Por que não conseguimos fazer cócegas em nós mesmos?

Você já percebeu que é quase impossível provocar em si mesmo a mesma sensação de cócegas que outra pessoa consegue causar? Mesmo tocando a sola dos pés ou a barriga, a reação costuma ser diferente.

Isso acontece porque o cérebro consegue prever boa parte das sensações produzidas pelos nossos próprios movimentos. Quando decidimos tocar uma parte do corpo, o sistema nervoso envia comandos aos músculos e usa informações sobre esse movimento para antecipar o contato. Assim, a sensação prevista pode ser atenuada.

Já quando outra pessoa nos toca de maneira inesperada, fica mais difícil prever exatamente quando, onde e como o contato acontecerá. A surpresa contribui para que as cócegas sejam mais intensas. O cerebelo e outras regiões cerebrais participam desse processamento.

Isso não significa que seja absolutamente impossível sentir cócegas provocadas por nós mesmos. A percepção varia conforme o tipo de toque, a previsibilidade e as condições individuais.

Para pensar

Se o cérebro consegue antecipar nossos próprios movimentos, por que às vezes nos assustamos com algo que nós mesmos fizemos?

Referência científica: Blakemore, S.-J., Wolpert, D. M. e Frith, C. D. (1998). Central cancellation of self-produced tickle sensation. Nature Neuroscience, 1, 635–640. https://doi.org/10.1038/2870

Professora, se o corpo sabe tanto, por que a gente não sabe também?

Tenho o costume de dizer aos meus alunos que o nosso corpo é muito inteligente. É uma maneira de falar sobre como ele realiza tantas funções e responde ao que acontece dentro e fora de nós. Ao ouvir isso, um aluno entendeu que o corpo sabe muito e me perguntou:

“Professora, se o corpo sabe tanto, por que a gente não sabe também?”

Quando dizemos que o corpo é “inteligente” ou que “sabe” cicatrizar uma ferida e ajustar a temperatura, usamos uma maneira de falar. As células não pensam nem entendem o que estão fazendo. Elas respondem a sinais químicos e físicos.

Se ficamos muito quentes, por exemplo, o organismo pode produzir suor, que ajuda a resfriar o corpo quando evapora. Quando nos machucamos, diferentes células participam do fechamento e do reparo da ferida. Esses processos acontecem sem precisarmos conhecer ou comandar cada etapa.

Muitos ajustes ajudam a manter nossas condições internas em faixas adequadas à vida. Esse equilíbrio dinâmico recebe o nome de homeostase. Isso não significa que o corpo sabe tudo ou que nunca falha, mas que possui mecanismos para regular seu funcionamento.

Já saber explicar o que acontece depende de aprender, prestar atenção e formar memórias. Por isso, nosso corpo pode realizar uma função mesmo quando ainda não estudamos como ela funciona.

Você não precisa saber explicar a digestão para digerir um alimento. Mas pode aprender como ela acontece.

E foi exatamente isso que essa pergunta nos convidou a fazer: investigar algo que acontece dentro de nós todos os dias.

Profa. Fran Narnib Lorenzon
Biopsicoeduca

Fontes: National Cancer Institute, verbete “Homeostasis”; National Institute of Neurological Disorders and Stroke, “Brain Basics: Know Your Brain”.

Por que a gente enjoa no carro ou no ônibus?

O enjoo durante uma viagem acontece, principalmente, porque o cérebro recebe informações que parecem não combinar entre si.

Dentro do ouvido existe o sistema vestibular, responsável por perceber movimentos, acelerações e mudanças de posição da cabeça. Quando o carro ou o ônibus faz curvas, freia, acelera ou balança, esse sistema percebe claramente que o corpo está em movimento.

Mas os olhos podem contar outra história.

Se a pessoa estiver olhando para um livro, para o celular ou para o interior do veículo, a imagem diante dela parece relativamente parada. Assim, o ouvido informa ao cérebro: “Estamos nos movimentando”, enquanto os olhos parecem dizer: “Está tudo parado”.

Essa diferença de informações pode confundir o cérebro e provocar a chamada cinetose, popularmente conhecida como enjoo de movimento.

É por isso que podem aparecer náusea, tontura, suor frio, palidez, dor de cabeça e até vômito.

