A Mulher que Estou Construindo

A mulher que me ensinaram a ser

Frase para reflexão:

“Antes de descobrir quem eu era, muitas pessoas já haviam me contado quem eu deveria ser.”

Nenhuma mulher começa a construir sua identidade apenas quando se torna adulta. Muito antes de conseguir escolher suas roupas, expressar suas opiniões ou compreender seus sentimentos, ela já recebe mensagens sobre o que significa ser mulher.

Essas mensagens chegam por meio da família, da escola, da cultura, dos relacionamentos e das experiências vividas. Algumas são transmitidas diretamente:

“Menina precisa se comportar.”

“Mulher bonita é mulher magra.”

“Você precisa aprender a cuidar de todos.”

“Não fale tão alto.”

“Seja forte.”

“Não decepcione ninguém.”

Outras mensagens não são pronunciadas, mas são aprendidas pela observação. A menina percebe quem possui voz dentro de casa, quem precisa ceder, quem recebe cuidado e quem vive cuidando de todos. Observa como as mulheres de sua família tratam o próprio corpo, enfrentam os problemas e se posicionam nos relacionamentos.

Antes mesmo de compreender o mundo, ela começa a formar uma imagem de quem precisa ser para receber amor, aprovação e pertencimento.

A identidade começa a ser construída nos relacionamentos

Nos primeiros anos de vida, aprendemos muito sobre nós mesmas por meio da maneira como somos tratadas. A criança ainda não possui recursos suficientes para avaliar se aquilo que dizem sobre ela é verdadeiro. Por isso, pode incorporar as palavras dos adultos como definições sobre quem é.

Uma menina que ouve repetidamente que é desajeitada pode crescer evitando desafios. Aquela que é comparada com irmãs ou colegas pode acreditar que nunca será suficientemente boa. Outra, elogiada apenas por sua aparência, pode aprender que seu valor depende de continuar bonita.

Há também aquela que recebeu reconhecimento por ser obediente, silenciosa e prestativa. Talvez tenha aprendido que só seria amada enquanto não incomodasse ninguém. Na vida adulta, poderá sentir dificuldade para discordar, estabelecer limites ou pedir ajuda.

Isso não significa que toda experiência da infância determine definitivamente o futuro. A identidade continua sendo construída e pode ser ressignificada. Entretanto, aquilo que vivemos inicialmente influencia a maneira como nos percebemos e nos relacionamos.

As palavras que ouvimos podem se transformar em uma voz interna. Com o passar do tempo, já não precisamos que alguém nos critique, porque aprendemos a fazer isso sozinhas.

As mulheres que vieram antes de nós

Grande parte do que aprendemos sobre ser mulher veio das mulheres que nos antecederam.

Mães, avós, tias e cuidadoras transmitiram valores, crenças, medos e formas de enfrentar a vida. Muitas ensinaram coragem, perseverança, trabalho e cuidado. Outras, mesmo sem intenção, também transmitiram inseguranças, silêncios e feridas que nunca conseguiram elaborar.

Talvez sua mãe tenha aprendido que uma mulher deveria suportar tudo para manter a família unida. Sua avó pode ter vivido em uma época na qual as mulheres tinham poucas oportunidades de estudar, trabalhar ou decidir sobre o próprio futuro. É possível que elas tenham ensinado aquilo que conheciam como forma de proteção.

Compreender essa história não significa culpar as mulheres que vieram antes de nós. Significa perceber que algumas crenças familiares atravessam gerações até que alguém tenha consciência suficiente para examiná-las.

Podemos honrar nossa história sem repetir tudo o que recebemos.

É possível agradecer pela força herdada e, ao mesmo tempo, interromper padrões que produziram sofrimento. Podemos conservar os ensinamentos que promovem vida e deixar para trás aqueles que nos ensinaram a desaparecer.

A mulher que precisava agradar

Muitas meninas aprendem desde cedo a perceber as necessidades das outras pessoas. São ensinadas a ajudar, acolher, compreender, ceder e manter a harmonia. Essas habilidades são valiosas, mas se tornam prejudiciais quando a menina entende que suas próprias necessidades sempre devem ocupar o último lugar.

Aos poucos, ela pode se transformar em uma mulher que sabe cuidar de todos, mas não consegue reconhecer quando está cansada. Percebe a tristeza dos outros, mas ignora a própria. Resolve problemas, oferece conselhos e permanece disponível, mesmo quando não possui mais forças.

Ela não diz “sim” porque realmente deseja. Diz porque sente medo de decepcionar, ser rejeitada ou considerada egoísta.

Quando tenta estabelecer um limite, a culpa aparece.

Essa mulher não nasceu acreditando que precisava agradar a todos. Em algum momento, aprendeu que sua aceitação dependia disso.

Talvez tenha recebido carinho quando era prestativa e reprovação quando demonstrava raiva. Pode ter percebido que havia espaço para as necessidades dos adultos, mas não para as suas. Assim, tornou-se especialista em se adaptar para preservar os vínculos.

