
Ensinar não é apenas apresentar informações. Um professor pode dominar o conteúdo, preparar bons materiais e explicar várias vezes, mas isso não garante que o aluno aprenda. A aprendizagem depende da relação entre quem ensina, quem aprende, o conhecimento trabalhado e as experiências proporcionadas durante esse processo.
No final do século XIX, o educador norte-americano John Milton Gregory organizou esses elementos na obra The Seven Laws of Teaching. Apesar do nome, as “leis” não são leis científicas nem regras rígidas. São princípios pedagógicos que ajudam o professor a refletir sobre sua prática.
Algumas ideias refletem o contexto educacional da época e precisam ser interpretadas à luz dos conhecimentos atuais. Ainda assim, princípios como partir do conhecimento prévio, utilizar uma linguagem compreensível, estimular a participação do estudante e revisar o conteúdo continuam presentes nas pesquisas sobre aprendizagem.
1. A lei do professor: conhecer aquilo que será ensinado
A primeira lei afirma que o professor precisa conhecer o conteúdo que pretende ensinar.
Isso parece evidente, mas conhecer um assunto não significa apenas memorizar conceitos ou repetir as informações encontradas no livro didático. O professor precisa compreender as relações entre as ideias, reconhecer possíveis dúvidas, selecionar exemplos adequados e encontrar diferentes maneiras de explicar o mesmo conteúdo.
Também não é necessário saber tudo. Um professor responsável pode dizer que não conhece determinada resposta e que irá pesquisá-la. O domínio do conteúdo não está em ter todas as respostas prontas, mas em possuir uma base segura para ensinar, investigar e avaliar informações.
Na prática, essa lei exige estudo contínuo. Quanto melhor o professor compreende o assunto, maior é sua capacidade de adaptar a explicação sem comprometer a precisão científica.
2. A lei do aluno: conquistar atenção e interesse
Gregory afirma que o aluno precisa estar atento e interessado naquilo que está sendo ensinado.
Entretanto, não podemos interpretar essa lei como se a atenção dependesse exclusivamente da vontade do estudante. Atenção não é um estado permanente. Ela varia conforme o ambiente, o cansaço, as emoções, as necessidades individuais, o nível de dificuldade da atividade e o significado atribuído ao conteúdo.
O professor não controla completamente a atenção do aluno, mas pode criar condições que favoreçam sua participação. Uma pergunta intrigante, uma experiência, um problema real, uma imagem, um objeto ou uma situação próxima da vida do estudante pode despertar a curiosidade.
Isso não significa que todas as aulas precisem se transformar em grandes espetáculos. O interesse também nasce quando o aluno compreende o que está fazendo, percebe que consegue avançar e encontra sentido no que aprende.
3. A lei da linguagem: falar de maneira compreensível
A terceira lei estabelece que professor e aluno precisam compartilhar uma linguagem compreensível.
Conhecer palavras técnicas é importante, mas apresentá-las sem explicação pode transformar o conteúdo em uma sequência de termos sem significado. Antes de cobrar que o estudante utilize o vocabulário científico, é necessário ajudá-lo a construir o conceito.
Em uma aula sobre células, por exemplo, palavras como “membrana plasmática”, “citoplasma” e “material genético” precisam ser relacionadas a imagens, comparações, modelos e situações que auxiliem a compreensão. Depois disso, os termos científicos podem ser introduzidos e utilizados com precisão.
A linguagem também envolve gestos, imagens, símbolos, recursos visuais, comunicação alternativa e diferentes formas de expressão. Em uma perspectiva inclusiva, comunicar bem não significa apenas falar com clareza, mas garantir diferentes caminhos para o acesso à informação.
4. A lei da lição: partir do conhecido para chegar ao desconhecido
Segundo Gregory, o conteúdo novo deve ser apresentado a partir daquilo que o aluno já conhece.
A aprendizagem não começa em uma mente vazia. Todo estudante chega à aula com experiências, conhecimentos, interpretações e, algumas vezes, concepções equivocadas. O professor precisa identificar esse ponto de partida.
Antes de ensinar cadeia alimentar, por exemplo, pode perguntar o que acontece com os restos de seres vivos na natureza. Antes de explicar o funcionamento dos pulmões, pode solicitar que os alunos observem a própria respiração. Essas situações permitem aproximar o conhecimento científico das experiências já existentes.
Partir do conhecimento prévio não significa permanecer apenas no que é familiar. O conhecido funciona como uma ponte para alcançar ideias mais complexas. Cabe ao professor verificar se essa ponte é segura, pois uma informação anterior incorreta também pode dificultar novas aprendizagens.
5. A lei do processo de ensino: estimular a atividade mental do aluno
A quinta lei afirma que ensinar é despertar e orientar a atividade mental do estudante.
Isso significa que o professor não pode realizar sozinho todo o trabalho intelectual da aula. Quando apresenta a pergunta, oferece imediatamente a resposta, explica todas as relações e resolve todas as dificuldades, pode deixar pouco espaço para que o aluno pense.
Uma boa aula não é aquela em que apenas o professor trabalha muito. É aquela em que os estudantes observam, fazem perguntas, levantam hipóteses, comparam informações, registram ideias, explicam o que compreenderam e analisam os próprios erros.
A participação ativa não exige abandonar as explicações do professor. Explicações claras continuam sendo necessárias. A diferença está em combiná-las com oportunidades reais de pensamento e participação.