Olhar para fora do veículo, especialmente para um ponto distante ou para o horizonte, costuma ajudar porque os olhos passam a perceber melhor o movimento que o ouvido interno já estava detectando. Evitar ler ou ficar muito tempo olhando para o celular durante a viagem também pode diminuir o desconforto.

Então, quando alguém diz que “não consegue ler no carro porque passa mal”, não é exagero. É o cérebro tentando organizar informações diferentes que chegam ao mesmo tempo.

Curiosidade: o mesmo mecanismo pode acontecer em barcos, aviões, brinquedos de parque de diversões e até em algumas experiências de realidade virtual.

Por que a pupila aumenta (midríase) e diminui de repente (miose)?

A pupila funciona como uma espécie de abertura do olho, controlando a quantidade de luz que entra.

Quando há muita luz, ela fica menor. Esse processo é chamado de miose. Quando o ambiente escurece, a pupila aumenta para permitir a entrada de mais luz. Essa dilatação recebe o nome de midríase.

Essas mudanças também podem acontecer por causa de emoções, sustos, ansiedade, atenção, esforço visual e alguns medicamentos. Quem controla grande parte dessas respostas é o sistema nervoso autônomo.

Por isso, às vezes parece que a pupila mudou “do nada”, mas, na verdade, o organismo está respondendo a alguma alteração no ambiente ou no próprio corpo.

Curiosidade: normalmente, as duas pupilas mudam juntas. Se uma delas ficar muito diferente da outra de forma repentina, principalmente acompanhada de dor de cabeça forte ou alteração da visão, é importante procurar avaliação médica.

Profa. Fran Narnib Lorenzon

O que faz o corpo se recuperar quando a gente se machuca?

Quando nos machucamos, o corpo inicia imediatamente um processo chamado cicatrização. Não existe uma única parte responsável por isso: células, sangue, sistema imunológico e nutrientes trabalham juntos para reparar o local lesionado.

Primeiro, as plaquetas ajudam a formar um coágulo, diminuindo o sangramento e criando uma proteção temporária. É desse processo que surge a casquinha do ferimento.

Depois, células de defesa chegam ao local para combater microrganismos e remover células danificadas. Por isso, nos primeiros dias, a região pode ficar um pouco vermelha, quente e inchada. Essa inflamação controlada faz parte da recuperação.

Em seguida, os fibroblastos produzem colágeno, uma proteína que ajuda a preencher e fortalecer a área machucada. Ao mesmo tempo, novas células da pele se multiplicam e pequenos vasos sanguíneos se formam para levar oxigênio e nutrientes ao tecido.

Por último, o tecido passa por uma fase de reorganização e fortalecimento. Dependendo da profundidade do ferimento, a pele pode voltar a ficar parecida com a original ou deixar uma cicatriz.

Assim, o corpo se recupera graças à ação conjunta das plaquetas, células de defesa, fibroblastos, vasos sanguíneos e células-tronco dos tecidos. É como uma equipe de reparos trabalhando dentro de nós!

Curiosidade: a casquinha protege a pele nova que está se formando por baixo. Arrancá-la antes da hora pode atrasar a cicatrização, provocar sangramento e aumentar o risco de infecção.

Esta pergunta foi feita por um aluno durante uma aula de Ciências e fará parte do livro Professora, é verdade que…? O corpo humano explicado pelas perguntas das crianças, da Profa. Fran Narnib Lorenzon, que será publicado em breve.

Quando sentimos dores musculares, significa que as mitocôndrias estão mandando respiração para o corpo?

Não exatamente. As mitocôndrias não “mandam respiração” para o corpo. Elas utilizam o oxigênio e os nutrientes que chegam às células para produzir ATP, uma molécula que fornece energia para o músculo se contrair e realizar movimentos. Esse processo é chamado de respiração celular.

Durante um exercício intenso, os músculos precisam de muita energia. As mitocôndrias aumentam a produção de ATP, mas, quando a necessidade energética é maior do que a quantidade que pode ser produzida com oxigênio naquele momento, as células também recorrem a outras formas rápidas de obtenção de energia.

A ardência sentida durante o exercício está relacionada, entre outros fatores, ao acúmulo de íons de hidrogênio e a alterações químicas temporárias no músculo. Já aquela dor que costuma aparecer horas depois ou no dia seguinte é chamada de dor muscular de início tardio. Ela ocorre principalmente por pequenas lesões nas fibras musculares e pela resposta inflamatória causada por um esforço novo ou mais intenso.

