
Tensão pré-menstrual: quando os sintomas vão além de um simples incômodo
A sigla TPM, usada para designar a tensão pré-menstrual, muitas vezes aparece em piadas, comentários depreciativos e até situações de bullying contra as mulheres. No entanto, a TPM não é “frescura”, falta de controle ou uma característica da personalidade. Trata-se de uma condição real, relacionada ao ciclo menstrual, que pode provocar sintomas físicos, emocionais e comportamentais.
Esses sintomas costumam surgir durante a fase lútea, período compreendido entre a ovulação e o início da menstruação. Geralmente melhoram nos primeiros dias do fluxo menstrual e ficam ausentes ou muito reduzidos durante parte do ciclo.
Quando os sintomas são intensos, recorrentes e interferem nos estudos, no trabalho, nos relacionamentos ou nas atividades cotidianas, é necessário procurar avaliação profissional.
Por que a TPM acontece?
A causa exata da TPM ainda não foi completamente esclarecida. As evidências indicam que ela não ocorre simplesmente porque a mulher possui “hormônios demais” ou “hormônios de menos”.
A explicação mais aceita envolve uma sensibilidade aumentada do cérebro às oscilações naturais do estrogênio e da progesterona após a ovulação. Essas mudanças podem influenciar neurotransmissores envolvidos na regulação do humor, do sono, do apetite e da ansiedade, especialmente a serotonina e o ácido gama-aminobutírico, conhecido como GABA.
Nem todas as pessoas que menstruam respondem da mesma maneira às oscilações hormonais. Fatores genéticos, emocionais, sociais e ambientais podem influenciar a intensidade dos sintomas.
Entendendo o ciclo menstrual
O ciclo menstrual é regulado pela comunicação entre o hipotálamo, a hipófise e os ovários, formando o chamado eixo hipotálamo-hipófise-ovário.
A hipófise produz dois hormônios importantes:
- FSH, ou hormônio folículo-estimulante: estimula o crescimento dos folículos ovarianos.
- LH, ou hormônio luteinizante: participa da maturação folicular e seu aumento acentuado desencadeia a ovulação.
O ciclo pode ser dividido em três momentos principais:
Fase folicular
Começa no primeiro dia da menstruação. Nesse período, os folículos ovarianos se desenvolvem e os níveis de estrogênio aumentam gradualmente. O estrogênio estimula o crescimento do endométrio, tecido que reveste internamente o útero.
A duração dessa fase varia de uma pessoa para outra e também entre diferentes ciclos. Por isso, não se pode afirmar que todas as mulheres ovulam no 14º dia.
Ovulação
O aumento do LH provoca a liberação do ovócito pelo ovário. Em um ciclo de 28 dias, ela pode acontecer aproximadamente no meio do ciclo, mas essa data pode variar.
Após a ovulação, o ovócito permanece viável por cerca de 12 a 24 horas. Como os espermatozoides podem sobreviver por vários dias no trato reprodutivo, existe possibilidade de gravidez quando há relação sexual nos dias que antecedem a ovulação.
Fase lútea
Após a ovulação, o folículo rompido transforma-se no corpo lúteo, que produz principalmente progesterona, além de estrogênio. Esses hormônios preparam o endométrio para uma possível gestação.
Quando não ocorre gravidez, o corpo lúteo regride, os níveis hormonais diminuem e o endométrio descama, dando início a uma nova menstruação. É durante essa fase, especialmente nos dias anteriores ao fluxo menstrual, que os sintomas da TPM costumam aparecer.
Quais são os sintomas da TPM?
Os sintomas variam entre as pessoas e podem mudar ao longo da vida.
Sintomas físicos
- Sensibilidade ou dor nas mamas
- Inchaço e sensação de retenção de líquidos
- Cólicas
- Dor de cabeça
- Cansaço
- Alterações do sono
- Dores musculares ou articulares
- Mudanças no apetite
- Desejo por determinados alimentos
- Acne
- Prisão de ventre ou alterações intestinais
Sintomas emocionais e comportamentais
- Irritabilidade
- Ansiedade
- Oscilações de humor
- Tristeza
- Choro fácil
- Dificuldade de concentração
- Sensação de estar sobrecarregada
- Alteração do interesse pelas atividades habituais
- Afastamento social
- Diminuição da energia
- Mudanças no sono e no apetite
Para caracterizar uma síndrome pré-menstrual, não basta apresentar um sintoma isolado. É necessário que exista um padrão cíclico, com manifestações antes da menstruação, melhora após seu início e um período com poucos ou nenhum sintoma durante o restante do ciclo.
Existem cinco tipos de TPM?
Classificações como “TPM A, C, D, H e O” aparecem com frequência na internet, mas não fazem parte dos principais critérios diagnósticos adotados pelas diretrizes médicas atuais.
