
A mulher que estou aprendendo a acolher
Durante muito tempo, talvez eu tenha acreditado que precisava me corrigir para merecer amor. Olhava para mim mesma procurando defeitos, inadequações e partes que deveriam ser escondidas. Eu me cobrava mais do que acolhia, julgava mais do que compreendia e, mesmo quando estava cansada, exigia que continuasse forte.
Aprendi a oferecer compreensão aos outros, mas nem sempre soube oferecê-la a mim. Perdoei falhas que não eram minhas, aceitei desculpas que nunca vieram acompanhadas de mudança e permaneci disponível para pessoas que pouco se importavam com o que eu sentia. Entretanto, quando eu errava ou não conseguia corresponder às expectativas, tornava-me minha própria acusadora.
Talvez isso tenha começado muito cedo.
Muitas mulheres cresceram acreditando que seriam amadas se fossem obedientes, prestativas, silenciosas e fáceis de agradar. Aprenderam a perceber as necessidades de todos antes de reconhecer as próprias. Foram ensinadas a não incomodar, a não responder, a não demonstrar raiva e a suportar mais do que deveriam.
Assim, tornaram-se especialistas em acolher o mundo enquanto permaneciam emocionalmente abandonadas por si mesmas.
Mas existe um momento em que a mulher percebe que não pode continuar tratando a si própria como alguém sem importância. Ela compreende que também precisa do cuidado, da paciência e da proteção que oferece aos outros. Esse despertar não acontece de uma vez. É uma aprendizagem construída lentamente, sobretudo para quem passou anos confundindo amor com renúncia e bondade com ausência de limites.
A mulher que estou aprendendo a acolher não é uma versão perfeita de mim. É a mulher real.
É aquela que se cansa, que sente medo, que nem sempre sabe o que fazer e que ainda carrega marcas de experiências dolorosas. É a mulher que, em alguns dias, consegue ser forte e, em outros, precisa admitir que não está bem. Acolhê-la não significa desistir de crescer, mas compreender que ninguém floresce sendo constantemente ferido pela própria voz interior.
Estou aprendendo a olhar para minha história sem desprezar a mulher que precisei ser para sobreviver.
Hoje consigo perceber que alguns comportamentos dos quais me envergonhei foram tentativas de proteção. O silêncio talvez tenha sido a forma encontrada para evitar novos conflitos. A dificuldade de dizer “não” pode ter nascido do medo da rejeição. A necessidade de controlar tudo talvez tenha surgido quando a vida parecia insegura demais. A busca por aprovação pode ter sido alimentada pela sensação de nunca ser suficiente.
Compreender essas raízes não significa permanecer presa a elas. Significa abandonar o julgamento para que a transformação possa começar.
Não preciso odiar quem fui para construir quem desejo ser.
Posso agradecer à mulher que resistiu e, ao mesmo tempo, ensinar-lhe que agora existem outras possibilidades. Posso reconhecer que algumas defesas me protegeram no passado, mas já não precisam comandar o meu presente. Posso dizer àquela versão de mim: “Eu compreendo por que você agiu assim. Você estava tentando sobreviver. Mas agora podemos aprender a viver de outra maneira.”
Acolher também é estabelecer limites
Durante muito tempo, pensei que colocar limites significava ser egoísta, ingrata ou insensível. Temia decepcionar as pessoas e ser vista como uma mulher difícil. Por isso, muitas vezes concordei quando queria recusar, permaneci quando desejava partir e sorri quando, na verdade, estava ferida.
Hoje começo a compreender que o limite não é uma punição. É uma forma de proteção.
Dizer “não” ao que me fere também é dizer “sim” à minha saúde emocional. Afastar-me de relações que me diminuem não significa ausência de amor, mas reconhecimento de que eu também mereço respeito. Não preciso aceitar invasões para provar que sou boa. Não preciso me abandonar para que alguém escolha permanecer.
As pessoas que se beneficiavam da minha falta de limites talvez estranhem quando eu começar a estabelecê-los. Algumas poderão dizer que mudei, que estou fria, egoísta ou distante. Mas nem toda reação negativa significa que estou errada. Às vezes, ela apenas revela que alguém perdeu o acesso irrestrito que possuía à minha disponibilidade.