Portanto, as mitocôndrias realmente participam da produção de energia usada pelos músculos, mas a dor muscular não significa que elas estejam “mandando respiração” para o corpo. Na verdade, a respiração leva oxigênio aos tecidos, e as mitocôndrias utilizam esse oxigênio para ajudar a transformar nutrientes em energia.

Curiosidade: quanto mais uma pessoa treina, mais eficientes podem se tornar as mitocôndrias dos músculos, ajudando o corpo a produzir energia e suportar melhor o exercício.

Esta pergunta foi feita por uma aluna durante uma aula de Ciências e fará parte do livro Professora, é verdade que…? O corpo humano explicado pelas perguntas das crianças, da Profa. Fran Narnib Lorenzon, que será publicado em breve.

Por que o coentro tem gosto de sabão para algumas pessoas?

Você já comeu coentro e teve a impressão de estar mastigando algo com gosto de sabão? Essa sensação é real e pode estar relacionada à maneira como o organismo percebe o aroma dessa planta.

O coentro contém substâncias chamadas aldeídos. Alguns desses compostos possuem aromas semelhantes aos encontrados em produtos de limpeza e sabonetes. Como grande parte do que chamamos de sabor depende também do olfato, determinadas pessoas percebem esses aldeídos com maior intensidade e associam o coentro ao gosto de sabão.

Pesquisas indicam que essa percepção pode sofrer influência genética. Variações localizadas próximas a genes responsáveis pelos receptores olfativos, especialmente na região do gene OR6A2, estão associadas a uma sensibilidade maior aos aldeídos do coentro. Entretanto, a genética não explica tudo: o costume, a cultura alimentar, a frequência de consumo e a forma de preparo também podem influenciar essa experiência.

Curiosidade surpreendente: enquanto algumas pessoas sentem gosto de sabão, outras percebem no coentro um sabor fresco, cítrico e agradável. Isso acontece porque cérebros diferentes podem interpretar os mesmos compostos aromáticos de maneiras distintas.

Eu também faço parte do grupo de pessoas para quem o coentro tem gosto de sabão. Portanto, se isso também acontece com você, saiba que não é impressão nem significa que o alimento esteja estragado. É apenas uma forma diferente de perceber seu aroma.

Esta pergunta foi feita por um aluno durante uma aula de ciências e fará parte do livro Professora, é verdade que…? O corpo humano explicado pelas perguntas das crianças, da Profa. Fran Narnib Lorenzon, que será publicado em breve.

Referência científica:
ERIKSSON, N. et al. A genetic variant near olfactory receptor genes influences cilantro preference. Flavour, v. 1, artigo 22, 2012.

Piloereção: O Que Causa Arrepios no Corpo Humano?

Por que ficamos arrepiados?

Quando sentimos frio, medo ou uma emoção intensa, pequenos músculos ligados aos pelos se contraem, fazendo com que eles fiquem levantados. Esse fenômeno é chamado de piloereção.

Nos animais com muitos pelos, essa reação ajuda a conservar o calor e também faz com que pareçam maiores diante de uma ameaça. Nos seres humanos, que possuem poucos pelos, o arrepio permaneceu como uma herança evolutiva dos nossos ancestrais.

Curiosidade extra: uma música, uma lembrança ou uma cena emocionante também pode provocar arrepios, porque o cérebro ativa respostas físicas relacionadas às emoções.

Esta pergunta foi feita por um aluno durante uma aula de ciências e fará parte do livro Professora, é verdade que…? O corpo humano explicado pelas perguntas das crianças, da Profa. Fran Narnib Lorenzon, que será publicado em breve.

Por que o estômago não digere a si mesmo

Você sabia que o estômago não digere a si mesmo?

O estômago produz um ácido muito forte para ajudar na digestão dos alimentos. Mesmo assim, ele não é destruído porque possui uma camada de muco que protege suas paredes contra a ação desse ácido.

Essa proteção é renovada constantemente. Quando ela é prejudicada, podem surgir inflamações e feridas, como gastrite e úlcera.

Curiosidade extra: as células que revestem o estômago são substituídas rapidamente, geralmente em poucos dias!

Esta pergunta foi feita por um aluno durante uma aula de Ciências e fará parte do livro Professora, é verdade que…? O corpo humano explicado pelas perguntas das crianças, da Profa. Fran Narnib Lorenzon, que será publicado em breve.