforto ou contribuir para a recuperação e o bem-estar.

Repouso, hidratação, alimentação adequada, fisioterapia, psicoterapia, massagem e banho morno podem ser considerados remédios em determinadas situações. Práticas religiosas, como a oração, também podem oferecer conforto e apoio espiritual, mas não devem substituir o tratamento profissional quando ele for necessário.

Todo medicamento pode ser considerado um remédio quando utilizado adequadamente, mas nem todo remédio é um medicamento.

Chás e plantas medicinais também exigem cuidado. O fato de uma substância ser natural não significa que ela seja sempre segura. Algumas plantas podem causar reações adversas, intoxicações ou interagir com medicamentos.

Qual é a origem dos fármacos?

Os fármacos podem ter diferentes origens:

  • Natural: obtidos ou inspirados em substâncias encontradas em plantas, animais, microrganismos ou minerais.
  • Sintética: produzidos por meio de processos químicos em laboratório.
  • Semissintética: substâncias naturais que passam por modificações químicas.
  • Biotecnológica: produzidos com a participação de células ou organismos vivos, como ocorre com alguns hormônios, anticorpos e medicamentos biológicos.

Atualmente, muitos fármacos que tiveram origem em substâncias naturais são produzidos ou modificados em laboratório para aumentar sua pureza, estabilidade, segurança ou eficácia.

O que é farmacoterapia?

Farmacoterapia é a utilização de medicamentos para prevenir, controlar ou tratar doenças e aliviar sinais e sintomas. Ela deve considerar fatores como diagnóstico, dose, horário, duração do tratamento, idade, condições clínicas e possíveis interações medicamentosas.

Quanto ao local de ação, os medicamentos podem produzir:

Ação local: o efeito ocorre principalmente no local em que o produto foi aplicado. Alguns colírios, pomadas e géis são exemplos. Entretanto, mesmo medicamentos aplicados sobre a pele ou as mucosas podem ser absorvidos e produzir efeitos em outras partes do organismo.

Ação sistêmica: o fármaco alcança a circulação sanguínea e é distribuído pelo organismo até os tecidos em que exercerá sua ação. Isso pode acontecer por diferentes vias, como oral, intravenosa, intramuscular, transdérmica ou inalatória.

A via de administração, sozinha, não determina se o efeito será local ou sistêmico. Alguns medicamentos ingeridos atuam principalmente no sistema digestório, enquanto determinados produtos aplicados na pele podem alcançar a circulação sanguínea.

Quais são as finalidades dos medicamentos?

Profilática ou preventiva: ajuda a evitar doenças ou complicações. Algumas medidas farmacológicas preventivas e os imunobiológicos, como as vacinas, cumprem essa finalidade.

Curativa: atua sobre a causa da doença e pode contribuir para sua cura. Os antibióticos, por exemplo, tratam determinadas infecções causadas por bactérias sensíveis. Eles não funcionam contra vírus e não devem ser utilizados sem orientação profissional.

Paliativa ou sintomática: alivia sinais, sintomas e sofrimento, mesmo quando não elimina a causa da doença. Analgésicos utilizados para controlar a dor são exemplos.

Diagnóstica: auxilia na realização ou interpretação de exames. Os meios de contraste empregados em determinados exames de imagem são exemplos de medicamentos utilizados com finalidade diagnóstica.

Medicamentos também oferecem riscos

Todo medicamento pode causar efeitos indesejados, interações ou intoxicações, inclusive aqueles vendidos sem receita. Por isso, devem ser utilizados na dose correta, durante o período indicado e com orientação de profissionais habilitados.

A automedicação pode mascarar sintomas, atrasar o diagnóstico e provocar danos à saúde. No caso dos antibióticos, o uso inadequado ainda favorece o desenvolvimento da resistência bacteriana.

Medicamento não é um produto comum. Quando utilizado corretamente, pode proteger, aliviar e salvar vidas. Quando empregado de maneira inadequada, também pode causar sérios prejuízos.

Profa. Fran Narnib

Fontes consultadas: Conceitos e definições da Anvisa, Cartilha “O que devemos saber sobre medicamentos” e orientações da Anvisa sobre o uso racional de medicamentos.