A mulher que estou aprendendo a acolher não precisa mais pedir desculpas por se proteger.
Autocuidado não é apenas descanso
O autocuidado costuma ser apresentado como um momento agradável, mas ele é muito mais profundo. Cuidar de mim também significa prestar atenção aos sinais do meu corpo, respeitar meus limites, buscar ajuda quando necessário, organizar minhas prioridades e parar de insistir em ambientes que me adoecem.
Autocuidado é não me obrigar a parecer bem quando preciso reconhecer minha dor. É não silenciar minhas emoções para preservar o conforto de quem nunca se preocupou com o meu desconforto. É permitir-me descansar sem transformar o descanso em culpa.
Também é aprender a falar comigo de outra maneira.
A voz que habita dentro de mim pode ser uma extensão das críticas que ouvi durante a vida. Talvez eu repita palavras que um dia me feriram, tratando-me com a mesma dureza daqueles que não souberam me compreender. Mas essa voz pode ser reconstruída.
Em vez de perguntar “Por que você não consegue?”, posso perguntar “Do que você precisa para tentar novamente?”. Em vez de dizer “Você estragou tudo”, posso reconhecer: “Você cometeu um erro, mas um erro não define toda a sua história.” Em vez de me comparar, posso respeitar o ritmo da mulher que estou me tornando.
Reconciliar-me comigo
Reconciliar-me comigo não é fingir que nada aconteceu. Também não é romantizar as dores que vivi. É reconhecer que o passado faz parte da minha história, mas não precisa decidir sozinho o meu futuro.
Existem feridas que talvez não desapareçam completamente, mas podem deixar de governar minhas escolhas. Posso lembrar sem voltar a morar no lugar da dor. Posso reconhecer o que perdi sem acreditar que perdi a possibilidade de ser feliz. Posso cuidar da menina que fui, respeitar a mulher que resistiu e abrir espaço para a mulher que ainda estou construindo.
Estou aprendendo que acolher a mim mesma também envolve aceitar minhas contradições. Posso ser forte e precisar de ajuda. Posso amar alguém e reconhecer que essa relação me faz mal. Posso sentir saudade e, ainda assim, escolher não voltar. Posso perdoar sem permitir uma nova aproximação. Posso mudar de ideia, recomeçar e abandonar caminhos que já não combinam comigo.
Não preciso ter todas as respostas para merecer paz.
A mulher que estou aprendendo a acolher passou tempo demais tentando ser suficiente para todos. Agora ela começa a compreender que o próprio valor não depende da aprovação alheia. Ela ainda está aprendendo, tropeçando e reconstruindo algumas partes. Contudo, pela primeira vez, não está fazendo isso contra si mesma.
Está aprendendo a permanecer ao próprio lado.
E talvez seja esse o começo de uma transformação verdadeira: quando deixo de me tratar como um problema a ser resolvido e começo a me reconhecer como uma vida que merece ser cuidada.
Para refletir
- Em quais momentos você costuma ser mais dura consigo mesma?
- Que comportamentos seus podem ter surgido como formas de proteção?
- Quais limites você precisa estabelecer para preservar sua saúde emocional?
- O que você oferece aos outros, mas ainda tem dificuldade de oferecer a si mesma?
- Que palavras você gostaria de dizer à mulher que precisou ser forte por tanto tempo?
Exercício terapêutico: permanecendo ao meu lado
Escreva uma carta para si mesma começando com estas palavras:
“Eu sei que, durante muito tempo, você precisou…”
Reconheça tudo o que essa mulher enfrentou, as vezes em que precisou continuar mesmo estando cansada e as escolhas que fez com os recursos emocionais que possuía naquele momento. Não a acuse. Procure compreendê-la.
Depois, escreva:
“De agora em diante, quero cuidar de você…”
Registre pelo menos três atitudes concretas de acolhimento que deseja praticar. Pode ser estabelecer um limite, respeitar o próprio descanso, procurar ajuda, abandonar uma cobrança ou parar de permanecer onde você é constantemente ferida.
Finalize com a frase:
“Eu não prometo nunca mais errar, mas prometo não me abandonar quando isso acontecer.”
Profa. Fran Narnib Lorenzon
