COLOCANDO OS PINGOS NOS “IS”

Inclusão no papel, abandono na prática

Falar sobre inclusão é fácil quando não se está dentro de uma sala de aula tentando garantir, ao mesmo tempo, a aprendizagem, o cuidado e a segurança de várias crianças que necessitam de acompanhamento constante.

Nos documentos, a inclusão aparece cercada de palavras bonitas. Fala-se em acolhimento, equidade, respeito às diferenças, adaptação de atividades e garantia de direitos. Nas formações, apresentam-se estratégias, metodologias e orientações sobre como o professor deve agir.

Mas existe uma diferença enorme entre matricular uma criança e oferecer condições para que ela esteja verdadeiramente incluída.

Eu conheci essa diferença na prática.

Já estive sozinha em uma sala com cinco crianças autistas e uma criança com síndrome de Koolen-de Vries, sem monitor ou outro profissional que pudesse me auxiliar.

Eram crianças pequenas, com necessidades muito diferentes entre si. Algumas usavam fraldas. Algumas apresentavam dificuldades importantes de comunicação, compreensão, autonomia e permanência na rotina. Havia necessidade de vigilância constante, porque bastavam poucos segundos de distração para ocorrer uma tentativa de fuga, uma queda, uma agressão, uma crise ou outra situação de risco.

A sala ficava no segundo andar.

Uma das crianças apresentava dificuldade de locomoção e precisava utilizar o elevador, enquanto outras se deslocavam pelas escadas. Apenas essa situação já exigia um planejamento cuidadoso e a presença de mais de um adulto. Afinal, como uma única professora poderia acompanhar uma criança pelo elevador e, ao mesmo tempo, garantir a segurança das demais na escada?

Não poderia.

Mas era exatamente isso que se esperava de mim: que eu encontrasse alguma maneira de fazer o impossível parecer uma rotina normal.

Além de ensinar, eu precisava acolher crises, prevenir acidentes, observar comportamentos, ajudar na alimentação, acompanhar deslocamentos, atender às necessidades de higiene, adaptar atividades e tentar oferecer atenção individualizada a cada criança.

E, muitas vezes, sem recursos adequados. Eu mesma precisei comprar materiais com o meu próprio dinheiro e adaptar o que fosse necessário para tentar atender às necessidades das crianças.

Tudo isso sem poder desviar o olhar por muito tempo.

Houve manhãs em que não fui ao banheiro.

Não porque não tivesse necessidade. Não porque estivesse tão concentrada no trabalho a ponto de me esquecer. Eu não ia porque não tinha coragem de deixar aquelas crianças sozinhas.

O meu direito mais básico precisava ser adiado porque eu sabia que, durante a minha ausência, alguma coisa poderia acontecer.

Quando uma professora precisa escolher entre ir ao banheiro e manter seus alunos seguros, não estamos falando de inclusão.

Estamos falando de abandono institucional.

É importante compreender que não se tratava apenas do meu desconforto ou da minha sobrecarga. A ausência de apoio colocava as próprias crianças em risco.

Quem atenderia uma criança em crise enquanto outra tentasse sair da sala? Quem acompanharia uma criança ao banheiro enquanto as demais permanecessem sozinhas? Quem prestaria auxílio se uma criança caísse, tivesse uma convulsão ou apresentasse alguma emergência?

É muito fácil dizer que o professor deve conhecer as particularidades de cada aluno, adaptar o ensino, trabalhar a autonomia, promover a socialização e garantir a participação de todos.

Mas quem garante as condições para que o professor faça isso?

A falta de estrutura não pode continuar sendo disfarçada como desafio pedagógico.

Há situações que não se resolvem com criatividade. Não se resolvem com força de vontade, planejamento colorido, atividades lúdicas ou mais uma palestra sobre inclusão.

Nenhuma formação ensina uma pessoa a estar em seis lugares ao mesmo tempo.

Nenhum curso transforma uma professora em monitora, cuidadora, profissional de saúde, mediadora, acompanhante e responsável exclusiva pela segurança de toda a turma.

A formação continuada é necessária. O conhecimento sobre autismo, deficiências, síndromes raras e estratégias pedagógicas é fundamental. Entretanto, formar professores sem oferecer condições reais de trabalho é transferir para eles uma responsabilidade que deveria ser compartilhada por toda a rede de ensino.

Depois, quando algo não funciona, é fácil perguntar se a professora planejou corretamente, se utilizou as estratégias adequadas ou se soube manejar o comportamento das crianças.

Quase nunca perguntam se ela tinha ajuda.

Quase nunca perguntam se havia profissionais suficientes, acessibilidade, espaço apropriado, materiais, segurança ou tempo para atender cada necessidade.

A professora é cobrada pelo resultado de uma inclusão que tentaram construir deixando-a sozinha.

Eu não precisava apenas de orientações sobre como incluir.

Eu precisava de um profissional de apoio. Precisava de condições adequadas para acompanhar as crianças nos deslocamentos. Precisava ter o direito de ir ao banheiro sem sentir que estava colocando meus alunos em perigo. Precisava ensinar sem carregar sozinha o medo de que algo grave pudesse acontecer.

A inclusão verdadeira não pode depender do sacrifício físico e emocional de um professor.

Não é justo com quem ensina e, principalmente, não é justo com as crianças.

Matricular não é incluir.

Colocar uma criança dentro de uma sala sem garantir os recursos necessários não é inclusão. É apenas presença física. É exigir que o professor transforme abandono em acolhimento e improviso em política educacional.

Inclusão exige planejamento, acessibilidade, profissionais de apoio, diálogo com as famílias, formação adequada e responsabilidade institucional.

Também exige que os professores sejam ouvidos.

Quem vive a rotina escolar conhece os riscos, as necessidades e os limites que não aparecem nos relatórios ou nos slides das formações.

A escola inclusiva não pode existir apenas no papel, nos discursos e nas campanhas oficiais. Ela precisa existir no cotidiano, justamente no momento em que uma criança precisa de ajuda e há alguém disponível para ajudá-la.

Porque uma educação verdadeiramente inclusiva não abandona a criança.

E também não abandona o professor.

Profa. Fran Narnib Lorenzon

Um comentário sobre “COLOCANDO OS PINGOS NOS “IS”

  1. Avatar de Lilian Nunes Lilian Nunes

    A inclusão realmente se dá na prática, sem deixar de lado o professor, e é de fundamental importância que todos sejam acolhidos e inseridos nesse processo de ensino/aprendizagem.As famílias precisam ser parceiras da escola, para que juntos possamos encontrar as melhores alternativas para crescimento do indivíduo como ser social.O poder público espera que num passe de mágica as demandas de uma escola sejam resolvidas, tanto que não há investimentos na educação, afinal pessoas educadas exigem melhor seus direitos.

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