A minha parte continua sendo minha

Hoje, em uma conversa simples, uma aluna me disse que não iria caprichar em um trabalho que precisaria apresentar porque sabia que os colegas da turma também não iriam.

Minha resposta foi imediata: Você não deve pensar assim, e sim, assim, pois

“Eu sou responsável pelo que faço, não pelo que o outro deixa de fazer.”

E continuei conversando com ela. Disse que, enquanto ela estava observando os colegas que talvez não fizessem o trabalho com tanto cuidado, poderia existir alguém observando justamente o contrário nela: a maneira como ela faz bem feito, como se dedica e como capricha naquilo que faz.

Depois, fiquei pensando naquela conversa.

Quantas vezes estamos tão ocupados observando o comportamento dos outros que não percebemos que também estamos sendo observados?

Nem sempre sabemos quem presta atenção em nossas atitudes. Às vezes, alguém aprende conosco sem nunca dizer. Uma criança observa um adulto. Um aluno observa um professor. Um colega observa outro colega. Um filho observa os pais. Pessoas que convivem conosco percebem nossa maneira de trabalhar, de tratar os outros, de cumprir compromissos e de reagir quando ninguém está cobrando.

Somos influenciados e também influenciamos.

E muitas vezes fazemos isso sem perceber.

Quando o comportamento do outro vira desculpa

É muito fácil diminuir nosso esforço quando percebemos que outras pessoas também estão fazendo menos.

“Se ninguém vai caprichar, por que eu vou?”

“Se os outros não cumprem, por que eu preciso cumprir?”

“Se todo mundo faz de qualquer jeito, não faz diferença eu fazer também.”

Mas faz.

Faz diferença principalmente para quem estamos nos tornando.

Existe uma diferença entre observar o comportamento das pessoas ao nosso redor e permitir que esse comportamento determine o nosso. Podemos reconhecer que alguém não fez a parte dele sem transformar essa escolha em justificativa para abandonarmos a nossa.

Porque, no final, cada pessoa responde pelas próprias atitudes.

Se o colega não estudou, essa foi a escolha dele.

Se alguém não cumpriu um compromisso, essa responsabilidade pertence a ele.

Se uma pessoa decidiu entregar um trabalho de qualquer maneira, ela também decidiu sobre a qualidade daquilo que produz.

Mas nenhuma dessas escolhas precisa determinar a minha.

E se todo mundo pensasse assim?

Vale fazer um exercício de imaginação.

E se todos deixassem de fazer o melhor porque alguém também não fez?

E se professores deixassem de preparar boas aulas porque existem alunos desinteressados?

E se alunos deixassem de estudar porque alguns colegas não estudam?

E se profissionais deixassem de trabalhar com cuidado porque perceberam que outros fazem apenas o mínimo?

E se as pessoas deixassem de ser honestas porque encontraram alguém desonesto?

Se todos esperassem que alguém fizesse primeiro, quem começaria?

Se todos diminuíssem seu padrão para acompanhar quem faz menos, qual seria o resultado depois de algum tempo?

Pouco a pouco, aquilo que deveria ser exceção começaria a se transformar em referência.

É assim que padrões ruins podem se perpetuar: quando começamos a justificar nossas escolhas pelas escolhas dos outros.

O problema do pensamento “todo mundo faz” é justamente esse. Ele transfere para o grupo uma decisão que continua sendo individual.

Nem sempre podemos escolher o ambiente em que estamos. Nem sempre podemos controlar o comprometimento das pessoas com quem trabalhamos, estudamos ou convivemos. Mas ainda podemos decidir como nós mesmos vamos agir dentro desse ambiente.

Fazer bem feito também educa

Na educação, falamos muito sobre conteúdo, notas, habilidades e aprendizagem. Tudo isso é importante. Mas a escola também é um espaço de formação de atitudes.

Naquela conversa com minha aluna, havia uma lição que não estava no conteúdo da disciplina.

Ela olhava para quem provavelmente faria menos.

Eu queria que percebesse que talvez alguém estivesse olhando para ela justamente porque ela fazia mais.

Não “mais” no sentido de competir. Não para ser superior aos colegas. Mas no sentido de cuidado, responsabilidade e compromisso com aquilo que recebeu para fazer.

Quando uma criança ou um adolescente aprende a cumprir uma tarefa mesmo quando os colegas não cumprem, está aprendendo algo que vai muito além daquela atividade escolar.

Está aprendendo responsabilidade.

Quando entende que vale a pena fazer um bom trabalho mesmo que não receba aplausos por isso, está construindo autonomia.

Quando percebe que não precisa acompanhar o comportamento do grupo para ser aceito, está fortalecendo sua identidade.

E quando compreende que suas escolhas têm consequências, começa a desenvolver algo fundamental para a vida adulta: a capacidade de assumir responsabilidade por si mesmo.

Isso não significa exigir perfeição.

Responsabilidade não é fazer tudo perfeitamente. Também não significa competir para ser melhor que os outros.

Significa compreender que existe uma parte que nos pertence.

E essa parte não desaparece porque alguém decidiu não fazer a dele.

Alguém pode estar aprendendo com você

Há outro aspecto que raramente consideramos.

Não sabemos o alcance das pequenas atitudes que repetimos todos os dias.