Essa divisão pode simplificar excessivamente uma condição complexa e levar à indicação de suplementos sem avaliação individual. O diagnóstico deve considerar quais sintomas estão presentes, sua intensidade, o período em que aparecem e o quanto interferem na vida da pessoa.
Também é importante verificar se não existe outra condição, como depressão, transtorno de ansiedade, transtorno bipolar, alterações da tireoide, endometriose ou efeitos de medicamentos. Algumas dessas condições podem piorar antes da menstruação e ser confundidas com TPM.
O que é transtorno disfórico pré-menstrual?
O transtorno disfórico pré-menstrual, conhecido como TDPM, é uma forma grave de transtorno pré-menstrual. Nele, predominam manifestações emocionais intensas, como:
- Irritabilidade ou raiva acentuada
- Tristeza profunda ou desesperança
- Ansiedade intensa
- Mudanças marcantes de humor
- Dificuldade de concentração
- Perda de interesse pelas atividades
- Sensação de falta de controle
- Comprometimento dos relacionamentos, dos estudos ou do trabalho
O TDPM não deve ser tratado como uma “TPM comum”. Ele necessita de avaliação médica e, em muitos casos, de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico.
Pensamentos de morte, automutilação ou suicídio exigem ajuda imediata. No Brasil, é possível procurar uma unidade de emergência, ligar para o SAMU pelo número 192 ou conversar com o Centro de Valorização da Vida pelo 188.
Como a TPM é diagnosticada?
Não existe um exame de sangue específico capaz de confirmar a TPM. O diagnóstico é clínico e depende principalmente da relação entre os sintomas e o ciclo menstrual.
Uma estratégia recomendada é registrar diariamente, por pelo menos dois ciclos consecutivos:
- Sintomas físicos e emocionais
- Intensidade de cada manifestação
- Data de início e término da menstruação
- Impacto nas atividades cotidianas
- Uso de medicamentos
- Qualidade do sono
- Situações de estresse
Esse acompanhamento ajuda a diferenciar a TPM de sintomas que permanecem durante todo o mês ou apenas se intensificam no período pré-menstrual.
O que pode ajudar?
O tratamento depende da intensidade dos sintomas e deve ser individualizado.
Algumas medidas que podem contribuir para a melhora incluem:
- Praticar atividade física regularmente
- Manter horários de sono mais consistentes
- Ter uma alimentação equilibrada
- Reduzir o consumo excessivo de álcool
- Observar se a cafeína piora ansiedade, insônia ou sensibilidade nas mamas
- Desenvolver estratégias para controlar o estresse
- Fazer psicoterapia quando os sintomas emocionais forem relevantes
- Manter um diário menstrual e dos sintomas
Nos casos moderados ou graves, o profissional poderá avaliar tratamentos como terapia cognitivo-comportamental, determinados antidepressivos, especialmente os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, e alguns contraceptivos hormonais.
A escolha depende dos sintomas, das condições de saúde, do desejo de engravidar, do uso de outros medicamentos e das preferências da paciente.
Vitaminas, minerais e chás exigem cuidado
Não é seguro recomendar automaticamente vitamina B6, magnésio, cálcio, cromo, zinco, vitamina E, ômega-3, cafeína ou produtos naturais para cada suposto “tipo de TPM”.
Alguns suplementos foram estudados, mas os resultados variam e a dose precisa ser avaliada. O excesso de certas substâncias pode provocar intoxicações, interações medicamentosas ou outros problemas. Doses elevadas e prolongadas de vitamina B6, por exemplo, podem causar lesões nos nervos.
Chás e plantas medicinais também não são inofensivos apenas por serem naturais. Alguns podem interagir com medicamentos, alterar a pressão arterial, aumentar a diurese ou ser inadequados durante a gravidez e em determinadas doenças.
Antes de utilizar suplementos, fitoterápicos ou medicamentos, converse com um profissional habilitado.
Quando procurar ajuda?
A avaliação profissional é especialmente importante quando:
- Os sintomas prejudicam o trabalho, os estudos ou os relacionamentos
- A tristeza, a ansiedade ou a irritabilidade são intensas
- Há crises de pânico ou comportamento agressivo
- Os sintomas permanecem durante quase todo o mês
- As cólicas ou o sangramento são muito intensos
- Há suspeita de depressão ou outra condição de saúde
- As medidas de autocuidado não produzem melhora
- Existem pensamentos de automutilação, morte ou suicídio
A TPM pode ser controlada, mas não existe uma única solução que funcione para todas as pessoas. Reconhecer o padrão dos sintomas, abandonar a ideia de que se trata de “frescura” e procurar orientação adequada são passos essenciais para recuperar a qualidade de vida.
Profa. Fran Narnib
Fontes consultadas: Diretriz do American College of Obstetricians and Gynecologists, orientações do ACOG sobre síndrome pré-menstrual e Royal College of Obstetricians and Gynaecologists.