O problema é que, quando passamos muito tempo tentando corresponder ao que esperam de nós, podemos perder o contato com aquilo que realmente sentimos e desejamos.

A mulher que precisava ser forte

Outra construção comum é a imagem da mulher que suporta tudo.

Ela acredita que não pode parar, fraquejar ou demonstrar que precisa de ajuda. Sente que, se deixar de controlar as coisas por um instante, tudo desmoronará.

Talvez sua força tenha sido necessária em determinados momentos. Algumas mulheres precisaram amadurecer cedo, cuidar dos irmãos, proteger a mãe, enfrentar dificuldades financeiras ou assumir responsabilidades que não correspondiam à sua idade.

A força ajudou-as a sobreviver.

Contudo, uma estratégia necessária no passado pode se transformar em uma prisão no presente. A mulher continua agindo como se não pudesse descansar, confiar ou dividir responsabilidades. Ela oferece apoio, mas não sabe recebê-lo. Demonstra segurança por fora enquanto carrega medo e exaustão por dentro.

Ser forte não deveria significar permanecer sozinha.

A verdadeira força também aparece quando reconhecemos nossos limites, pedimos ajuda e permitimos que alguém cuide de nós. A vulnerabilidade não anula a força. Ela apenas nos lembra de que somos humanas.

A mulher que aprendeu a rejeitar o próprio corpo

As construções sobre a identidade feminina também passam pelo corpo.

Desde cedo, muitas mulheres aprendem que o corpo será observado, avaliado e comparado. O peso, o cabelo, a pele, a altura, os seios, as marcas e as formas corporais tornam-se critérios pelos quais acreditam que serão aceitas ou rejeitadas.

Algumas meninas ouviram comentários sobre o corpo antes mesmo de compreender o significado daquelas palavras. Foram chamadas de “gordinhas”, “magrelas”, “baixinhas”, “sem curvas” ou “desajeitadas”. Talvez os comentários tenham sido apresentados como brincadeiras, mas deixaram marcas.

A menina cresce e passa a olhar para si mesma com os olhos de quem a avaliou.

Diante do espelho, não enxerga apenas seu corpo. Enxerga comparações, críticas, rejeições e padrões que lhe disseram que precisava alcançar.

Cuidar da saúde é importante, mas saúde não pode ser confundida com a obrigação de corresponder a um único modelo corporal. O peso é uma informação sobre o corpo, não uma medida do valor de uma pessoa.

O corpo feminino muda ao longo da vida. Puberdade, gravidez, condições de saúde, uso de medicamentos, alterações hormonais, envelhecimento e menopausa podem transformar sua aparência e seu funcionamento.

Essas mudanças não retiram sua dignidade.

Reconstruir a relação com o corpo não significa obrigar-se a gostar de tudo imediatamente. Pode começar com algo mais possível: parar de tratar o próprio corpo como inimigo.

Quem eu seria se não precisasse corresponder?

Talvez você tenha passado tantos anos cumprindo papéis que já não saiba responder quem é além deles.

Quem é você quando não está cuidando de alguém?

O que deseja quando não precisa escolher aquilo que agrada aos outros?

Quais opiniões deixou de expressar?

Quais partes de sua personalidade diminuiu para caber em determinados relacionamentos?

Quais sonhos abandonou porque disseram que eram impossíveis, inadequados ou tardios demais?

Essas perguntas podem provocar desconforto porque nos aproximam de uma mulher que talvez tenha permanecido escondida. Não porque deixou de existir, mas porque aprendeu que mostrar-se por inteiro poderia ameaçar seus vínculos.

Reencontrar essa mulher exige coragem. Algumas pessoas estavam acostumadas com sua disponibilidade constante e poderão estranhar quando você começar a estabelecer limites. Outras preferiam seu silêncio e poderão se incomodar quando você recuperar sua voz.

Entretanto, amadurecer também significa compreender que ser amada não deveria exigir o abandono de si mesma.

Nem tudo o que lhe ensinaram sobre você é verdade

Talvez tenham dito que você era difícil quando apenas tentava ser ouvida.

Talvez a tenham chamado de fraca quando estava emocionalmente esgotada.

Disseram que era egoísta quando, pela primeira vez, escolheu cuidar de si.

Talvez tenham afirmado que você não seria capaz porque sua coragem ameaçava os limites que haviam estabelecido para sua vida.

Algumas palavras descrevem mais as limitações de quem as pronunciou do que a pessoa que as recebeu.

Isso não significa que toda crítica deva ser rejeitada. Precisamos de humildade para reconhecer nossos erros e aprender. Porém, também precisamos de discernimento para não transformar toda opinião alheia em verdade sobre nossa identidade.

Você pode questionar as definições que recebeu.

Pode observar quais crenças ainda fazem sentido e quais continuam causando sofrimento. Pode reconhecer que determinadas atitudes foram necessárias para sobreviver, mas já não precisam dirigir sua vida.