Uma ampla análise publicada por Freeman e colaboradores encontrou melhor desempenho e menor reprovação em cursos de Ciências, Engenharia e Matemática que utilizavam aprendizagem ativa, em comparação com aulas predominantemente expositivas. Embora o estudo tenha sido realizado no ensino superior, seus resultados reforçam a importância de envolver o estudante no processo de aprendizagem. Consultar o estudo na PNAS.
6. A lei da aprendizagem: o aluno precisa elaborar o conhecimento
Gregory entendia que aprender era reconstruir uma ideia no próprio pensamento. Atualmente, podemos dizer que aprender não é apenas escutar, copiar ou reconhecer uma resposta quando ela aparece diante dos olhos.
O aluno precisa relacionar informações, recuperar o que estudou, explicar com suas palavras e utilizar o conhecimento em situações diferentes. Isso ajuda a distinguir compreensão verdadeira de familiaridade.
É possível ler um texto várias vezes e ter a sensação de que ele foi aprendido. Entretanto, quando o material é fechado e a pessoa tenta explicar o conteúdo sem consultar, aparecem as lacunas de compreensão.
Pesquisas sobre prática de recuperação mostram que tentar recordar uma informação pode favorecer a retenção por mais tempo do que apenas estudar novamente o mesmo material. Isso pode ser realizado por meio de perguntas, pequenos quizzes, explicações orais, produção de esquemas sem consulta e correção comentada. Veja o estudo de Roediger e Karpicke.
O erro, nesse contexto, não deve ser tratado apenas como fracasso. Quando identificado e acompanhado de orientação adequada, ele oferece informações importantes sobre o que precisa ser retomado.
7. A lei da revisão e da aplicação: retornar ao conteúdo com propósito
A última lei destaca a importância de revisar, retomar e aplicar o que foi aprendido.
Revisar não significa somente reler o caderno antes da prova. Uma revisão eficiente exige que o estudante tente recuperar o conhecimento, reorganize as ideias e aplique o conteúdo.
O professor pode retomar um assunto por meio de perguntas breves no início da aula, problemas, jogos, atividades práticas, mapas construídos sem consulta, comparação de exemplos ou explicações produzidas pelos próprios estudantes.
Também é importante distribuir essas retomadas ao longo do tempo. Um conteúdo visto apenas uma vez pode ser rapidamente esquecido. Quando ele reaparece em diferentes momentos e contextos, as possibilidades de consolidação e uso aumentam.
E a educação inclusiva?
As sete leis precisam ser aplicadas considerando que os estudantes não aprendem todos da mesma maneira, no mesmo ritmo ou pelas mesmas formas de comunicação.
Uma explicação oral pode ser suficiente para alguns, enquanto outros necessitam de imagens, objetos concretos, repetição, demonstração, comunicação alternativa ou mais tempo para responder. Oferecer caminhos variados não significa reduzir o conteúdo, mas diminuir barreiras desnecessárias para que o aluno consiga acessá-lo e demonstrar o que aprendeu.
Inclusão não é preparar uma única atividade e esperar que todos respondam de maneira idêntica. É conservar os objetivos essenciais da aprendizagem e flexibilizar os meios de participação, compreensão e expressão.
Como aplicar as sete leis em uma aula
Em uma aula sobre misturas, por exemplo, o professor pode:
- estudar previamente o conteúdo e selecionar exemplos corretos;
- despertar a curiosidade mostrando água, óleo, areia e sal;
- empregar palavras compreensíveis e introduzir os termos científicos gradualmente;
- perguntar o que os alunos já sabem sobre esses materiais;
- permitir que observem, comparem e levantem hipóteses;
- solicitar que expliquem o que aconteceu com suas próprias palavras;
- retomar o conteúdo posteriormente com novas situações e perguntas.
Nesse exemplo, ensinar não se limita a apresentar as definições de mistura homogênea e heterogênea. O conteúdo é transformado em observação, investigação, linguagem, explicação e aplicação.
Ensinar exige mais do que transmitir conteúdos
As sete leis de Gregory não oferecem uma fórmula capaz de resolver todos os desafios da educação. Elas também não substituem o planejamento, a avaliação, o conhecimento sobre o desenvolvimento humano ou a compreensão das necessidades específicas dos estudantes.
Sua principal contribuição está em lembrar que o ensino precisa produzir aprendizagem. Para isso, o professor deve conhecer o conteúdo, compreender seus alunos, comunicar-se com clareza, partir do que eles já sabem, estimular o pensamento, acompanhar a construção do conhecimento e criar oportunidades de revisão e aplicação.
O aluno pode até esquecer parte do conteúdo estudado, mas dificilmente esquece uma experiência significativa. O objetivo do professor não é apenas cumprir uma lista de assuntos. É criar condições para que o conhecimento seja compreendido, utilizado e relacionado à vida.
Referências
FREEMAN, S. et al. Active learning increases student performance in science, engineering, and mathematics. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 111, n. 23, p. 8410–8415, 2014. Disponível em: https://doi.org/10.1073/pnas.1319030111.
GREGORY, John Milton. The Seven Laws of Teaching. Obra publicada originalmente no final do século XIX.
ROEDIGER, Henry L.; KARPICKE, Jeffrey D. Test-enhanced learning: taking memory tests improves long-term retention. Psychological Science, v. 17, n. 3, p. 249–255, 2006. Disponível em: https://doi.org/10.1111/j.1467-9280.2006.01693.x.
Autoria: Profa. Fran Narnib Lorenzon
Biopsicoeduca — 2026
Tags: ensino, aprendizagem, práticas pedagógicas, formação de professores, metodologia de ensino, conhecimento prévio, aprendizagem ativa, educação inclusiva, John Milton Gregory.



