Estética e seus excessos: quando o cuidado com a aparência se transforma em sofrimento

Cuidar da aparência pode ser uma forma legítima de autocuidado, expressão pessoal e fortalecimento da autoestima. Usar maquiagem, cuidar da pele, mudar o cabelo ou realizar um procedimento estético não significa, por si só, que uma pessoa não aceite o próprio corpo.

O problema começa quando o desejo de cuidar de si é substituído pela obrigação de alcançar uma aparência considerada perfeita. Nesse momento, a estética deixa de representar uma escolha e passa a funcionar como uma cobrança permanente.

Vivemos em uma época em que rostos e corpos são observados, comparados, fotografados, editados e avaliados continuamente. Rugas, estrias, cicatrizes, poros, manchas, celulite, flacidez e outras características naturais passaram a ser apresentadas como defeitos que precisam ser corrigidos.

Mas até onde vai o autocuidado? Quando a busca pela beleza se torna excessiva? E quais são os riscos físicos e emocionais envolvidos?

A beleza transformada em obrigação

Os padrões de beleza sempre existiram, mas as redes sociais aumentaram sua velocidade e seu alcance. Diariamente somos expostos a imagens cuidadosamente produzidas, com iluminação profissional, maquiagem, poses, filtros e programas de edição.

O problema é que essas imagens modificadas são frequentemente interpretadas como representações da vida real. Com isso, muitas pessoas passam a comparar o próprio corpo, visto de todos os ângulos e em constante transformação, com uma fotografia selecionada e alterada.

Essa comparação é injusta e pode produzir uma sensação constante de inadequação. A pessoa deixa de perguntar “como eu gostaria de me cuidar?” e começa a pensar “o que preciso corrigir para ser aceita?”.

O padrão também muda rapidamente. Em determinado período, valoriza-se um corpo extremamente magro; em outro, curvas acentuadas. Sobrancelhas, lábios, nariz, cabelos e contornos faciais entram e saem de moda. Entretanto, o corpo humano não deveria ser tratado como uma peça que precisa acompanhar todas as tendências.

O mercado da insatisfação

Grande parte da indústria da beleza não vende apenas produtos ou procedimentos. Ela também pode vender a ideia de que existe algo errado com a pessoa.

Primeiro surge ou é reforçada uma insatisfação: o rosto está envelhecido, os lábios são pequenos, o nariz não tem o formato ideal, o corpo precisa ser definido. Depois aparece uma solução aparentemente rápida, muitas vezes divulgada com imagens de “antes e depois”, promoções e promessas de transformação.

Nem toda divulgação de serviços estéticos é abusiva. O problema está nas mensagens que exploram inseguranças, prometem resultados irreais, minimizam riscos ou fazem a pessoa acreditar que sua felicidade, seu relacionamento e seu sucesso dependem de uma mudança física.

Procedimentos estéticos são frequentemente apresentados como simples, rápidos e praticamente isentos de riscos. No entanto, qualquer intervenção que envolva substâncias injetáveis, equipamentos, anestesia ou ruptura da barreira da pele pode provocar complicações.

Quando nunca parece suficiente

Uma alteração estética pode gerar satisfação. Porém, quando a origem do sofrimento está em uma autoimagem profundamente negativa, o resultado pode não trazer o alívio esperado.

A pessoa corrige uma característica e logo encontra outra. Depois de um procedimento, passa a desejar mais volume, mais definição, mais simetria ou uma aparência ainda mais jovem. O problema deixa de ser uma parte específica do corpo e passa a ser a sensação de nunca estar suficientemente bonita.

Alguns sinais de alerta são:

  • Pensar na aparência durante grande parte do dia
  • Comparar-se constantemente com outras pessoas
  • Evitar fotografias, espelhos, encontros ou atividades sociais
  • Conferir repetidamente o próprio rosto ou corpo
  • Usar filtros em todas as imagens por não suportar a aparência real
  • Sentir vergonha intensa de características pouco perceptíveis para outras pessoas
  • Realizar procedimentos sucessivos sem alcançar satisfação
  • Gastar além das próprias condições financeiras
  • Acreditar que uma mudança física resolverá todos os problemas emocionais
  • Sentir ansiedade, tristeza ou desespero por causa da aparência

Esses comportamentos podem indicar que o sofrimento vai além de uma insatisfação cotidiana.

Transtorno dismórfico corporal

O transtorno dismórfico corporal é uma condição de saúde mental caracterizada pela preocupação intensa com um ou mais aspectos da aparência considerados defeituosos. A característica pode ser pequena ou nem sequer ser percebida pelas outras pessoas, mas provoca sofrimento real e significativo.

A pessoa pode passar muito tempo diante do espelho ou evitá-lo completamente, tentar esconder determinadas partes do corpo, buscar reafirmação constante e realizar sucessivos procedimentos estéticos.

Nesses casos, uma nova intervenção pode não solucionar o sofrimento. Como a dificuldade está relacionada à percepção da própria imagem, a insatisfação pode permanecer, mudar de local ou se intensificar.

Isso não significa que toda pessoa que deseja realizar um procedimento tenha um transtorno. O diagnóstico exige avaliação profissional. Entretanto, quando existe preocupação excessiva ou repetição compulsiva de intervenções, o cuidado psicológico ou psiquiátrico deve ser considerado antes de novos procedimentos.

Padronização dos rostos

Outro efeito dos excessos estéticos é a tentativa de reproduzir as mesmas características em pessoas diferentes: sobrancelhas, lábios, queixo, mandíbula, nariz e maçãs do rosto seguindo um único modelo.