A mulher que lhe ensinaram a ser faz parte de sua história, mas não precisa determinar todo o seu futuro.

Construir-se não significa começar do zero

Reconstrução emocional não é apagar o passado ou fingir que as feridas nunca existiram. É olhar para a própria história com mais consciência e decidir o que será levado adiante.

Você não precisa rejeitar tudo o que recebeu. Existem forças, valores, afetos e aprendizados preciosos em sua trajetória.

Talvez tenha herdado a coragem de sua mãe, a determinação de sua avó, a criatividade de uma tia ou a perseverança das mulheres que enfrentaram muitas dificuldades antes de você.

Construir-se é escolher.

É conservar aquilo que promove vida e transformar aquilo que produz sofrimento. É agradecer pelo que fortaleceu você e cuidar do que ainda dói.

Você não é apenas a mulher que os outros tentaram formar. Também é a mulher que pode refletir, escolher, aprender e mudar.

A mulher que estou construindo

Construir uma nova relação consigo mesma não acontece de uma vez. É um processo formado por pequenas escolhas.

Acontece quando você percebe que está repetindo uma crítica antiga e decide falar consigo com mais respeito.

Quando sente culpa por estabelecer um limite, mas permanece firme porque sabe que ele é necessário.

Quando cuida da saúde sem usar o ódio pelo corpo como motivação.

Quando pede ajuda em vez de fingir que consegue suportar tudo.

Quando volta a estudar, sonhar, criar ou realizar algo que havia abandonado.

Quando compreende que pode amar outras pessoas sem desaparecer dentro dos relacionamentos.

A mulher que você está construindo não precisa ser perfeita. Precisa ser verdadeira, consciente de seus valores e capaz de acolher a própria humanidade.

Talvez você ainda carregue partes da menina que tentou agradar, da jovem que se comparou e da mulher que precisou ser forte. Todas elas fazem parte de sua história. Não precisam ser desprezadas. Precisam ser compreendidas e acolhidas.

Você pode dizer a elas:

“Obrigada por terem me ajudado a chegar até aqui. Agora, podemos aprender uma nova maneira de viver.”

Para refletir

Quanto da mulher que sou nasceu das minhas escolhas e quanto foi construído pelas expectativas das outras pessoas?

  • Quais características minhas eram mais elogiadas durante a infância?
  • O que eu precisava fazer para receber aprovação?
  • Quais sentimentos eu não tinha permissão para demonstrar?
  • Que tipo de mulher me ensinaram que eu deveria ser?
  • Quais expectativas ainda tento cumprir, mesmo quando me fazem mal?
  • Em quais situações sinto que preciso esconder quem realmente sou?
  • Que parte de mim deseja ser ouvida neste momento?

Exercício terapêutico: o que me ensinaram a ser

Complete as frases com sinceridade:

  • Quando eu era criança, aprendi que uma boa mulher deveria…
  • Em minha família, as mulheres costumavam…
  • Eu recebia amor e aprovação quando…
  • Aprendi a esconder…
  • Ainda tenho medo de ser considerada…
  • Uma frase sobre mim que deixou marcas foi…
  • Uma crença que não desejo mais carregar é…
  • Das mulheres que vieram antes de mim, desejo conservar…
  • A mulher que estou construindo tem o direito de…
  • A partir de agora, quero aprender a…

Depois de escrever, releia suas respostas e utilize duas cores diferentes:

  • Com uma cor, marque as características e os valores que deseja conservar.
  • Com outra, marque as crenças, exigências e padrões que já não combinam com a mulher que deseja construir.

Exercício de ressignificação

Escolha uma frase negativa que você ouviu repetidamente ou aprendeu a dizer para si mesma.

Frase antiga: “Eu preciso dar conta de tudo.”
Nova construção: “Posso ser responsável sem carregar tudo sozinha.”

Frase antiga: “Se eu disser não, deixarão de gostar de mim.”
Nova construção: “Um limite saudável não diminui meu amor nem o meu valor.”

Frase antiga: “Meu corpo precisa mudar para que eu seja aceita.”
Nova construção: “Posso cuidar da minha saúde sem transformar meu corpo em inimigo.”

Agora escreva a sua:

Frase que aprendi:


Aquilo em que escolho acreditar:


Um pequeno passo para esta semana

Escolha uma atitude que represente a mulher que você está construindo:

  • expressar uma opinião que costuma esconder;
  • recusar um pedido que ultrapassa seus limites;
  • pedir ajuda;
  • descansar sem se justificar;
  • retomar uma atividade de que gosta;
  • observar o próprio corpo sem criticá-lo;
  • falar consigo com mais respeito.

Escolha apenas uma ação possível. A reconstrução emocional não acontece por meio de grandes promessas, mas de pequenas escolhas repetidas com consciência.

Mensagem para guardar

Posso honrar a mulher que precisei ser e, ainda assim, escolher conscientemente a mulher que desejo me tornar.

Profa. Fran Narnib

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