Talvez você nunca descubra que alguém começou a se esforçar mais depois de observar sua dedicação.

Talvez nunca saiba que uma criança aprendeu a tratar as pessoas com respeito porque viu como você as tratava.

Talvez um colega passe a fazer seu trabalho com mais cuidado simplesmente porque conviveu com alguém que não fazia as coisas de qualquer maneira.

Influência nem sempre acontece em discursos.

Muitas vezes ela acontece na rotina.

No horário que cumprimos.

Na palavra que mantemos.

Na forma como tratamos quem não pode nos oferecer nada em troca.

Na maneira como trabalhamos quando ninguém está fiscalizando.

No cuidado com uma tarefa aparentemente pequena.

Aquilo que para nós é apenas um comportamento cotidiano pode se tornar referência para outra pessoa.

Por isso, enquanto observamos os outros, convém lembrar:

também estamos sendo observados.

Não para vivermos preocupados com a opinião alheia, mas para entendermos que nossas atitudes ultrapassam nossa própria experiência.

O perigo de usar o outro como medida

Quando começamos a olhar demais para o comportamento das outras pessoas, corremos o risco de estabelecer nosso padrão pelo nível mais baixo ao nosso redor.

“Ele não fez, então eu também não faço.”

“Ela chegou atrasada, então não tem problema eu chegar.”

“Ninguém estudou, então não preciso estudar.”

“Todo mundo copiou, então copiar não deve ser tão errado.”

Esse raciocínio parece confortável porque diminui nossa responsabilidade. Mas também diminui nossa autonomia.

Se minha maneira de agir depende sempre do comportamento dos outros, então minhas decisões já não estão verdadeiramente nas minhas mãos.

Passo a precisar que os outros sejam responsáveis para que eu também seja.

Preciso que sejam honestos para que eu seja.

Preciso que se esforcem para que eu me esforce.

Preciso que façam o certo para que eu faça.

E isso é uma forma perigosa de viver.

Maturidade começa quando somos capazes de dizer:

“Posso não controlar o que o outro faz, mas ainda posso decidir o que farei.”

E se aqueles que vieram antes tivessem pensado assim?

Existe ainda outra pergunta que vale a pena fazer.

Onde estaríamos se tantas pessoas, ao longo da história, tivessem decidido não tentar porque os outros também não tentavam?

Quantas descobertas deixariam de existir?

Quantas mudanças nunca teriam começado?

Quantos problemas continuariam sem solução?

Avanços na ciência, na educação, na saúde e em tantas outras áreas aconteceram porque algumas pessoas se recusaram a considerar suficiente aquilo que já estava sendo feito.

Alguém perguntou novamente.

Alguém pesquisou.

Alguém tentou outro caminho.

Alguém persistiu quando seria mais confortável repetir o que todos já faziam.

Nem toda mudança precisa ser grandiosa. Esse mesmo princípio aparece nas escolhas mais simples da vida.

Talvez ninguém perceba quem fez um trabalho com cuidado.

Talvez o esforço não seja imediatamente recompensado.

Talvez outras pessoas até considerem exagero.

Mesmo assim, existe algo que permanece: o hábito que estamos construindo dentro de nós.

Porque toda vez que repetimos uma atitude, também estamos treinando uma forma de ser.

O que fazemos quando ninguém está olhando?

Talvez uma das perguntas mais importantes sobre responsabilidade seja esta:

Quem somos quando ninguém está cobrando?

É fácil cumprir uma tarefa quando sabemos que alguém vai verificar.

É fácil caprichar quando existe uma recompensa.

É fácil fazer bem feito quando todos ao nosso redor estão fazendo o mesmo.

O desafio aparece quando não existe fiscalização, quando os outros não se esforçam ou quando seria muito mais simples fazer apenas o mínimo.

É nesses momentos que nossas escolhas revelam muito sobre os valores que estamos construindo.

Não porque precisamos provar alguma coisa aos outros, mas porque estamos formando a nós mesmos.

E há uma ironia nisso: justamente quando acreditamos que ninguém está olhando, alguém pode estar.

A minha parte continua sendo minha

Nem sempre conseguiremos convencer as pessoas ao nosso redor a mudar.

Nem sempre conseguiremos fazer com que todos tenham o mesmo compromisso.

Também não precisamos carregar a responsabilidade que pertence aos outros.

Existe liberdade em entender isso.

Eu não respondo pelo esforço que outra pessoa deixou de fazer.

Não respondo pela escolha que ela fez.

Não respondo pela maneira como decidiu cumprir ou não cumprir sua responsabilidade.

Mas continuo respondendo pela minha.

E, enquanto faço a minha parte, talvez esteja ensinando alguma coisa a alguém sem sequer perceber.

Por isso, em vez de perguntar apenas:

“O que os outros estão fazendo?”

talvez devêssemos perguntar também:

“O que minhas atitudes estão ensinando a quem me observa?”

E, principalmente:

“Que tipo de pessoa eu escolho ser, independentemente do que os outros façam?”

Porque a atitude do outro pode explicar o que ele fez.

Mas não precisa determinar aquilo que eu farei.

Eu sou responsável pelo que faço, não pelo que o outro deixa de fazer.

Enquanto eu observo como os outros fazem, alguém também pode estar observando como eu faço.

E a minha parte continua sendo minha.

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