Procedimentos bem indicados devem considerar a anatomia, a idade, a saúde, as proporções individuais e os desejos da pessoa. Quando todos os rostos são conduzidos ao mesmo padrão, expressões e características pessoais podem ser apagadas.

A diversidade humana inclui diferentes formatos, cores, texturas, proporções e sinais do envelhecimento. Beleza não deveria significar uniformidade.

Envelhecer não é adoecer

A valorização excessiva da juventude transformou acontecimentos naturais em problemas que supostamente precisam ser combatidos. Linhas de expressão, cabelos brancos, mudanças na pele e alterações do contorno corporal fazem parte do envelhecimento.

É possível desejar cuidar da pele ou suavizar determinada característica. O problema está em tratar o envelhecimento como fracasso, descuido ou perda de valor pessoal.

Essa cobrança é especialmente intensa sobre as mulheres. Espera-se que envelheçam, mas sem aparentar a idade; que cuidem da aparência, mas sem demonstrar esforço; e que permaneçam dentro de um padrão que se torna cada vez mais difícil de alcançar.

O envelhecimento pode trazer mudanças, perdas e desafios, mas também representa história, sobrevivência, aprendizado e continuidade da vida.

Procedimentos estéticos não são isentos de riscos

Mesmo procedimentos considerados pouco invasivos podem ocasionar:

  • Dor, hematomas e inchaço
  • Infecções
  • Reações alérgicas
  • Manchas e cicatrizes
  • Assimetrias
  • Lesões em nervos
  • Necrose de tecidos
  • Obstrução de vasos sanguíneos
  • Alterações visuais
  • Complicações anestésicas
  • Resultados permanentes ou de difícil correção

Em 2025, operações coordenadas pela Anvisa encontraram irregularidades em clínicas inspecionadas, incluindo produtos vencidos, substâncias sem registro, reutilização de materiais de uso único e equipamentos irregulares. Em março de 2026, a Agência reforçou que os preenchedores dérmicos devem ser usados somente nas regiões e nos volumes aprovados, pois aplicações fora dessas indicações aumentam a possibilidade de complicações.

Por isso, preço baixo, popularidade nas redes sociais e fotografias de resultados não são suficientes para avaliar a segurança de um serviço.

Antes de realizar um procedimento

Alguns cuidados são indispensáveis:

  • Verifique se o estabelecimento possui licença sanitária.
  • Confirme se o profissional está legalmente habilitado para realizar o procedimento.
  • Consulte o registro do profissional em seu respectivo conselho.
  • Pergunte sobre os riscos, contraindicações e alternativas.
  • Informe doenças, alergias e todos os medicamentos utilizados.
  • Confira se produtos e equipamentos estão regularizados pela Anvisa.
  • Peça para ver a embalagem, o lote e a validade do produto.
  • Não aceite substâncias sem identificação ou preparadas de maneira irregular.
  • Desconfie de resultados garantidos e de promessas como “risco zero”.
  • Não decida sob pressão de promoções com prazo muito curto.
  • Pergunte quem prestará assistência se ocorrer alguma complicação.
  • Leia cuidadosamente o termo de consentimento antes de assiná-lo.

Uma avaliação responsável também deve investigar as expectativas. O profissional ético precisa saber dizer não quando o procedimento é desnecessário, contraindicado ou incapaz de oferecer o resultado esperado.

Autocuidado ou autoagressão?

Uma maneira de refletir sobre essa diferença é observar de onde vem a decisão.

O autocuidado tende a nascer de uma escolha consciente. Considera riscos, limites, condições financeiras e expectativas possíveis. A pessoa compreende que seu valor não depende do resultado.

O comportamento excessivo costuma ser movido por medo, vergonha, comparação, rejeição ou necessidade de aprovação. A pessoa acredita que só poderá viver, relacionar-se, fotografar-se ou sentir-se digna depois de modificar o corpo.

Algumas perguntas podem ajudar:

  • Estou fazendo isso porque desejo ou porque me sinto pressionada?
  • Espero melhorar uma característica ou transformar completamente minha vida?
  • Conheço e aceito os riscos?
  • Consigo respeitar meus limites financeiros e físicos?
  • Continuaria desejando esse procedimento se ninguém mais soubesse?
  • O resultado que espero é realmente possível?
  • Tenho adiado minha vida até alcançar uma aparência ideal?
  • Preciso de um novo procedimento porque desejo ou porque nunca me sinto suficiente?

Beleza com liberdade e segurança

A estética pode fazer parte do autocuidado, mas não deve se transformar em prisão. Não há problema em desejar uma mudança. O que precisa ser questionado é a crença de que uma pessoa precisa mudar para merecer respeito, amor, oportunidades ou pertencimento.

Também não se trata de condenar os procedimentos estéticos ou responsabilizar individualmente quem os procura. Estamos inseridos em uma cultura que lucra com a insegurança e apresenta corpos reais como problemas a serem corrigidos.

Cuidar de si inclui proteger a saúde, respeitar os próprios limites, buscar informações confiáveis e reconhecer quando uma dor emocional está sendo depositada sobre o corpo.

Um procedimento pode alterar uma característica física. Ele não deve carregar a responsabilidade de curar sozinho a rejeição, a solidão, a baixa autoestima ou a sensação de não ser suficiente.

A beleza pode ser uma escolha. Nunca deveria ser uma obrigação.

Profa. Fran Narnib

Fontes consultadas: Anvisa — Estética com Segurança, operação de fiscalização em clínicas de estética e orientações da Anvisa sobre preenchedores dérmicos.

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